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sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Fim do mundo

José Gutiérrez Solana - El fin del mundo (1932)

Uma das categorias centrais da vida espiritual é a de fim do mundo. Não se trata, porém, de um reconhecimento de que o mundo terá um fim, mas da própria finitude dos mundos humanos. Cada mundo humano é o produto da vida espiritual, de uma certa compreensão que o espírito tem de si mesmo. Esse mundo terá a sua forma de vida, as suas instituições, os seus costumes e a sua forma de pensar. O apocalipse que revela o fim do mundo significa que a vida espiritual já não se reconhece nesse mundo de vida e em tudo onde ela tomou forma. O espírito prepara-se então para morrer, para renascer num outro mundo, com novas instituições, modos de vida, formas de pensar e de se realizar. A categoria do fim do mundo torna patente a natureza metamórfica da vida espiritual, cristalizando-se nessa categoria o momento libertador de uma forma caduca, a morte desta, e um novo nascimento no espaço e no tempo.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Caminhar por caminhar

Isabel Villar - Ciclistas llegando a la meta (1964)

Uma boa educação prepara a nova geração para colocar e atingir metas. Ter um objectivo na vida e lutar por ele. E nisto está tudo o que a sociedade pode desejar. É isto, caso se alcance o objectivo, que se chama sucesso. Mas se o essencial não for chegar a uma meta, mas antes dissolver metas, libertar a vida de objectivos, deixar que o vento sopre onde quiser? E se não houver mesmo meta alguma para alcançar? Se a finalidade não passar de uma ilusão? Para que servirá tal educação? Não seria melhor que se aprendesse a caminhar apenas pelo caminhar?

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

O primeiro passo

Frantisek Kupka - O primeiro passo (1909)

A viagem espiritual distingue-se da viagem territorial por não possuir um primeiro passo, um ponto de partida, a linha onde terá começado. Também não tem um destino. Numa viagem onde não há princípio nem fim, nenhum passo é o primeiro e, ao mesmo tempo, todo e qualquer passo é o primeiro e, como tal, inicial.

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Do início e do fim

Paul Klee - Ab ovo (1907)

Que maior ilusão poderá haver do que pensar num início? Tanto na vida da natureza como na do espírito não há um início, mas apenas processo de transição que medeiam dois infinitos, o infinito que vem antes e o infinito que vem depois. Mesmo numa interpretação da criação do mundo ex nihilo só em aparência um início. O criador seria o infinito que precede a criação e a criatura. Se não há um início, haverá um fim? Não se estenderá o infinito infinitamente?

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Em tremor

Jesús María Cormán - 6.6 Richter scale (2001)

Não, não é a terra que treme, mas o viandante que, na sua viagem, sente, em temor e tremor, a presença inefável do totalmente Outro. Não é o fim do mundo, é apenas o começo, esse princípio que não tem fim, esse fim que não princípio. Não se trata da destruição mas do começo da revelação.

domingo, 14 de setembro de 2014

Do símbolo (II)

JCM - Raiz e utopia (cemitério de guerra alemão na Normandia) (2007)

Ontem escreveu-se aqui que o símbolo "rasga uma clareira onde a realidade se realiza". Essa, porém, é apenas uma das potências operantes no símbolo, a capacidade de abrir um mundo. Tem também o poder contrário, o de perfazer ou acabar mundos da vida. A característica central do símbolo é a sua ambiguidade. Ele é o que abre, mas também o que encerra e torna acabado aquilo que foi começado e se manifestou no mundo.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

O alfa e o ómega

Édouard Boubat - Paris, France (1962)

Os termos alemães Urmensch e Übermensch poderão ajudar-nos a compreender um dos elementos estruturais da nossa cultura. No entanto, não devemos traduzir Urmensch por homem primitivo ou pré-histórico, nem Übermensch por super-homem. Urmensch pode ser visto como o homem primordial, aquele que é o paradigma de toda humanidade e que está presente no fundo de cada ser humano. Por seu turno, o Übermensch ainda é o homem, mas, ao mesmo tempo, é mais que humano. Não há uma diferença entre o Urmensch e o Übermensch, embora para cada homem em particular, cada ser humano empírico, eles constituam dois pontos diferentes da viagem. Um, o homem primordial, é o ponto de partida, o outro o ponto de chegada. A tradição religiosa do Ocidente, o cristianismo, está toda ela aqui. Um é o alfa e outro é o ómega. Nessa tradição, o Cristo é, ao mesmo tempo o alfa e o ómega, o Urmensch e o Übermensch, o início e o fim do caminho.

quinta-feira, 6 de março de 2014

O leitor final

Antonio Tápies - O leitor final. A carta (1950)

Perante uma comunicação - uma carta, um livro, etc. - o que significa a expressão "leitor final"? Será o último destinatário? Será aquele que toma a leitura como um fim? Não. Por leitor final devemos entender aquele que ao ler se toma a si como fim. Ler faz parte da viagem, dessa viagem que cada um faz para si mesmo. O enigma que o texto traz consigo não reside no próprio texto mas naquilo que ele desencadeia no próprio leitor, de tal forma que este se descobre como o fim de todas as suas leituras.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Elemento fogo

Gustavo Torner - Átomos - Os Quatro Elementos - Fogo (1986)

Ao atingir a perfeição, tudo incandesce, a terra, a água, o ar. No princípio e no fim está o fogo. Crepita nas lareiras, braveia na floresta, sopra no fundo das galáxias. No escuro da noite, quando o coração se exalta e o espírito se ilumina, é o fogo que desce e se torna vida.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

A fonte originária

Valentín Albardíaz - La fuente de doña Inés (1994)

O alfa e o ómega, o princípio e o fim. Não traçarão eles um caminho linear que de um levará ao outro? No princípio não nos será já apontado o fim, ao qual acederemos como mais ou menos rectidão? Mas se tudo isso resultar duma visão distorcida? Se isso acontecer, então o alfa e o ómega serão o mesmo, assim como o princípio e o fim. Podemos chamar fonte, a esse lugar donde tudo parte e aonde tudo deve regressar. O princípio é já a causa final da viagem iniciada. Os dois são a fonte originária donde proviemos e que nos aguarda.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

A ordem precária

Frantisek Kupka - Composição em azul (1925)

Ontem escreveu-se aqui sobre aqueles que, não encontrando um caminho, fazem da existência uma aventura no labirinto. Esta visão, contudo, não estará ainda demasiado dependente da teleologia de Aristóteles e da crença numa causa final? Se deixarmos de acreditar numa causa final que nos move, qualquer que ela seja (emancipação da humanidade, salvação da alma, progresso moral, desenvolvimento técnico, etc. etc.), o que acontecerá? De imediato, a vida deixa de ser interpretada como caminho para um fim determinado, muitas vezes a priori. Com a queda da ideia de um caminho determinado, desaparece também o fantasma do labirinto. O labirinto é ainda um caminho, mas em versão múltipla, entrecruzada e dispersa. 

Do ponto de vista do espírito - da aventura espiritual do homem - fará sentido ter um caminho? Não é o espírito como o vento que sopra onde quer? Se o espírito, aos nossos olhos mortais, é assim, arbitrário e indeterminado, não será a vida uma contínua composição com materiais heteróclitos e dispersos, criando figurações inesperadas, desenhando constelações perecíveis, inventando fronteiras móveis que, continuamente, desenham novos e novos territórios. Talvez a ideia de caminho ainda esteja demasiado presa à mitologia do caos e do cosmos, à construção de uma ordem fixa sobre a matéria prima caótica. Não se trata, todavia, de ceder ao caos, mas de lidar continuamente com ele, configurando-o uma e outra vez, num processo sem fim. Talvez o enigma da vida esteja aí, no facto de não haver nenhum caminho, mas apenas o sítio onde se está e que apela para que lhe imponhamos uma ordem precária, que outros desfigurarão para a tornarem a  configurar.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Pontos de referência

Laurence Stephen Lowry - A Landmark (1936)

A viagem a que o Viandante foi chamado não tem nesta terra uma meta. É um destino sem destino, um destino que se tece no acto de o cumprir. Isso, porém, não significa que a viagem seja desreferenciada. Cada encontro é um ponto de referência, um marco, uma baliza que sugere a rota a seguir. São perigosos, porém, os pontos de referência. Se o Viandante os toma como um fim, então a viagem está perdida. O nobre nómada cedeu à tentação da vida sedentária.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Esquecimento

Esquecer todos os projectos, os fins e os meios, esquecer-me até de esquecer, e deixar acontecer o puro devir do Espírito, segundo a lei que não conheço, a vontade que não domino, o fim que me ultrapassa. O esquecimento do esquecimento, eis a divisa que brilha no pendão.