sábado, 31 de março de 2012

Haikai do Viandante (60)


da árvore um ramo
cai breve como um relâmpago
nessas mãos que amo

sexta-feira, 30 de março de 2012

Poemas do Viandante (255)

Cézanne - Le lac d'Annecy

255. CÉZANNE, LE LAC D'ANNECY

águas sagradas
uma árvore
uma casa
o lodo
na sombra da montanha

se chega uma metáfora
ou um corvo rasga
a noite
espero tranquilo
o barqueiro

virá
o enviado de orfeu
cantar na sombra
a luz presa
na madrugada

quinta-feira, 29 de março de 2012

De Abraão a Jesus - uma viagem

Caravaggio - Il Sacrificio di Isacco

Jesus respondeu-lhes: «Em verdade, em verdade vos digo: antes que Abraão fosse, Eu sou!» (Jo 8, 58)

Podemos começar a hermenêutica deste versículo do Evangelho de João sublinhando a natureza intercomunicacional que o sustenta. Jesus fala com outros homens, judeus no caso. O facto de serem judeus apenas é relevante devido à presença da figura de Abraão, o pai dos judeus. Todavia, os judeus são uma espécie de sinédoque da humanidade, na qual se toma a parte pelo todo. Jesus fala a todos os homens. Como se pode sustentar tal ponto de vista? A partir do próprio versículo. Se desviarmos o olhar do destinatário, os judeus, para o lugar de onde Jesus fala, tudo se torna mais claro. De onde fala, então Jesus, qual o topos de onde profere o seu discurso? Fala na e a partir da verdade (Em verdade, em verdade vos digo). O discurso é feito a partir do universal, de um universal que se dirige a alguns particulares, os judeus do Templo, mas que, nesse processo de particularização no espaço e no tempo, não deixa de ser universal. Por isso, ele dirige-se a todos os seres humanos.

Poder-se-á objectar que Abraão não é o pai de todos os povos, mas apenas dos judeus, por via de Isaac, e dos descendentes do seu filho bastardo, Ismael. O discurso de Jesus seria apenas um discurso particular, um assunto privado dos povos semitas. Mas se considerarmos Abraão como uma sinédoque que refere uma parte, neste caso constituída apenas por um exemplar, do todo composto pelos múltiplos fundadores - pais - de povos, a objecção perde sentido. Jesus fala a partir da universalidade da verdade para a universalidade da espécie humana. O seu discurso não é étnico mas universal. 

E o que diz este discurso? Contrapõe o presente a um pretérito. Jesus, que na historicidade da vida do povo onde nasceu veio depois de Abraão, é anterior ao próprio Abraão, o que significa que é anterior a todos os povos, à própria espécie humana. Mas o discurso, o logos, de Jesus é mais complexo. Ele diz-nos não só que é anterior a Abraão, mas que é ao mesmo tempo anterior, posterior e contemporâneo de Abraão, isto é, de cada um de nós. O "Eu sou" de Jesus não se refere a uma ekstase temporal, ao presente, mas a um presente absoluto, a uma presença que está para além das ekstases temporais do passado, presente e futuro. 

O texto de João é a convocação de todos os seres humanos para a viagem, aquela que vai do tempo para fora do tempo, que vai de Abraão para Cristo, que vai da situação aqui e agora para o não-lugar e não-tempo da presença absoluta do Eu sou. Esta viagem tem uma natureza universal e, ao mesmo tempo, particular. Universal porque o fim da viagem é o "Eu sou" crístico; particular, porque cada um, à luz de Abraão, parte da sua situação histórica. Uma viagem da história para fora dela.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Haikai do Viandante (59)

Kawase Hasui

lua em céu feroz
ilumina mar e terra
rio sombra ou foz

terça-feira, 27 de março de 2012

Do desprezo de si e do ódio à vida (II)


No texto anterior, um comentário a Jo 12,25, acabou-se por contrastar duas traduções do mesmo versículo. A questão que ressaltava era se o caminho para a eternidade seria a do desprezo de si, o desprezo de uma identidade tida como ilusória, ou se o ódio à vida, uma vida da qual não somos autores. A identidade empírica, à qual damos tanta importância na vida quotidiana, pode ser não levada em consideração, pois considerá-la seria solidificar aquilo que é um mero construto, um artefacto ou um dispositivo de produção de uma subjectividade. Como todos os dispositivos, artefactos ou construtos, a subjectividade - a identidade do ego - é perecível. Ela só pode existir no espaço e no tempo, e neles deve perecer. Entrar na vida eterna - nesse além do espaço e do tempo - exige assim que o si (self) se dispa de si (ego), enquanto este si for a máscara construída de uma subjectividade mundana.

A outra tradução, a qual dissemos ser complementar da primeira, é de exegese mais difícil. O caminho para a eternidade passa não pelo desprezo de si mas pelo ódio à sua vida.  Devemos odiar a vida que nos foi dada, a vida biológica, a qual inclui a vida social, para entrarmos na eternidade. O problema centra-se na interpretação do termo ódio. Este deve ser interpretado no seio do par amor - ódio. Se se considerar este par como constituído por dois contrários, então o ódio não pode ser uma via de acesso à eternidade. Se, porém, for interpretado no âmbito da filosofia cristã, o ódio não passa de um amor diminuído, de um amor no grau mais baixo da escala amorosa. Odiar a sua vida não significa o contrário do amor, mas de um não considerá-la, não tê-la em atenção, um não ocupar-se dela, para se ocupar com aquilo que da eternidade chama por nós, que apela ao caminho do viandante, à peregrinação do peregrino.


segunda-feira, 26 de março de 2012

Poemas do Viandante (254)

Sisley - Provencher's Mill at Moret


254. SISLEY, PROVENCHER'S MILL AT MORET

naquele moinho
castelo sobre as águas
nasce das mós
o pólen
que traz a primavera

flores brancas
ressoam nos caminhos
e no rosmaninho solar cresce 
o fulgor da sombra
pálida figura
do teu corpo perdido
no horizonte

domingo, 25 de março de 2012

Do desprezo de si e do ódio à vida


Santo Agostinho

Quem se ama a si mesmo, perde-se; quem se despreza a si mesmo, neste mundo, assegura para si a vida eterna (Jo 12,25).

Este versículo do Evangelho de João é composto por dois pares de contrários. O amor de si e o desprezo de si, por um lado; este mundo e a vida eterna, por outro. Esta tradução sublinha, através do si (self) uma conexão com a questão da identidade. Poder-se-ia entender a identidade como uma construção social, uma máscara com que nos apresentamos no mundo, nesse espaço-tempo - um verdadeiro cenário - onde representamos um conjunto de papéis. A palavra de João diria, então, que aquele que se confunde com a sua máscara social fica preso no espaço e no tempo e não acede aquilo que está para lá de todo o espaço e de todo o tempo, a eternidade.

A questão, porém, toma outra coloração se escolhermos outra tradução:

Quem ama a sua vida perdê-la-á, e quem neste mundo odeia a sua vida, guarda-la-á para a vida eterna (Jo 12,25).

Esta tradução acentua não o foco identitário e social mas a dimensão biológica. Mas esta dimensão biológica é apenas o primeiro momento. Amar a vida biológica - talvez por extensão a vida social - acabará por a perder, coisa que acontece a todas as vidas no sentido biológico. Mas o ódio, no espaço e no tempo mundanos, a essa mesma vida limitada (a do bios e a do socius) é o princípio de uma transmutação da própria vida que lhe permite tornar-se eterna, isto é, deixar de ser uma mera vida biológica ou mesmo social.

As duas traduções acabam por salientar aspectos diferentes, embora complementares, do caminho para a eternidade. Mas para o leitor que não domina a língua original e o ambiente semântico onde foi produzido o Evangelho de João aquilo que se torna mais problemático está noutro lado. Desprezo de si ou ódio à sua vida? Qual é o caminho para a eternidade? Uma coisa é o desprezo de uma identidade falsa e ilusória. Outra, o ódio a uma vida da qual não somos autores. [Retomar-se-á esta questão numa das próximas postagens.]

sábado, 24 de março de 2012

Haikai do Viandante (58)


pássaro no ramo
um traço de azul poisado
canta todo o ano

quinta-feira, 22 de março de 2012

Poemas do Viandante (253)

Pissaro- Norwood

253. PISSARO, NORWOOD

a aldeia que te deixou
casas e fumo
a árvore despida
traços de neve
na glória do inverno

do tempo que passou
não vale a pena 
a queixa
nem a memória presa
aos restos da tarde

segue estrada fora
o mundo espera-te 
sonho transfigurado
fumo neve fria
eterno estio por vir

quarta-feira, 21 de março de 2012

Haikai do Viandante (57)


montanha sagrada
sobre as águas e as terras
um traço de nada

Poemas do Viandante (252)

Monet - Impression

252 - MONET, IMPRESSION

algures habita o que esperamos
o barqueiro de remo decidido
aproxima-se da margem
olhos presos na água
e no coração a voz
de quem por ele chama

sábado, 17 de março de 2012

Haikai do Viandante (56)


noite, luz, estrelas,
no jardim me sento para
na escuridão vê-las

sexta-feira, 16 de março de 2012

Poemas do Viandante (251)

Sisley - Les petits prés au printemps

251. SISLEY, LES PETITS PRÉS AU PRINTEMPS

pequenos prados
trazidos pela luz
restos de água
testemunhas de verde
a dançar sob os pés

o tempo ávido
chama por ti

caminhas leve
e absorta
pisas a erva
a memória vazia
algum amor para sempre
perdido

quarta-feira, 14 de março de 2012

Haikai do Viandante (55)

daqui

um sol amarelo
irrompe sobre o arvoredo
violento e belo

terça-feira, 13 de março de 2012

Poemas do Viandante (250)

Degas - Woman Combing her Hair

 250. DEGAS, WOMAN COMBING HER HAIR

o dia chegou
e o corpo renascido
poisa tranquilo
na orla da manhã

os cabelos
floresta de cobre
acordam sonâmbulos
no gesto vazio
preso em tua mão

domingo, 11 de março de 2012

sábado, 10 de março de 2012

Poemas do Viandante (249)

Pissarro - Boulevard de Montmartre

249. PISSARRO, BOULEVARD DE MONTMARTRE

luz noite a traz 
incenso para o céu
cai sobre a terra
abre cavernas 
escuridão na avenida

e tu passas
rasto de fulgor
árvore sem ramos
presa na luz -
sombra pura e delida


sexta-feira, 9 de março de 2012

Meditação

Caravaggio - S. Jerónimo em meditação

A meditação é muitas vezes compreendida como rememoração e retorno a si. Mas se ela for apenas isto, não passará de mero solipsismo mesclado com o mais puro exercício narcísico. Voltar a si, à sua interioridade, não é voltar-se para um espelho onde o ego se contempla a si e se compraz nessa contemplação. Meditar é, fundamentalmente, perder-se não em si mas de si. Este perder-se é um mergulhar no vazio e, ao mesmo tempo, um tornar-se vazio, para que algo que nos transcende absolutamente possa vir e demorar-se aí como se estivesse em sua casa. Meditar é tornar vazia a casa do Senhor. Mas meditar é também um ir e estar no mundo, uma presença constante onde se dá testemunho dessa Outra presença que nos permite estar presentes. Medito ao escrever isto, medito quando faço um poema, medito quando falo com alguém ou caminho na rua, medito nas grandes acções e nos pequenos actos. Talvez a meditação não seja algo que nós fazemos, mas o modo como habitamos neste mundo, o modo como existimos. Meditar é a própria essência da existência humana.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Poemas do Viandante (248)

Manet - The Garden at Bellevue

248. MANET, THE GARDEN AT BELLEVUE

árvore pura sem sombra
eixo do mundo
onde o teu corpo 
volteia gira rodopia
na turbulência 
deste olhar

imóvel esperas o vento
e a cada folha que cai
acendem-se na casa 
musgos e sedas
uma fogueira -
desejo a arder
no centro do furacão

quarta-feira, 7 de março de 2012

Haikai do Viandante (53)


Velho paraíso,
guardo-te entre as coisas
de que mais preciso.

terça-feira, 6 de março de 2012

Haikai do Viandante (52)


das ondas suspenso,
nem barco nem caravela,
na morte me penso.

domingo, 4 de março de 2012

Poemas do Viandante (247)

Monet - Veneza

247. MONET, VENEZA

a cidade 
um incêndio
restos de argila
e calcário
cenário de papel 
e seda a arder 
na voragem
da água

Haikai do Viandante (51)


Um traço sombrio,
árvores, folhas, promessas
de luz e um rio.

sábado, 3 de março de 2012

Poemas do Viandante (246)

Cézanne - Gardanne

246. CÉZANNE, GARDANNE

havia um segredo
no segredo
daquelas casas
uma palavra por dizer
a flor bravia
e solitária
com que partias
se me vinhas ver

sexta-feira, 2 de março de 2012

Poemas do Viandante (245)

Renoir, Boating on the Seine

245. RENOIR, BOATING ON THE SEINE

caminho pela margem
e nas águas sei
a cor dos teus olhos
ao abrirem-se para os meus

barco incendiado
a tarde chega
invade o rio 
ilumina-te 
com o cálice de luz

tudo em ti treme
mãos ansiosas
coração inquieto
a boca incerta
na vastidão das horas

quinta-feira, 1 de março de 2012

Haikai do Viandante (50)


o fim da jornada
começa quando o dia nasce
pela madrugada