sábado, 18 de agosto de 2012

Poemas do Viandante (331)

331.  A DOR É UM ORIFÍCIO NA TARDE PERFURADA

A dor é um orifício na tarde perfurada,
o prato da balança em que a vida se pesa,
sinal enfurecido de um corpo consigo
desavindo. Fecho os olhos ao sofrimento
e espero o duro combate que a vida impõe,
a arena vazia de onde o animal se retirou.

A dor é apenas a véspera da consciência,
a flor de sombra que anuncia a luz
e prepara o mundo para um destino de cristal,
pequena transparência nos filamentos rochosos,
o velho álbum de fotografias, passado ridículo
de um futuro de areia em terra de aluvião.

Cheiro no tempo a dor que vem
e não é dor de parto. As furtivas auroras
cansaram-se e, sem razão, esconderam-se
na fronteira que une o dia e a noite,
abolindo as longas horas de negociação,
todos os crepúsculos que no poema havia.

Olho a mão cruel que me estendes
e todo o corpo treme na dádiva esperada.
Aguardo o inverno e os dias agrestes,
a casa batida pela fúria do vento.
Todas as coisas inúteis que um dia amei
são rasto de dor, do breve prazer irradiou.