sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Poemas do Viandante (337)

337. UM SÍTIO DE PEQUENAS LAGOAS E GRANDES NEBLINAS

Um sítio de pequenas lagoas e grandes neblinas,
lugar de mistérios sombrios e vorazes, perdidos
na lenda, casa branca que todos habitamos,
do pôr do sol ao raiar da aurora.
Sopra um vento fresco e as águas agitam-se,
tremem sob o império do hálito montanhoso,
adormecem se a respiração se suspende na tarde.

Os dias de rancor, um ódio vindo pela estrada
de alcatrão, exercício de perfídia e adultério,
a paisagem entregue ao voo do abutre,
a flora esfacelada e os campos rasgados,
corpo ensanguentado deixado sobre a terra.
Silvas e amoras, as pequenas emboscadas,
ruídos breves que te fazem tremer a mão.

Ao entrar na água fria, o corpo freme e hesita,
para se entregar, de súbito, rendido ao enigma,
à pureza das montanhas, ao voo do falcão.
Não sou camponês, nem em mim habita o desejo
da lavoura. Basta-me olhar os campos
e, perdido nas ruas da cidade, deixar o coração
voar para os cumes agrestes da serra escarpada.