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quarta-feira, 22 de maio de 2013

Eis aqui o homem

Baldomero Romero Ressendi - Ecce Homo

Saiu, pois, Jesus fora, levando a coroa de espinhos e roupa de púrpura. E disse-lhes Pilatos: Eis aqui o homem. (João 19:5)

Numa sociedade como a nossa, a apresentação do homem flagelado, amarrado, coroado de espinhos, em suma, completamente humilhado, caso a nossa época não estivesse saturada de imagens e não se tivesse tornado insensível a elas, seria uma verdadeira provocação. Os nossos tempos são tempos de homens vitoriosos. Só os vencedores contam. Quem quer rever-se numa imagem de um Cristo humilhado? O cristianismo tornou-se, para as ideias dominantes, aquilo que há de mais repulsivo. A repulsa nasce, em primeiro lugar, da má-consciência - quando existe ainda alguma consciênca - pois este homem humilhado e à beira da execução é a imagem fiel dos milhões de homens humilhados e sobre a dor dos quais se constrói a vitória dos vencedores.

A repulsa tem, porém, ainda outra origem. O que diz Pilatos à multidão ululante? Diz: Ecce homo (eis aqui o homem). Aparentemente, Pilatos estava a apresentar um homem particular, Jesus de Nazaré. Na verdade, porém, ele estava a mostrar à multidão o homem na sua humanidade. Ele devolvia à multidão a imagem de cada um, a terrível imagem da finitude e da impotência humanas perante os poderes do mundo. E é isso que a multidão daqueles dias, assim como os vitoriosos de hoje, não suportam. A arrogância, a velha hübris dos gregos que herdámos e com tanto vigor cultivámos, não suporta a visão do homem finito, limitado e, na verdade, absolutamente impotente perante a desmesura da vida e da morte. Este Cristo abandonado à dor e à morte é insuportável. E é insuportável porque nos detestamos na nossa verdadeira e última condição.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

O peso da palavra

Max Ernst - A primeira palavra límpida (1923)

Naquele tempo, Jesus falou assim à multidão e aos seus discípulos: «Os doutores da Lei e os fariseus instalaram-se na cátedra de Moisés. Fazei, pois, e observai tudo o que eles disserem, mas não imiteis as suas obras, pois eles dizem e não fazem. Atam fardos pesados e insuportáveis e colocam-nos aos ombros dos outros, mas eles não põem nem um dedo para os deslocar. Tudo o que fazem é com o fim de se tornarem notados pelos homens. Por isso, alargam as filactérias e alongam as orlas dos seus mantos. Gostam de ocupar o primeiro lugar nos banquetes e os primeiros assentos nas sinagogas. Gostam das saudações nas praças públicas e de serem chamados 'mestres’ pelos homens. Quanto a vós, não vos deixeis tratar por 'mestres’, pois um só é o vosso Mestre, e vós sois todos irmãos. E, na terra, a ninguém chameis 'Pai’, porque um só é o vosso 'Pai’: aquele que está no Céu. Nem permitais que vos tratem por 'doutores’, porque um só é o vosso 'Doutor’: Cristo. O maior de entre vós será o vosso servo. Quem se exaltar será humilhado e quem se humilhar será exaltado. (Mateus 23,1-12) [Comentário extraído das Sentenças dos Padres do Deserto aqui]

O texto de Mateus, em muitos dos comentários que sobre ele são feitos, parece ter como centro temático a questão da humildade, a crítica ao desejo de exaltação orgulhosa de si mesmo. Contudo, a tensão entre humildade e orgulho é, na orgânica textual, apenas derivada. Não é ela que surge em primeiro lugar, mas emerge como consequência de uma outra temática mais fundamental.

Essa temática é a da autenticidade, a qual se funda num problema relacionado com o estatuto do discurso de fariseus e doutores da lei. Este discurso tem uma relação ambígua com a verdade. Do ponto de vista do conteúdo, o discurso é verdadeiro, está de acordo com a instância de veridicção autorizada, a qual é simbolizada pela expressão “cátedra de Moisés”. O que fariseus e doutores da lei dizem inscreve-se na verdade da tradição mosaica, por isso deve ser feito e observado.

O problema é que a verdade, no caso de fariseus e doutores da lei, não tomou corpo e não se inscreveu no curso do mundo através da acção. Tornou-se numa abstracção, em letra morta, em exercício de vanglória ou em exaltação da razão erudita. Logos e praxis, verbo e acção, razão teórica e razão prática não coincidem. A inautenticidade reside nesta não coincidência.

As várias figuras que no texto retratam o orgulho ou a exaltação encontram a sua raiz na inautenticidade. Só a partir daqui poderemos compreender o que são a humilhação e a conduta humilde. A humilhação é a tarefa de recuperação da autenticidade, e a humildade é a conduta autêntica. Isto significa fazer coincidir a palavra e a acção, recuperar a integralidade de si-mesmo, ao praticar a palavra que se profere. Palavra que fariseus e doutores da lei tinham rompido, ao descarregar de si mesmos o peso deontológico que ela transporta consigo.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Da humilhação

Ter a obrigação de fazer uma coisa absolutamente estúpida é uma prova para a nossa humildade. Pensamos que aquilo que em nós resiste é a nossa inteligência, a razão que acompanha os nossos pontos de vista. Tudo isso é reconfortante para o nosso pequeno ego, mas a verdade é outra. O que resiste em nós é o orgulho, o ego próprio inflacionado perante a estupidez do ego que nos superintende. O que fala em nós nessa resistência é a falta de humildade. É humilhante ter de fazer coisas estúpidas só porque outros, que têm poder para tal, no-lo impõem. Mas essa é uma oportunidade para nos desprendermos de nós mesmos, para nos desligarmos das nossas considerações sobre a natureza superior da nossa pequena máscara e aceitar aquilo que Ele nos envia.