Segunda-feira, 13 de Julho de 2009

Poemas do viandante

33. PUDOR

toma o pudor
desta rosa
é uma mão
uma sombra
o barco
aberto ao
silêncio

Sábado, 11 de Julho de 2009

Caminhos

Como poderemos aprender o caminho? Caminhando. Nesse estar aí aprendemos a direcção. Isso não significa que não nos equivoquemos, que não soframos derrotas e humilhações. Significa apenas que os equívocos, as derrotas e as humilhações fazem parte do caminho e dirigem-nos na direcção que espera por nós. Um retrocesso nunca é apenas um retrocesso, um engano na encruzilhada é um passo na direcção certa. Todos os caminhos fazem parte do caminho e seja qual for a estrada que escolhamos O que espera por nós lá se encontra à nossa espera.

Quinta-feira, 9 de Julho de 2009

Poemas do viandante

32. CONSPIRAÇÃO

constelações
de aves
inflamam-se
nos céus
e na terra
os astros
conspiram
em fogo
que jamais
ardeu

Quarta-feira, 8 de Julho de 2009

Seja feita a Vossa vontade

Escreve Eckhart."Deus deseja que em todas as coisas renunciemos à nossa vontade." O que significa, porém, essa renúncia? Antes de mais, significa a renúncia ao particular, ao subjectivo, ao perspectivístico, ao relativo. Desapossar-se de si, renunciar à vontade própria, significa, então abrir-se ao que não tem limites, ao que não é particular, ao universal e ao absoluto. Isso não pode ser compreendido, todavia, como uma afirmação da natureza absoluta da criatura, mas apenas a afirmação da sua possibilidade de participar naquilo que a ultrapassa. A vontade própria encerra-nos na pequenez da nossa propriedade. Renunciar a ela é abrir-se aquilo que lhe é incomensurável. A vontade própria é uma prisão. Renunciar a ela é renunciar à servidão. Seja feita a Vossa vontade, foi isto que o Cristo veio dizer aos homens. Dito de outra maneira: sede livres.

Terça-feira, 30 de Junho de 2009

Poemas do viandante

31. SEGREDO

um sussurro
sopra-te
entre mãos
e um segredo
desprende-se
da terra
em aluvião

Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

Luz e trevas

"A luz brilha nas trevas, e as trevas não a compreenderam." Como poderemos compreender a luz se nos habituámos desde o nascimento às trevas? E todos os passos, por luminosos que pareçam, são ainda um adentrar nas trevas. Mas as trevas não são apenas a ausência de luz, elas são o lugar onde a luz brilha e ao brilhar tão intensamente torna em trevas aquilo onde brilha. Adentrar nas trevas é ainda um caminho para a luz, porventura o único caminho que resta.

Sexta-feira, 26 de Junho de 2009

Poemas do viandante

30. A ROSA

deixo a palavra
um sinal de pedra
onde
me abandono
ao vento
e canto-te
antes de a rosa
se abrir
pela manhã

Sábado, 20 de Junho de 2009

Poemas do viandante

29. SE

se fala na noite
e no escuro
olha o coração
como saberás
o frio do inverno
ou o terror
que o caminho acende

Sexta-feira, 19 de Junho de 2009

Criar e ser criado

"O poeta entra em si mesmo para criar. O contemplativo entre em Deus para ser criado." (Th. Merton) Se o caminho para entrar em Deus for o de entrar em si mesmo, então o acto de criar e o de ser criado confundem-se e o artista criador não é mais do que criação, imagem e semelhança daquele que o cria. E aqui podemos surpreender um sentido novo da mimésis grega. A mimésis, a imitação, não residiria essencialmente na criação de uma cópia da realidade natural, mas na imitação do gesto criador. O artista cria à imagem e semelhança do Criador, desse Criador que continuamente me cria. Em arte, nomeadamente em poesia, a mimésis do real empírico é absolutamente secundária relativamente a esse mimésis mais originária, a da identificação do artista com o Deus criador. Sendo assim, todo o acto artístico tem uma dimensão litúrgica na qual o artista imita ritualmente o gesto criador de Deus, O celebra e O cultua. Por isso, não há arte profana. Toda a verdadeira arte pertence ao domínio do sagrado, tenha ou não o artista consciência disso.

Quarta-feira, 17 de Junho de 2009

Poemas do viandante

28. CANÇÃO A CREPITAR

não tem medida
quem tudo mede

uma vara
uma sombra
por vezes
uma palavra
de gelo
outras
canção
a crepitar