quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Poemas do Viandante (329)

329. SÃO HORAS DE ALMOÇO E O MAR BALOIÇA

São horas de almoço e o mar baloiça
na minha ausência de fome,
pequenas ondas murmuram na areia,
o vento soprado pelo voo das gaivotas.
Penso no livro das mutações,
não nesse que alimenta comércio e ilusão
mas naquele que vi num cemitério
e tinha o nome dos mortos escrito a negro,
um rol sem fim de estéreis surpresas
e súbitas mudanças no estado civil.

Às vezes penso nas torres do castelo,
lugares inóspitos de segredos inconfessáveis,
motivo para erguer o pano da muralha,
o velho exercício de traçar fronteiras,
distinguir os de fora e os de dentro,
aqueles a quem amamos e por quem morremos
e os que merecem o ódio e a ruína.
Abrimos a boca no espanto da arquitectura
e não sabemos a vileza do nosso coração,
a pedra de fogo a rugir na história.

Conto as marés, as altas e as baixas,
conto os barcos que se avistam da fortaleza,
conto os dias que passam sem consolo.
As crianças coleccionam seixos e conchas
e cavam buracos na areia, breves oceanos
perante a desmesura do grande mar,
a esperança de um mundo à sua medida.
A configuração da praia muda todos os anos,
pensei, enquanto as vagas desfaziam rochas,
súbitas mutações no livro da memória.