sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Poemas do Viandante (318)

318. SENTO-ME NESTA CADEIRA E PERSCRUTO A HISTÓRIA

Sento-me nesta cadeira e perscruto a história,
os círculos de expansão e a flor contraída,
a escuridão ancestral que sobre nós cai
e o terrível silêncio de Deus a falar em mim,
trazendo uma palavra demasiado grande
para que o meu coração a sustenha,
a saboreie antes de a entregar ao vento,
ao desejo dos homens amontoados em tendas
ou à dissipação das horas sobre a terra furtiva.

Vivemos no tempo do tempo distorcido,
das aves sem penas e das casas destelhadas.
Vivemos no tempo em que o amor rareia
e os homens intrépidos se escondem na floresta,
pobres sombras coleccionadoras de amargura,
giesta precária nascida fora de estação.
Quando o reflexo do céu fende as águas,
o símbolo que guia a vida perde a cor
e os homens vêem o tempo oscilar no trapézio,

mas a história não finda e gira em torno de ti,
afaga-te a pele e escurece-te o ventre e o coração,
desenha na margem do rio estranhos hieróglifos:
uma fiada de jarros brancos e um bando de patos mudos
para assegurar o trabalho do futuro decifrador,
perito em minas e descobridor de alçapões,
o grande sacerdote do passado irremediável,
pobre oficiante desconhecedor do tempo distorcido,
amante de um corpo decomposto em pó e cinzas.

Agostinho de Hipona sabia o que era o tempo,
se não se perguntasse pelo o seu ser
e não aspirasse à vanglória de uma definição,
exercício de cruel raquitismo inventado pela razão
para submeter o voo imponderável do mar
ou a dinâmica dos milhafres sobre a montanha.
Se suspenderes perante o bosque todas as perguntas,
virão pássaros  furtivos tomar-te a mão
para te conduzir em silêncio ao centro do mundo.

Desse lugar sem nome, virá a luz negra do futuro,
o exercício de adivinhação a que te entregas
no desespero de todas as causas estarem perdidas.
Abençoa a perdição e ergue os olhos aos céus,
o caminho para o cume apenas agora começa,
senda improvável escavada na pedra dura,
paisagem de abismos em torno do decrépito corpo.
Canta, pobre perscrutador, pois a história balança
e descreve piruetas sob o império do céu,

divorcia-se do tempo e entrega-se ao celibato,
ao rumor da solidão feito de metonímias,
de grandes oximoros com que nega a realidade
e constrói uma praia de sentido no caos da vida.
Também eu pertenço à ordem de Melquisedeque
e não tenho princípio gerador  nem fim de geração.
O tempo é uma corda de sisal e por ela subo e desço
para visitar os mortos na vida e os vivos na morte,
para Te escutar a palavra que não cabe em mim.

Sento-me na nau dos corvos para ouvir o mar
e oiço o búzio do teu amor a cantar dentro de mim.
Dispo-te e o fulgor do sexo anuncia-me a morte,
a estranha escada por onde vou e volto no tempo,
a cadeira firme com que olho a história:
são inexplicáveis os ventos de agosto sobre as águas,
os negócios do mundo na cegueira dos mercadores,
o declínio da terra no fulgor da ciência.
Também eu sou filho d’Aquele que não tem filhos.