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terça-feira, 19 de abril de 2016

Da vida interior

Antonio Guijarro - Interior

Muitas vezes opõe-se a vida interior à vida exterior, como se a primeira fosse um lugar muito mais pacífico e paradisíaco do que a segunda. Ora o mundo interior de cada um pode ser bem mais caótico do que o exterior. Toda a vida espiritual, nas suas diversas dimensões, não é mais do que a luta contra o caos que nos habita, a busca por uma ordem que constantemente ameaça ruir e arrastar-nos para o abismo.

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Entre o caos e o cosmos

Álvaro Lapa - Sem título (1964)

A vida do espírito é vista como um mundo organizado, um cosmos em oposição ao caos. Esta visão dicotómica, contudo, falha o essencial. Toda a actividade espiritual, seja qual for a sua natureza, está entre o caos e o cosmos. Não é a completa ausência de forma nem a forma pura definitiva e eterna. Ela é o processo contínuo de transição, onde estruturas formais se libertam do caos, ganham um sentido que se desvanece pois outras estruturas tomam o seu lugar, numa busca de perfeição sempre ameaçada pelo retorno ao informe e à queda no abismo hiante.

sábado, 8 de agosto de 2015

Como um arquitecto

Ángel Orcajo - Arquitecturas IV (1986)

A viagem espiritual - essa aventura que nos cabe ao recebermos o dom da vida - é tão excessiva que não há imagens que esgotem o seu sentido. Por isso, recorrentemente é necessário voltar à viagem e a uma nova imagem, como, por exemplo, a da arquitectura. A viagem é um exercício de projecção e de construção de estruturas arquitectónicas, um exercício em que o viandante, como o arquitecto que extrai o cosmos do caos, retira do informe e do não sentido aquilo que ostenta uma forma e ganha um sentido. 

sábado, 30 de agosto de 2014

Da pintura abstracta

Lee Krasner - Abstract #2 (1946-1948)

O viandante interroga-se muitas vezes sobre o papel da pintura abstracta no desenvolvimento espiritual da humanidade. Não é uma interrogação sobre pintura ou sequer sobre estética. Trata-se antes de uma questão ontológica. Que potências ocultas essa pintura desoculta e traz à luz do dia? Só uma visão ingénua da pintura poderia afirmar que aquilo que está num quadro nada tem a ver com a realidade. A libertação desses planos do real têm que finalidade? A mera expressão de um caos que se libertou da ordem para que o cosmos se dissolva ou é a solicitação para que o espírito apreenda essa desordem originária e encontre um caminho para configurar uma nova ordem?

sexta-feira, 24 de maio de 2013

A ordem precária

Frantisek Kupka - Composição em azul (1925)

Ontem escreveu-se aqui sobre aqueles que, não encontrando um caminho, fazem da existência uma aventura no labirinto. Esta visão, contudo, não estará ainda demasiado dependente da teleologia de Aristóteles e da crença numa causa final? Se deixarmos de acreditar numa causa final que nos move, qualquer que ela seja (emancipação da humanidade, salvação da alma, progresso moral, desenvolvimento técnico, etc. etc.), o que acontecerá? De imediato, a vida deixa de ser interpretada como caminho para um fim determinado, muitas vezes a priori. Com a queda da ideia de um caminho determinado, desaparece também o fantasma do labirinto. O labirinto é ainda um caminho, mas em versão múltipla, entrecruzada e dispersa. 

Do ponto de vista do espírito - da aventura espiritual do homem - fará sentido ter um caminho? Não é o espírito como o vento que sopra onde quer? Se o espírito, aos nossos olhos mortais, é assim, arbitrário e indeterminado, não será a vida uma contínua composição com materiais heteróclitos e dispersos, criando figurações inesperadas, desenhando constelações perecíveis, inventando fronteiras móveis que, continuamente, desenham novos e novos territórios. Talvez a ideia de caminho ainda esteja demasiado presa à mitologia do caos e do cosmos, à construção de uma ordem fixa sobre a matéria prima caótica. Não se trata, todavia, de ceder ao caos, mas de lidar continuamente com ele, configurando-o uma e outra vez, num processo sem fim. Talvez o enigma da vida esteja aí, no facto de não haver nenhum caminho, mas apenas o sítio onde se está e que apela para que lhe imponhamos uma ordem precária, que outros desfigurarão para a tornarem a  configurar.