Mostrar mensagens com a etiqueta Cristianismo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Cristianismo. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Encarnação

Luis Fernández - Abstracción (1928)

O espírito geométrico é, na verdade, uma espécie de ganga da vida espiritual, o desperdício que fica de um grande esforço. A vida espiritual não é abstracção, redução do real a uma estrutura racional. Pelo contrário, toda a vida espiritual é encarnação, um fazer descer o espírito na carne, no corpo, para que este se torne espírito e se erga. Contrariamente ao que o senso comum pensa, o cristianismo, ao fazer descer sobre eles o espírito, salvou o corpo e a carne do anátema que o mundo antigo sobre eles tinha lançado.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

A adoração do Menino

Maestro del Retablo di Bolea - Adoración del Niño

Desde há bastante tempo que é moda olhar para o cristianismo a partir das práticas deletérias dos cristãos. Esse olhar enviesado oculta o papel profundo que o cristianismo tem no melhor que há na cultura e civilização ocidentais. Veja-se o exemplo retirado do quadro atribuído ao mestre do retábulo de Bolea. Sem o arquétipo presente na adoração do Menino, não haveria espaço cultural para uma das mais importantes conquistas civilizacionais da humanidade consignada nos direitos das crianças. Mesmo que muitos cristãos, nomeadamente padres católicos, tenham violado de forma infame esses direitos, a sua condenação começa no acto em que uma certa civilização ou cultura coloca no cerne das suas crenças a divindade do Menino Jesus, o respeito infinito pela criança, a qual, para além de humana, é divina. O que se diz dos direitos das crianças, poder-se-ia estender a todas as outras esferas dos direitos civilizacionais, nas quais a dignidade do ser humano, essa reivindicação iluminista, repousa, em última análise, nos textos neo-testamentários. Há coisas que não devemos esquecer.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Uma incongruência

Luis Pintos Fonseca - Cristo

A aguarela do pintor pontevedrino Luis Pintos Fonseca (1906 - 1959) tem o poder de tornar patente a incongruência histórica do cristianismo. Como foi possível que Cristo crucificado, a simbolização da humilhação, do abandono, da irrelevância social, se tornasse, juntamente com a herança helénica, o núcleo dinamizador da mais poderosa civilização material e cultural que alguma vez se manifestou sobre este pobre planeta? Olhamos a aguarela e vemos na morte - e morte na cruz - a semente de um florescimento exuberante. Quando o discurso do mundo se centra no fausto e no poder, não deixa de ser incongruente e causar perplexidade que aquilo que o Ocidente é tenha a sua origem num Deus que veio para morrer.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Algumas questões cruciais

JCM - Black & White Dreams, Belmonte (2008)

Será o cristianismo, como pretende Nietzsche, uma forma de ressentimento e uma negação da vida? Esta pergunta tem outra como resposta. Como poderia uma religião negadora da vida criar a civilização com maior vitalidade e onde a vida foi mais exuberante na sua afirmação e nas suas realizações? E a esta pergunta duas outras se devem juntar. Como pôde um símbolo de morte, a cruz, tornar-se semente de vida, criatividade e realização existencial plena? Como compreender, com a diminuição do influência do cristianismo e da perda de sentido simbólico da cruz para muitos ocidentais, e apesar do poderio e a riqueza actual das sociedades pós-cristãs, que estas sejam percebidas como estando em profunda crise e ameaçadas de morte?

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Do mestre e do discípulo

Francisco de Goya - Obsequio á el maestro

Não está o discípulo acima do mestre, mas o discípulo bem formado será como o mestre (Lucas 6:40).

Há duas maneiras de conceber a sabedoria. A modernidade, ao concentrar a ideia de sabedoria no conhecimento proveniente das ciências empíricas, concebe a sabedoria como cumulativa. O discípulo tem por objectivo ultrapassar o mestre. As sociedades não modernas, porém, viviam segundo uma matriz completamente diferente. Há uma sabedoria primordial que corre o risco, através do acto de transmissão, de se degradar e perder. Por isso, o mestre, se o for efectivamente, transporta essa sabedoria consigo, e o seu magistério será tanto mais completo quanto ele souber transmitir aquilo que recebeu. Nem mais nem menos. E o discípulo o máximo a que pode aspirar é emular o mestre e tornar-se, como ele, em mestre. No cristianismo, o mestre supremo, o detentor da sabedoria primordial, é o próprio Cristo, o modelo proposto a todos os discípulos, isto é, a todos os homens, e no qual todos os homens se devem tornar.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

O desejo e a moral

Edward Burne Jones - A manhã da Ressurreição (1882)

Se alguém quiser vir comigo, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. (Mateus 16:24)

Funda-se o Cristianismo em preceitos morais? Não, eles não são o fundamento da religião que tomou conta da Europa e de uma parte apreciável do mundo. Onde se funda então o Cristianismo? Funda-se no desejo, como refere Mateus: Se alguém quiser vir comigo... Os preceitos morais inscrevem-se num lugar segundo e são inúteis se a faculdade de desejar não estiver mobilizada. Apesar de secundários, esses preceitos são condição necessária. Dois preceitos são indicados por Mateus. A renúncia a si mesmo e o tomar a sua cruz. Através deles o desejo é canalizado - enquanto amor - para o caminho a seguir. E todo o Cristianismo não é outra coisa senão isto.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Os poderes da terra e da sombra

Eliot Elisofon - Marlon Brando kneeling before Kim Hunter in 
a Broadway production of Tennessee Williams’s A Streetcar Named Desire (1947)

Olha-se a cena de Marlon Brando e Kim Hunter e percebe-se, de imediato, que o acto de ajoelhar perante outro ser é muito mais que um acto de submissão a um poder fáctico. Pelo contrário, é um acto da mais pura liberdade, aquela que nasce do amor, desse amor que tudo crê, tudo espera, tudo suporta, desse amor que descura o próprio interesse. A grandeza do cristianismo está toda aí. O homem que ajoelha perante Deus fá-lo por amor e não movido pelo medo de uma potência terrível e opressora. E sempre que, numa Igreja, alguém ajoelha por medo, por submissão a um poder terrível, já está longe do cristianismo e caiu na idolatria, ao transformar os poderes da terra e da sombra em divindades a que presta adoração. Só o amor é justificação para que alguém se ponha de joelhos.

domingo, 24 de novembro de 2013

O escárnio do homem

Emil Hansen - O escárnio de Cristo

Na cena onde Cristo, no seu caminho para a cruz, é vítima de escárnio não encontramos apenas a referência a um acontecimento singular da história inaugural de uma certa religião. Encontramos simbolizada a atitude do homem comum por tudo o que é essencial na humanidade. A radicalidade do cristianismo tem esse estranho poder de suscitar, na vulgaridade que todos trazemos em nós, a necessidade de a defender e, por esse motivo, apoucar o fundamental, tentar torná-lo risível e, devido a essa risibilidade, entregá-lo à morte. O risível objecto de escárnio, que a cena crística simboliza, não é o ridículo das nossas pretensões, mas as nossas possibilidades mais autênticas, a verdade que se esconde no fundo do coração do homem.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Sociedade e não comunidade

Niels Bjerre - A Prayer Meeting (1896)

Para nós que fomos educados numa cultura católica, este quadro do pintor dinamarquês Niels Bjerre tem qualquer coisa de inusitado. Aquelas pessoas encontram-se para uma oração, mas não estabelecem entre elas nenhum princípio de comunidade. Estão umas junto das outras, mas não estão umas com as outras. Seguem caminhos puramente privados. Mesmo a figura do Cristo na cruz não exerce qualquer poder congregador. No mundo católico, uma oração conjunta estabeleceria uma comunidade, uma comunhão. Se se tratasse de uma oração não comunitária, então o indivíduo oraria em solidão. No quadro de Bjerre, não temos nem comunidade nem solidão, mas uma sociedade de indivíduos privados que, ensimesmados, perseguem os seus interesses salvíficos individuais. O quadro de Bjerre permite-nos perceber muito bem o que é a versão protestante do cristianismo e, a partir dela, perceber a diferença radical que tem do catolicismo.

terça-feira, 9 de abril de 2013

O espírito e a história

Maurice Denis - Paradise (1912)

Na sequência de um post anterior, O horror da história, retorna-se à questão da história e ao seu cruzamento com experiência espiritual da humanidade. Os tempos modernos substituíram a ideia de um progresso histórico, de carácter providencial, em direcção à Parusia, a segundo vinda do Cristo, e ao Juízo Final por uma história puramente profana vista como progresso material e moral da humanidade. Em Kant, a humanidade europeia encontrou o seu pensador do progresso moral e no Conde de Saint-Simon descobriu o seu profeta da técnica. A religião cristã, já dividida pela Reforma protestante, vai deixar de ocupar a preeminência que tivera no espaço público e tornar-se um assunto do foro subjectivo dos indivíduos, agora cada vez mais atomizados. Esta subjectivação do espírito do cristianismo teve uma dupla consequência. A perda de uma compreensão global do sentido da espiritualidade, em primeiro lugar. Depois, e como corolário, a transformação da religião em mera moralidade e ritualismo, ou a sua negação, nas formas da indiferença, do agnosticismo e do ateísmo, muitas vezes organizado de forma militante e, nos últimos tempos, adquirindo uma espécie de tonalidade religiosa invertida.

A experiência da humanidade europeia, e por arrastamento da humanidade em geral, do século XX veio tornar patente os limites na crença do progresso moral da humanidade. A perda de vitalidade espiritual ocorrida nos séculos XVIII e XIX abriu as portas para as terríveis experiências totalitárias do século XX e para duas guerras mundiais. A grande experiência que a humanidade europeia, e com ela, mais uma vez, toda a humanidade, começa a fazer neste início do século XXI - uma experiência que talvez tenha começado no outro lado do Atlântico - é que as esperanças depositadas no progresso técnico-científico se estão a mostrar infundadas. O desenvolvimento do conhecimento científico e as revoluções tecnológicas, apesar dos benefícios que trazem com elas, são fontes indescritíveis de dor e de desespero. No cerne das nossas sociedades, a racionalidade tecnocientífica mostra-se impotente para gerar sociedades equilibradas e de bem-estar. Pelo contrário, apesar de alguns momentos onde as sociedades parecem querer encontrar uma forma justa de distribuição dos bens resultantes da ciência e da indústria humanas, logo se sucedem períodos de graves crises, onde o desespero cresce e a injustiça alastra. O paraíso terrestre que a modernidade, sob a ideia de progresso moral e material, prometera aos homens mostra-se, a maioria das vezes, como um verdadeiro inferno para milhões e milhões de pessoas.

Estas constatações não invalidam a bondade de uma educação virada para o progresso da moralidade nem o valor da ciência e da técnica. Mostram apenas os seus limites, os quais são muito mais profundos do que aquilo que o optimismo séculos XVIII e XIX pensou. A dolorosa descoberta que se está a fazer é que a evacuação da religião, e fundamentalmente da espiritualidade cristã, do espaço público, o seu exílio no foro subjectivo, aniquilou um espaço crítico das ilusões mundanas do homem. Destruiu também uma fonte de inspiração para a procura da verdade e do bem. As sociedades ocidentais, e por arrastamento parte das outras, passaram por um momento onde eram animadas por forças meramente mecânicas, que tiveram a sua expressão máxima nas sociedades fordistas e tayloristas do século XX, para chegarem a sociedade caóticas, onde cresce a fragilidade da generalidade das pessoas, ao mesmo tempo que pequenos grupos as submetem ao seu arbítrio e à tirania dos seus desejos, apresentados como interesses legalmente defendidos. É neste caos, já bem visível na Europa do Sul mas que em breve atingirá o centro e o norte, que se deve recolocar a questão da religião e da espiritualidade, como as forças vivas que poderão trazer um novo princípio ordenador às existências individuais e à vida das sociedades. Não uma praxis religiosa vinda da Idade Média ou dos tempos da moderna Inquisição, mas um reinvenção do cristianismo eterno e da eterna busca espiritual da humanidade. É preciso um espaço extra-mundano para olhar criticamente o mundo e as nossas ilusões sobre ele, para descobrirmos modos de vida alternativos ao caos em que nos estamos a precipitar.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Metamorfoses de si

Théodore Chassériau - Paz

'Naquele tempo, o Senhor designou setenta e dois discípulos e enviou-os dois a dois, à sua frente, a todas as cidades e lugares aonde Ele havia de ir. Disse-lhes: «A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Rogai, portanto, ao dono da messe que mande trabalhadores para a sua messe. Ide! Envio-vos como cordeiros para o meio de lobos. Não leveis bolsa, nem alforge, nem sandálias; e não vos detenhais a saudar ninguém pelo caminho. Em qualquer casa em que entrardes, dizei primeiro: 'A paz esteja nesta casa!' E, se lá houver um homem de paz, sobre ele repousará a vossa paz; se não, voltará para vós. Ficai nessa casa, comendo e bebendo do que lá houver, pois o trabalhador merece o seu salário. Não andeis de casa em casa. Em qualquer cidade em que entrardes e vos receberem, comei do que vos for servido, curai os doentes que nela houver e dizei-lhes: 'O Reino de Deus já está próximo de vós. (Lucas 10,1-9.) [Comentário de João Paulo II aqui.]

Em A Metamorfose, Franz Kafka tematiza a transformação espiritual negativa. Alguém acorda transformado num gigantesco insecto. Uma transformação do corpo como símbolo da degradação da condição humana, da degradação do espírito. O texto de Lucas também tematiza uma metamorfose, mas esta de natureza completamente oposta. O sinal dessa metamorfose reside nas últimas palavras O Reino de Deus já está próximo de vós. Poder-se-á fazer uma interpretação política, dizendo que uma teocracia se aproxima. Mas o cristianismo representou um ruptura com as expectativas teocráticas da comunidade judaica. Outra linha de interpretação é ler a frase a partir de um ponto de vista escatológico e pensá-la como aproximação do fim do mundo e o advento do Reino de Deus. Mas o tempo fez perder fulgor a essa interpretação.

Se se pensar o Reino de Deus como uma experiência interior de carácter espiritual, tudo ganha um inesperado sentido. O que está em jogo será a transformação de si mesmo à imagem e semelhança de Cristo, o arquétipo ou modelo de homem que o cristianismo trouxe à humanidade. Será a metamorfose do homem animal no homem espiritual. O texto, no início, refere os lugares e sítios onde o Senhor haveria de ir. Isso deixa-nos perceber que há um processo que vai desta intenção inicial e a promessa final da sua chegada. Este processo é o da metamorfose. Mas como poderá o homem fazer esse caminho e onde terá de caminhar?

Terá de caminhar entre lobos. Mas os lobos talvez não sejam os perigos e ciladas que existem na vida natural e social, mas as nossas próprias ilusões, a desordem no nosso ser ou no reino que somos. Caminhar entre lobos não significa declarar-lhes guerra, exarcebá-los e excitá-los. Isso seria pôr no cerne do caminho a dialéctica do conflito. O caminho da metamorfose é o da pacificação de si mesmo, o da aceitação da sua natureza. Que a paz esteja nesta casa significa não apenas a pura ausência de conflito mas a afirmação da serenidade, o sossego de sua casa, a cura do que há de patológico em nós como o cerne do processo de metamorfose. A serenidade da paz é a possibilidade de realizar o arquétipo que habita no fundo do homem, a possibilidade de deixar vir Aquele que é.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

O escandaloso modelo crístico

Marc Chagall - White Crucifixion (1938)

Aquilo que faz a atracção do cristianismo também está na origem da sua repulsa. A morte na cruz do filho de Deus veio abolir, na economia das religiões, todo o sacrifício humano. Abolir significa aqui tornar ilegítimo do ponto de vista religioso. Esta suprema dádiva de Cristo, o acto de morrer pela salvação dos outros, é o que faz a força do cristianismo. Mas também é aquilo que causa, nos seres humanos, a maior repulsa. Não a sua morte, mas o facto de Cristo se ter tornado, por esse acto, em modelo de humanidade, em protótipo do homem novo, aquilo que todos os homens deveriam seguir. O que estes deveriam seguir, contudo, não era a morte na cruz, mas pura e simplesmente a limitação, a crucificação, das suas pulsões egoístas. Esta limitação do desejo tem a função de criar a abertura onde os outros se possam instalar ao nosso redor. 

Há na morte de Cristo também um modelo de constituição da comunidade humana. Ela é possível no sacrifício que cada um faz de si. É este sacrifício que gera a cooperação justa. O cristianismo não se confunde com as doutrinas do contrato social, as quais são pensadas segundo um modelo de homem antagónico, o homem que segue os seus impulsos egoístas e que procura, através do direito, torná-los legítimos. Neste caso, a limitação dos impulsos egoístas não deriva de uma decisão de sacrifício pessoal, mas do medo da lei, que representa a vontade geral. É perante este modelo liberal do contrato social que o modelo do sacrifício crístico é escandaloso. A sua proposta representa uma enormidade: não esperes pela lei para te conteres, mas fá-lo como princípio originário da tua existência. O escândalo do cristianismo está todo aqui. Não por acaso, nas sociedades modernas e liberais o cristianismo perdeu poder de atracção. Ele propõe um modelo que desconstrói a narrativa que suporta os actuais contratos sociais, desconstrói a ideia de que a comunidade justa pode resultar dos egoísmos exacerbados limitados pelo medo da sanção humana.

domingo, 16 de outubro de 2011

O templo vazio


O templo, no qual Deus, seguindo a sua vontade, quer poderosamente reinar, é a alma do homem. Deus a formou e criou justamente bem igual a si mesmo, como lemos ter Nosso Senhor dito: "Façamos o homem segundo a nossa imagem e semelhança!" (Gn 1,26). E foi também o que ele fez. Tão igual a si fez a alma do homem que, dentre todas as esplêndidas criaturas por Ele maravilhosamente criadas, não há, nem no reino do céu nem sobre a terra, nenhuma que se iguale tanto a Ele, a não ser unicamente a alma humana. Por isso, Deus quer ter esse templo vazio, a ponto de ali não haver nada mais do que Ele só. (Mestre Eckhart, Sermões Alemães: Sermão 1 "Intravit Jesus in templum et coepit eicere vendentes et ementes")

Este excerto de Eckhart permite surpreender duas questões essenciais, ambas respeitantes à alma. Em primeiro lugar, é nela que reside a imagem e semelhança com Deus. Poderíamos contrapor a materialidade do corpo à alma, mas isso pouco nos ajudaria, para além de nos deixar reféns de um conjunto de dualismos de natureza aporética. A segunda questão poderá esclarecer esta. Deus quer a alma como um templo vazio. É no vazio que reside a natureza da alma. Esse vazio, devido à sua relação com o templo, é uma abertura. O que é solicitado ao crente - no fundo, a todo o cristão - é a abertura de si-mesmo. Mais que esta ou aquela acção, o que está em jogo é o esvaziar da alma de tudo o que indevidamente a ocupa, sejam preocupações mundanas, sejam vontades e ilusões próprias, seja, inclusive, o plano de salvação pessoal. O vazio é o vazio, e tudo o que se coloca nesse vazio torna-se num obstáculo à presença de Deus no templo. O que está em jogo então não é a minha salvação pessoal ou do mundo, ou seja do que for, mas a da presença do Criador na sua criatura. Essa presença é a própria salvação da criatura e luz para o mundo criado. Inopinadamente, o cristianismo, naquilo que nele é mais essencial, revela um estranho parentesco com disciplinas espirituais bem distintas dele, como o budismo zen ou o tibetano. Fazer em si o vazio para que o Vazio o preencha.