quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Poemas do Viandante (317)

317. SÃO FRÍVOLOS OS DIAS QUE NOS CABEM

são frívolos os dias que nos cabem
a herança de antepassados dadivosos e cruéis
que raptaram para si a terra rude
e deixaram à descendência o musgo suave
terras de seda e planícies de algodão
malévolos antepassados que tanto nos amaram
e esse amor esgotou a nossa energia
a velha sabedoria da terra
o rumor dos passos na sombra da cidade

ontem estive nas praias da normandia
e vi as crateras abertas nos campos de batalha
o ferro retorcido e o cimento esfacelado
estive em omaha e utah em sword e pointe de hoc
e chorei por aqueles que desembarcaram na morte
mas também por quem a recebeu dos ares
chorei por amigos e inimigos
e pela crueldade da vida que mandou morrer
gente mais nova que os meus filhos

eram duros os nossos antepassados
vieram num tempo que pedia a flor da virilidade
e como recompensa a cruz da morte
o sepulcro em terra distante e estrangeira
ontem estive nos cemitérios da normandia
fui a colleville-sur-mer e não esqueci la cambe
e não tinha flores para deixar em cada campa
nem uma palavra para dizer
ou a breve oração que conforta almas perdidas

o uivo da vida é agora suave ronronar
os tempos mudaram e tudo é incerto
as amplas avenidas tomaram o lugar da ruela
e erguem-se cidades nos campos de batalha
enriqueceram os homens e as casas cresceram
mas a estirpe definha atada ao prazer da hora
ao sussurro dos mercadores no átrio do templo

para que nascemos nós nesta terra
se já não sabemos domar o vento do norte
ou com a força da mão parar a tempestade
ontem estive na normandia
e toda a minha vida é uma canção frívola
cantada por um cantor de cabaret
em cada campa havia uma acusação silenciosa
e um juiz erguia-se nas trincheiras desfeitas
para me condenar à vida fácil
e à liberdade inconsciente que esconde a morte

o amor dos antepassados é uma maldição
roubou-nos o outono e o inverno
levou com ele a escarpa e o deserto
e encheu a alma de sonhos de néon e alumínio
construídos sobre os cemitérios invisíveis
com que o rude amor nos abriu as portas
para entrarmos pervertidos no degredo do paraíso