segunda-feira, 29 de novembro de 2021

Meditação Breve (169) A condição humana

Frank Horvat, Beggar, Calcutta, India, 1953
Eis a nossa condição. Somos todos, de um ou de outro modo, pedintes. Uns estendem a mão para a esmola, outros para o assalto, outros ainda para o fruto do esforço. Só por manifesta cegueira se poderá pensar que existe uma diferença essencial entre as diversas modalidades de estender a mão. São moralmente diferentes, mas ontologicamente todas elas são a manifestação da nossa radical finitude, da nossa nunca superada dependência, da nossa nunca conquistada autarquia. Ricos e pobres, reis e súbditos, todos são pobres pedintes.

sábado, 27 de novembro de 2021

O sal do silêncio (68)

Aaron Siskind, Chicago Facade 7, 1960

Na repetição do idêntico não existe apenas a cadência de um ritmo, mas uma aproximação assimptótica ao silêncio, pela contínua eliminação do diferente, o qual, com aquilo que tem de inusitado, traz a mácula do ruído ao sal da serenidade.

quinta-feira, 25 de novembro de 2021

Histórias sem nexo 27. Sem grinalda

Josep Guinovart, Agramunt IV, 1976

Grácil a Graciela, no grémio, grafou grande grosseria. Gregário, o Gregório grifou como um Graco. Grunhiu o Grimaldo, o grotesco, com a grua na greda, enquanto a grossa Griselda, em greve, greguejava com grima. Em grupo, a gripe grudou-os na gruta gris. Gritaram, grilaram, griparam, sem grinalda.

terça-feira, 23 de novembro de 2021

A Sarça Ardente - 93

Saul Steinberg, November, 1965
Os dias de Novembro
deslizam, mudos,
pela sombra
das acácias,
pelas folhas secas
das tílias,
pelos fios que vão
dos meus olhos
à luz do teu coração.

Novembro de 2021

domingo, 21 de novembro de 2021

Meditação Breve (168) A árvore da vida

Diane Arbus, Xmas tree in a living room, Levittown, Long Island, 1963
Quando se tenta perceber quando a árvore se imiscuiu na vivência do Natal, perde-se o essencial dessa associação. Simbolizar o nascimento de Cristo pela árvore é indicar que se a queda dos homens está associada a uma árvore, a da ciência do bem e do mal, então a sua salvação também depende de uma outra árvore, como se a criança nascida no presépio de Belém se enraizasse na terra, que é a carne, para se elevar ao alto e, desse modo, ser a nova árvore que supera a que foi motivo de queda para os homens. Para além da sabedoria do bem e do mal, diz-nos a árvore de Natal, existe uma outra, a da ciência da Vida, cuja interdição agora está levantada.

sexta-feira, 19 de novembro de 2021

Haikai do Viandante (418)

Toni Schneiders, Gräser im Fluss, 1974
 
Ervas sobre o rio
cobrem o fluxo das águas.
Sonhos e miragens.

terça-feira, 16 de novembro de 2021

Haikai do Viandante (417)

Aaron Siskind, Gloucester, 1944
 
A luva caída

na corrosão do soalho.

Vento de ruína.

domingo, 14 de novembro de 2021

Micronarrativa (57) A mulher dupla

Ilse Bing, Self reflection, 1947
Solteira, cansou-se da solidão. Arquitectou diversas soluções. Das menos ousadas, às mais radicais. Achou as primeiras frouxas, as segundas hiperbólicas. Foi então que lhe ocorreu a solução. Saiu de casa, ganhou distância suficiente, apontou a máquina à janela do quarto. Disparou. Captou si uma dupla imagem, uma em cada vidro. A partir daquele momento, nunca mais estaria só. Se ficasse solteira, seriam duas. Se casasse, o marido seria bígamo, mas isso já não lhe importava.

sexta-feira, 12 de novembro de 2021

A Sarça Ardente - 92

Edgar Degas, Casas junto al mar, 1869
Uma manhã limpa
a lembrar
os dias de Inverno,
se o Sol afasta
as nuvens
para cintilar
sobre o silêncio
e o canto nupcial
adormecido
nas teias de tule,
no lar da memória.

Novembro de 2021

terça-feira, 9 de novembro de 2021

Meditação Breve (167) Cinema

Hiroshi Sugitomo, Cabot Street Cinema, Massachusetts, 1978

De modo bem diferente do teatro e da ópera, em que a luz tem um papel instrumental, o cinema não é outra coisa senão luz, em diferentes modulações, que chega aos olhos dos espectadores e é descodificada em imagens. Fazer cinema parece ser uma forma de esculpir a luz. Esta é de tal modo importante que, para que um filme seja verdadeiramente sentido como tal, o espectador tem de estar mergulhado na escuridão da sala. A luz que banha ecrã salva-o das trevas mais densas. Todo o filme é uma luta contra as trevas.

domingo, 7 de novembro de 2021

Biografias 25. O motociclista

Martin Munkacsi, Motorcycle racing, Europe, c. 1929

Tenho pressa de chegar. A meta espera-me. Com ela, a vitória, a coroa de louros, a certeza de que sou, entre todos, o mais corajoso, aquele que mais arrisca a vida para encurtar o tempo, para ser o mais rápido. Para chegar a onde? Que pergunta. Para chegar à meta, para fugir ao que fui, para me entregar nos braços do que serei, para não ter de encarar a minha imagem devolvida pela superfície polida de um espelho. Se suportasse aquilo que sou, se aceitasse a imagem que me pertence, que necessidade teria de correr desenfreado e ser o primeiro a chegar a lado nenhum.

sexta-feira, 5 de novembro de 2021

Meditação Breve (166) O terror

Lee Miller, SS Prison Guard, Buchenwald, 1945
Não é quando se pratica o terror que este se grava no rosto e emerge como o símbolo da presença do mal no mundo. É na hora em que se é atingido, em que um verdugo se ri ou uma vítima se vinga, que ao rosto chega, numa máscara de espanto e horror, o sinal da presença desse mal nunca compreendido, nunca suportado, mesmo por aqueles que o praticaram. O terror é sempre pessoal e intransmissível.

terça-feira, 2 de novembro de 2021

Micronarrativa (56) O homem do progresso

Elliott Erwitt, Paris, 1989
Certas pessoas são, para a humanidade, autênticos benfeitores e verdadeiros faróis que lhe iluminam o caminho. Ele era um homem voltado para futuro, mesmo quando vestia como se estivesse no passado. Ocupava-o o progresso. Como dizia sempre, há levar as coisas em frente. Ao andar pelas ruas só conhecia um passo, o passo de gigante.