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quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Pensamento humano

JCM - Auto-retrato VII (2014)

Tu és para mim um estorvo, porque os teus pensamento não são os de Deus, mas os dos homens. (Mateus 16:23)

Que bagagens deve o viandante deixar para trás para que a viagem possa prosseguir? Em primeiro lugar, antes de toda a outra mercadoria, deve abandonar os seus próprios pensamentos, as suas considerações sobre si, sobre o mundo ou sobre a própria viagem que é chamado a fazer. Tornar-se pobre em espírito não é outra coisa senão deixar para trás esses pensamentos, que são humanos, demasiado humanos. Isto é, limitados, finitos, retrato do egoísmo próprio. Só assim um outro pensamento se poderá manifestar.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Silenciar as boas acções

Umberto Boccioni - Dynamic Decomposition (1913)

Quando deres esmola, que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua direita, a fim de que a tua esmola permaneça em segredo. (Mateus 6: 3-4)

O que nos leva a realizar uma acção boa? Se meditarmos as palavras de Mateus, deparamo-nos, de imediato, com uma multiplicidade de intenções, as quais estão longe de se acordarem entre si. O gesto com que intervimos parece ligado tanto a motivações altruístas - o bem do outro - como a razões egoístas - a nossa necessidade de recompensa e reconhecimento social. Talvez esta dicotomia seja inultrapassável, apesar da injunção do imperativo categórico kantiano. Se essa é a nossa condição, o melhor será aprender a decomposição dinâmica das nossas motivações e, assim conscientes, realizar a sua purgação. Mas como purificar essas intenções? Pelo exercício contumaz do silêncio. Manter em segredo o bem que realizamos até que aprendamos a desprender-nos do fruto da acção. 

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Renúncia a si e interesse próprio

Giotto di Bondone - A renúncia aos bens (antes de 1300)

Deves saber que até agora nunca ninguém, nesta vida, renunciou a si que não encontre a que renunciar ainda. Poucas pessoas tomam isso em consideração e preservam na renúncia a si. (Meister Eckhart, Instructions Spirituelles, 4)

Os homens medievais não eram diferentes dos homens de hoje. As mesmas paixões e as mesmas virtudes ligam-nos, apesar das diferenças históricas e sociais. O que os distingue, verdadeiramente, é o ideal que orienta a vida de cada um. Sublinho ideal e com isso quero dizer que entre o ideal e a realidade há uma efectiva distância.

O ideal de renúncia à vontade própria era um princípio orientador da vida medieval, que transbordava das instituições religiosas para a vida secular. Ora, hoje em dia, esta ideia é completamente estranha ao nosso modo de vida e à forma como as novas gerações são educadas. Aquilo que a sociedade apresenta como racional é a busca do interesse próprio e a satisfacção da vontade individual ou dos desejos pessoais.

Ao mesmo tempo que os mecanismos de socialização incentivam o egoísmo, quando não o narcisismo, são impotentes para criar as condições materiais para que todos possam satisfazer esse  interesse próprio e perseguir aquilo que o desejo e a vontade lhes ditam. Quando Sarte, em Huis Clos, diz que o inferno é os outros, devido a frustrarem o nosso desejo, apenas apreende uma parte do problema. 

É o próprio mecanismo das sociedades modernas que é infernal, pois necessita, pela sua natureza, de incentivar até ao paroxismo a vontade e o desejo de cada um, ao mesmo tempo que se estrutura de forma que até as necessidades mais básicas são praticamente impossíveis de satisfazer por grande parte das pessoas. Talvez se chegue, um dia, à situação em que aprender a renunciar a si seja mais que uma condição da vida religiosa, para se tornar a condição de possibilidade da existência de sociedades humanas equilibradas num planeta exaurido nos seus recursos.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Últimos dias

Brjullow: Der letzte Tag von Pompeji


Sabe, porém, isto: que nos últimos dias sobrevirão tempos trabalhosos. Porque haverá homens amantes de si mesmos, avarentos, presunçosos, soberbos, blasfemos, desobedientes a pais e mães, ingratos, profanos, sem afecto natural, irreconciliáveis, caluniadores, incontinentes, cruéis, sem amor para com os bons, traidores, obstinados, orgulhosos, mais amigos dos deleites do que amigos de Deus, tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela.  (S. Paulo, 2 Timóteo, 3: 1-5) 

A meditação sobre a expressão últimos dias é fundamental na tradição cristã. Se entendermos por últimos dias aquelas que antecedem a parusia de Cristo, a sua segunda vinda, então todos os dias são os últimos dias. A possibilidade do retorno de Cristo na alma do homem não é um acontecimento distante. Isso implicaria a temporalidade e o decurso histórico. Mas o fundamental não estará nesse fim da história, onde Cristo retorna, mas no que está para além da história e da temporalidade. Eternamente, Cristo está a retornar para julgar os vivos e os mortos. Por isso, a descrição paulina dos últimos dias aplica-se tanto à época em que viveu como à nossa, ou a qualquer outra. Esses últimos dias serão trabalhosos, pois a vinda de Cristo, a sua descida na alma humana é obstaculizada pelo amor-próprio nas múltiplas modalidades que Paulo de Tarso descreve. Vivemos, de facto, os últimos dias, e vivemos a corrupção fundada no egoísmo. Isso é verdade socialmente, mas também o é para cada um de nós. Daí, a necessidade da conversão do ego ao totalmente Outro, a esse vazio que espera o nosso vazio para o preencher.