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domingo, 5 de abril de 2015

Da imperfeição do amor

Francisco Arjona - Amor imperfecto (1984-86)

E deixa o meu pranto chegar a Ti. (T. S. Eliot, Quarta-feira de cinzas VI)

Eliot conclui assim o último poema de Quarta-feira de cinzas. E o viandante interroga-se sobre este pranto, sobre a estranha necessidade que o poeta tem em que ele se eleve a Deus. E só um motivo ele descobre que mereça o pranto e a necessidade de o elevar ao Alto, o da imperfeição do amor. A limitação da capacidade de abrir-se à interpelação do totalmente Outro, de O escutar e de O fazer viver na comunidade dos homens. E talvez tudo isto se possa ainda explicar pelo primeiro verso do primeiro poema: Porque eu não espero voltar outra vez.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

A música

Henri Matisse - La Musique (1939)

De todas as artes, a música será aquela cuja natureza espiritual é mais decisiva. Na música já se abandonou a forma e a figura presentes nas artes plásticas, já se deixou para trás o discurso composto por unidades discretas, as palavras, que segmentam a realidade. Na música há o mais puro fluir, como ela fosse o primeiro eco da voz de Deus, o primeiro revestimento que o Logos divino toma para se revelar aos homens. A música é o cume da montanha ao qual todo o viandante aspira a chegar para, de lá, lançar a vista para o além.

terça-feira, 4 de março de 2014

Para além do homem

Francis Bacon - Man Kneeling in Grass (1952)

                                         Digno de compaixão é o homem que não ultrapassa o homem (Séneca).                                                                                       
Ser mais que homem é o desejo inscrito no coração da humanidade, como se a ideia de se ser aquilo que se é fosse escandalosa e digna de compaixão. Nesta ânsia de ultrapassagem podemos pensar com Nietzsche o sobre-homem, mas também podemos pensar o não homem, a não humanidade. Esta não significa obrigatoriamente uma inumanidade entendida como barbárie e ferocidade animal, mas algo que seja incomensurável com o homem. Por exemplo, Deus que permanece inefável para o discurso humano.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Olhar o mar

Georges Lemmen - Beach at Heist (1881-82)

Nestes dias de Agosto sento-me virado para o mar e deixo que as cores cheguem até mim. No oceano encontro todo o mistério do ser, a sua profundidade, o perigo que há nele, a bênção para quem o sabe navegar. Nessas horas, é impossível não crer em Deus, é impossível não ver no barco que passa ao longe um sinal que o Altíssimo envia aos pobres homens perdidos sobre a Terra.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Um novo acto sacrificial

Max Klinger - Sacrifício

Naquele tempo, aproximou-se de Jesus um escriba e perguntou-Lhe: «Qual é o primeiro de todos os mandamentos?» Jesus respondeu: «O primeiro é: Escuta, Israel: O Senhor nosso Deus é o único Senhor; amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com todas as tuas forças. O segundo é este: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior que estes.» O escriba disse-lhe: «Muito bem, Mestre, com razão disseste que Ele é o único e não existe outro além dele; e amá-lo com todo o coração, com todo o entendimento, com todas as forças, e amar o próximo como a si mesmo vale mais do que todos os holocaustos e todos os sacrifícios.» Vendo que ele respondera com sabedoria, Jesus disse: «Não estás longe do Reino de Deus.» E ninguém mais ousava interrogá-lo. (Marcos 12,28b-34) [Comentário de Teresa de Calcutá aqui]

Uma das cifras possíveis para a hermenêutica deste texto de Marcos reside nas palavras holocaustos e sacrifícios, proferidas pelo escriba. Holocaustos e sacrifícios eram elementos estruturais das várias religiões. O sangue da vítima emissária era visto como tendo poder para aplacar a fúria divina, isto é, para aplacar uma dada crise surgida na sociedade dos homens. Cristo faz notar que o essencial da religião, porém, é o amor a Deus e ao próximo como a si mesmo. E é este duplo amor que é reconhecido como tendo mais valor do que qualquer holocausto ou sacrifício.

Sublinha-se assim um processo de transformação crítica da praxis religiosa. A imolação da vítima é substituída pelo amor. A aniquilação do valor dos sacrifícios de sangue estava praticamente consumada. Faltava o acto último de abolição dessas práticas sacrificiais, o sacrifício do próprio Cristo. No entanto, a abolição do sacrifício de sangue não significa a pura e simples abolição de qualquer sacrifício. O texto, tomado na completude do diálogo entre Jesus e o escriba, deixa compreender uma outra forma de sacrifício, o amor.

O amor a Deus, para o qual se devem mobilizar todas as faculdade do homem (o coração, a alma, o entendimento e a vontade), é ainda um acto sacrificial e purificador dessas faculdades. Por norma, o homem deixa-se arrastar para a errância fazendo um uso limitado desses poderes, concentrando-os no acessório, no privado e naquilo que o aliena. O amor incondicional a Deus é o mais estranho e exigentes dos sacrifícios, aquele que contraria as nossas pulsões para o amor próprio.

Também o amor ao próximo contradiz a tendência egoísta presente em cada um de nós. Nos grupos humanos, a rivalidade entre os particulares desencadeava crises que apenas o sacrifício, muitas vezes de uma vítima humana, punha cobro. O texto de Marcos assinala uma transformação da função sacrificial. De resolução de uma crise, o sacrifício, fundado no amor a Deus e ao próximo, torna-se prevenção de conflitos, abertura ao outro e à vida em comum.

sábado, 8 de dezembro de 2012

O bezerro de ouro

Robert Delaunay - Saint-Séverin n.º 2 (1909)

As igrejas e catedrais góticas, mais que todas as outras, tinham no cerne da sua concepção o mistério que conduz o olhar do homem para cima, para aquilo que há de mais elevado no universo dos valores humanos. Esse estranho e vilipendiado mundo gótico, estruturado nos arcos ogivais, que ao fechar apontavam para o alto e simbolizam o mistério da vida, tinha a virtude de fazer coincidir a elevação com aquilo que era o bem supremo. Hoje os homens expulsaram Deus do alto. Muitas igrejas modernas fazem lembrar centros de conferências ou, em casos mais radicais, locais de espetáculo. A altitude e a elevação foram guardadas para as novas catedrais, as sedes dos grandes bancos, locais da nova-velha religião, lugar onde se oculta o seu santo dos santos. O bezerro de ouro tomou, mais uma vez, o coração dos homens.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Do céu, da terra e do homem

José Ramón Zaragoza - Prometeo encadenado

Há dias, perante uma certa polémica que se levanta em torno de figuras como Slavoj Zizek e Alain Badiou, alguém me acusou de ser humanista. Zizek e Badiou, dois pensadores com bastante destaque mediático nos dias de hoje, são herdeiros da tradição anti-humanista que cresceu em França à volta do estruturalismo. Os pensadores estruturalistas, em oposição ao existencialismo de Sartre, vieram declarar a morte do homem. As posições humanista e anti-humanista tiveram em Portugal representantes fora do campo da filosofia. Vergílio Ferreira e Eduardo Prado Coelho, respectivamente. Não sendo eu um particular adepto das posições de Zizek e de Badiou, só podia ser um humanista.

A questão do humanismo deve ser colocada, porém, na sua fonte moderna. Os humanistas surgem no final da Idade Média e representam um movimento que pretende ultrapassar a visão teocêntrica do mundo e colocar o homem, a humanidade, como o centro da acção do próprio homem. Este humanismo foi tomando múltiplas colorações - as mais díspares, diga-se - ao longo da modernidade. O cartesianismo, o iluminismo, o liberalismo e o utilitarismo, o marxismo ou o existencialismo, são exemplos desse triunfo moderno do homem sobre a sombra de Deus, exemplos de uma visão prometaica da mundo. Este humanismo foi desafiado pelo estruturalismo, o qual substituiu o homem pelas estruturas, sejam as da linguagem, as sociais e económicas, as do psiquismo, etc., numa proclamação da morte do homem, depois da proclamação nietzschiana da morte de Deus. 

Na verdade, a querela interessa-me pouco. Falando psicanaliticamente, o humanismo não passa de um narcisismo da espécie humana e o anti-humanismo de um sado-masoquismo, marcado pelo prazer-dor de dissolver o homem. Não acho que o homem esteja morto nem que seja o centro do universo. Utilizando a simbologia extremo oriental, diria que o homem está entre a terra e o céu. É o mediador entre aquilo que está abaixo dele e aquilo que o ultrapassa. Nesta ultrapassagem, contudo, não penso o sobre-homem nietzschiano, aquele que vem depois do homem. De certa forma, estarei muito mais perto da concepção medieval do que de quaisquer dos contendores da querela do humanismo e do anti-humanismo. Não que pense na possibilidade de um retorno à Idade Média. Não há retornos na História. O fundamental é pensar que o que há de mais elevado, aquilo que a tradição chinesa denomina como céu e a ocidental como Deus, seja o centro dinâmico da vida dos homens, mas de homens que substituíram o princípio de autoridade pelo princípio da liberdade, e por isso são modernos.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Desinventar a linguagem

Max Beckmann - Embarcadero de hierro

Sou uma ponte, não aquela que liga o animal ao super-homem, mas a que vai daquele nada de onde vim para esse outro nada para onde me dirijo. Será, porém, alguma coisa essa ponte que liga dois nadas? Não. A ponte ainda é nada. Quando falamos em nada, enredamo-nos de imediato nas dicotomias e simplificações da linguagem, nas armadilhas da lógica, nas seduções da retórica. Quem nos disse que o nada tem por contrário o ser? Quem nos garante que o nada de onde vim é o mesmo para onde vou ou aquele que sou? Tantos lugares comuns, tantos espaços cansados pela utilização quotidiana. Precisamos de rasgar as gramáticas, esquecer a lógica e refazer o dicionário. Talvez Deus, que despreza a gramática, confunde-se com a lógica e só conhece uma palavra, se aproxime de nós ou nós dele. O homem não é o pastor do ser, mas o nada que tem por missão abrir crateras no tecido da língua. O homem é a ponte que leva de um a outro silêncio. Precisamos de desinventar a linguagem.

domingo, 16 de outubro de 2011

O templo vazio


O templo, no qual Deus, seguindo a sua vontade, quer poderosamente reinar, é a alma do homem. Deus a formou e criou justamente bem igual a si mesmo, como lemos ter Nosso Senhor dito: "Façamos o homem segundo a nossa imagem e semelhança!" (Gn 1,26). E foi também o que ele fez. Tão igual a si fez a alma do homem que, dentre todas as esplêndidas criaturas por Ele maravilhosamente criadas, não há, nem no reino do céu nem sobre a terra, nenhuma que se iguale tanto a Ele, a não ser unicamente a alma humana. Por isso, Deus quer ter esse templo vazio, a ponto de ali não haver nada mais do que Ele só. (Mestre Eckhart, Sermões Alemães: Sermão 1 "Intravit Jesus in templum et coepit eicere vendentes et ementes")

Este excerto de Eckhart permite surpreender duas questões essenciais, ambas respeitantes à alma. Em primeiro lugar, é nela que reside a imagem e semelhança com Deus. Poderíamos contrapor a materialidade do corpo à alma, mas isso pouco nos ajudaria, para além de nos deixar reféns de um conjunto de dualismos de natureza aporética. A segunda questão poderá esclarecer esta. Deus quer a alma como um templo vazio. É no vazio que reside a natureza da alma. Esse vazio, devido à sua relação com o templo, é uma abertura. O que é solicitado ao crente - no fundo, a todo o cristão - é a abertura de si-mesmo. Mais que esta ou aquela acção, o que está em jogo é o esvaziar da alma de tudo o que indevidamente a ocupa, sejam preocupações mundanas, sejam vontades e ilusões próprias, seja, inclusive, o plano de salvação pessoal. O vazio é o vazio, e tudo o que se coloca nesse vazio torna-se num obstáculo à presença de Deus no templo. O que está em jogo então não é a minha salvação pessoal ou do mundo, ou seja do que for, mas a da presença do Criador na sua criatura. Essa presença é a própria salvação da criatura e luz para o mundo criado. Inopinadamente, o cristianismo, naquilo que nele é mais essencial, revela um estranho parentesco com disciplinas espirituais bem distintas dele, como o budismo zen ou o tibetano. Fazer em si o vazio para que o Vazio o preencha.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Deus

Deus. Terrível palavra onde escondemos as nossas cobardias. Máscara onde se ocultam traições. Quando chegará a hora onde o coração puro não precisará de tal palavra? Agora, o viandante virou hereje? Mas não será a maior das heresias fazer de Deus um vocábulo, essa capa onde o coração se dissimula?

terça-feira, 22 de junho de 2010

Sobre a morte de José Saramago

Nestes dias, aqueles que a morte de José Saramago ocupou, muitas coisas sem nexo foram ditas. Sublinho, no entanto, aquela que assumiu o cúmulo da irrelevância. Disse L'Osservatore Romano que Saramago "foi um homem e um intelectual de nenhuma admissão metafísica, ancorado até ao fim numa confiança arbitrária no materialismo histórico, aliás marxismo." Como é possível dizer uma coisa destas? Em primeiro lugar, porque o materialismo dialéctico e o marxismo não passam de metafísica, de uma dada metafísica materialista, mas ainda e só metafísica. Em segundo lugar e mais importante, porque, tendo em conta aquilo que li de Saramago, só a metafísica o parecia interessar.

Mesmo a blasfémia, se é que Saramago era um autor blasfemo, é um louvor a Deus. Mas a recorrência da temática religiosa nas suas obras, mesmo que sejam pequenas notas de raspão, é um confronto de uma subjectividade com o terrível silêncio de Deus. Em Saramago havia uma pulsão de neo-converso ao contrário. Era como se o escritor fosse uma espécie de Paulo de Tarso, mas aspirasse ser um João Evangelista ou, de outra forma, um daqueles monges do deserto que fazem a história inicial da mística cristã. Perante a impossibilidade, ele assumia-se então como um S. Paulo ainda quando tomava o nome de Saulo.

A obra e a personalidade do escritor são o exemplo de uma luta metafísica, uma luta trágica, e deveriam merecer uma atenção redobrada, em vez da lamentável nota de L'Osservatore Romano. Saramago é um exemplo de como a crença na subjectividade própria impede de escutar Aquele que fala no silêncio e na pobreza do deserto. A ânsia de encontrar Deus, de o fazer manifestar-se, e a ânsia de salvar o ego tolheram em Saramago o caminho, transformaram-no numa luta titânica desvairada e fecharam-no dentro de si e no mundo, sempre um pequeno mundo, por amplo que seja. Há aqui mais do que um simples negador, há aqui um exemplo do destino do Ocidente. E não apenas daqueles que não conseguem silenciar-se, não conseguem silenciar a ânsia e o desejo que povoa o ego empírico, para que possam escutar Quem fala, mas também um exemplo de como aqueles que detêm o depósito da palavra já não a percebem ou não conseguem dá-la a perceber.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Ser e querer

Deus é um prodígio: Ele é o que Ele quer, / E quer o que Ele é, sem medida nem finalidade (Angelus Silesius, O Viajante Querubínico I, 40). Eis a medida de todo o homem, Deus a perfeita coincidência do ser e do querer, uma coincidência incomensurável e gratuita. Neste espelho descubro os meus limites: não sou aquilo que quero e não quero aquilo que sou. Aqui nasce toda a moral: eu devo ser aquilo que quero. Mas se eu nada quiser e se eu nada for? Quem será em mim e quem em mim quererá?

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Não chamo por Ti

Escuto a tarde a tombar no reino da noite, oiço o rumor dos Teus passos se caminho esquecido de mim e por Ti me deixo conduzir. Abro o coração, o sangue flui tranquilo, e um silêncio de neve rodeia-me delicado, suave, mesmo se é pelo rude mundo que caminho. Não chamo por Ti, pois a minha voz não te alcançaria se já não estivesses nesse lugar de onde por ti chamaria.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Um espaço vazio

Tornar-me um grão de areia, um nada, um espaço aberto e vazio, um espaço onde o que vem de fora e o que vem de dentro circulam sem restrições. Somos nós que afastamos Deus do mundo ao encerrarmos a débil fronteira que cada um é. Quanto mais cerrada for, maior a separação. Medito, por vezes, nas palavras heideggerianas sobre o afastamento de Deus. Mas Deus não se afastou. Está onde sempre esteve, no íntimo de cada um. O Homem é o sinal de Deus no mundo, mas se cada um dos homens fecha o sinal que é, um espectador distante pensará que Deus abandonou o mundo à sua sorte. A verdade, porém, é que o jardineiro esqueceu a sua missão e concentra agora tudo em si. O mundo que era para ele é agora um mundo que é seu, um mundo reduzido à mera propriedade e ao arbítrio do suposto proprietário. Mas se o proprietário se abandonar, se se abrir como espaço, Deus e o mundo reatarão de imediato a ligação e a sensação de derrelicção perderá o sentido.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Sou uma palavra dita

Sou uma palavra dita por Deus, diz Thomas Merton, depois acrescenta: Poderá Deus dizer uma palavra sem sentido? Não, Deus não diz palavras insignificantes, mas para muitos, como para mim, é obscura a palavra proferida. O que significa a palavra que eu sou e que me constitui? Se me debruço sobre a minha vida nada de sólido encontro e nada me permite desocultar o mistério dessa palavra. Há desejos em mim, sempre os houve, mas esses desejos nunca se apresentaram com força e coerência suficientes para moverem a minha vontade a realizá-los. Quem nunca desejou a glória do poder ou a do fazer? No entanto, esses pequenos desejos, pequenos porque não se constituíram como móbiles poderosos, nunca me moveram para uma acção determinada e consequente. Talvez não fossem a interpretação da palavra divina que me fez ser. Assim perdido, incapaz de compreender o significado profundo, me fui retirando de tudo o que é específico da realização do desejo e da ambição do homem. Resta-me apenas aquilo que a necessidade me impõe. Mas a palavra, aquela que me constitui no mais fundo de mim, continua, para a minha consciência, sem significado. Será a palavra de Deus que me fez vir à existência a palavra da minha insignificância, do meu sem sentido?

domingo, 20 de abril de 2008

A máscara colada ao rosto

Se me procuro é ainda a mim que me procuro? Não serei eu o verdadeiro obstáculo que se abre no meu caminho. Se quero ser como os outros não é para que brilhe ainda mais alto do que todos esses outros? Há muito que descobri a imensa falácia que é o meu eu, a sua impotência mundana e os desejos, talvez débeis, de me engrandecer. Caminho dividido entre tudo aquilo que, para o espectáculo do mundo, desejei ser e nunca fui, mas também dividido entre esse eu que aspira à glória dos olhares dos outros e uma secreta palavra que sopra dentro de mim, vinda sei lá de onde, e que me diz da vacuidade dos meus desejos. Sem força para sustentar uma máscara que me contente, sem força para tudo abandonar e seguir a palavra que me chama e me fala do nada onde caminho, do nada de tudo o que desejei, do nada que sou nessa busca de uma máscara que me engrandeça perante os outros e, mais do que tudo isso, me eleve aos meus próprios olhos. Mas como arrancar a medíocre máscara que o tempo, tanto tempo já, colou sobre a pele do rosto? Cada vez que tento puxá-la, uma dor absurda toma conta de mim e os instintos saltam a gritar pela noite fora.

sábado, 19 de abril de 2008

Afastamento de Deus

Às vezes sonho com um retorno a essas horas da infância onde não havia entre mim e Deus uma tão grande distância. Tudo se harmonizava nesse jardim e os meus passos, que eu não sabia serem meus ou sequer passos, caminhavam pelo mundo fora, seguros da sua meta. Um dia, sem dar por isso, tudo se perdeu, ou tudo já estaria perdido e eu ainda não o sabia, soube-o então, soube-o primeiro sem o saber e, com o passar do tempo, fui sabendo cada vez com mais ferocidade. Foi no momento eu que quis ser como os outros, como se estes fossem de alguma maneira, ou soubessem sequer o que seriam se fossem alguma coisa. Nessa hora, Deus afastou-se de mim. Minto. Nessa hora, afastei-me de Deus e a cada dia que passava mais me afastava d’Ele, até Ele não ser mais do que recordação, depois ideia ou sombra, por fim o traço que escrevo no papel ou o suspiro que sai de entre os lábios. Agora não sei o caminho de casa. Quando me dizem que essa casa nunca existiu, assinto com a cabeça, mas o meu coração recusa-se a acreditar.