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segunda-feira, 27 de julho de 2015

Fechar e abrir

Alfonso Bonifacio - A traves de la ventana (1995)

Quando pensamos em janelas somos levados por considerações acerca da sua utilidade ou do seu valor estético no enquadramento do edifício que as alberga. Não pensamos - ou pelo menos não pensamos de imediato - que elas resultam de uma espécie de contrato entre entre o espaço privado e o espaço público, entre a intimidade e a publicidade. Esse contrato, de tão difícil negociação, responde, na verdade, a uma necessidade do espírito humano, a um ritmo da vida espiritual. A vida deve ser um balanceamento entre o dentro e o fora, entre o íntimo e o público, entre a reclusão meditativa, secreta e íntima, e o mergulhar activo no mundo que está para além reclusão doméstica. A janela é, deste modo, um símbolo da nossa condição, ao ter o poder paradoxal - paradoxo presente em todos os símbolos - de nos fechar e de nos abrir ao mundo.

domingo, 14 de junho de 2015

A ocultação de si

José e Togores - Figura escondiéndose (1925)

Há duas formas como os seres humanos se entregam à ocultação de si. Uma, aquela que é mais compreensível, em que tentam afastar-se, de forma mais ou menos ostensivo, da claridade que é o espaço público. Não querem ou não suportam, por diferenciados motivos, que os holofotes incidam sobre a sua pessoa. Esta ocultação não é a fundamental e, na verdade, não é diferente do comportamento antagónico, o daqueles que ostensivamente se mostram na clareira pública e exigem que os holofotes incidam sobre eles. A segunda ocultação é aquela em que a própria pessoa oculta aquilo que há de essencial em si, aquilo que está para além da máscara que a pessoa é. Geralmente, esta ocultação é tão forte que os seres humanos se sentem reduzidos à sua máscara, e de si não sabem mais do que os revérberos desta máscara no espelho social.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Aprender a escutar

Paul Ackerman - Discussão

A discussão e o debate são, por certo, virtudes da vida social e do espaço público. Fazem parte da harmonia social, onde a violência dos actos é substituída pela troca de palavras e ideias. Mas aquilo que é uma virtude social pode transformar-se num obstáculo para aquele que, concedendo ao mundo o que é do mundo, procura um caminho que vá para além dos negócios mundanos. Aqui a discussão perde o sentido e começa a dura disciplina da escuta. Aprender a escutar é então o essencial.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Do temor da Verdade

Egon Schiele - The Truth Unveiled (1913)

Naquele tempo, Jesus percorria a Galileia, evitando andar pela Judeia, visto que os judeus procuravam matá-lo. Estava próxima a festa judaica das Tendas. Contudo, depois de os seus irmãos partirem para a festa, Ele partiu também, não publicamente, mas quase em segredo. Então, alguns de Jerusalém comentavam: «Não é este a quem procuravam, para o matar? Vede como Ele fala livremente e ninguém lhe diz nada! Será que realmente as autoridades se convenceram de que Ele é o Messias? Mas nós sabemos donde Ele é, ao passo que, quando chegar o Messias, ninguém saberá donde vem.» Entretanto, Jesus, ensinando no templo, bradava: «Então sabeis quem Eu sou e sabeis donde venho?! Pois Eu não venho de mim mesmo; há um outro, verdadeiro, que me enviou, e que vós não conheceis. Eu é que o conheço, porque procedo dele e foi Ele que me enviou.» Procuravam, então, prendê-lo, mas ninguém lhe deitou a mão, pois a sua hora ainda não tinha chegado. (João 7,1-2.10.25-30) [Comentário de João da Cruz aqui]

De onde procede o Cristo? Contrariamente ao que os homens julgavam, não sabem quem enviou Aquele que agora perseguem. Na economia do texto, o tema da perseguição vem em primeiro lugar, enquadrado na tensão entre o público e o secreto. O quase em segredo envia-nos para uma zona de fronteira onde o Cristo de desloca. Esta tensão é dada entre o advérbio φανερως (de modo aberto, publicamente, claramente) e o adjectivo κρυπτω (escondido, oculto, em segredo). O seu modo de ir, de agir, não é assim o da praça pública mas o quase oculto, quase secreto, não porque assim tenha que ser, mas porque as condições, dadas na perseguição de que é alvo, o impõem.

É nesta zona de sombra, na fronteira entre o privado e o público, que o Cristo se desloca e fala, identificando-se. Ele é o enviado. O enviado de quem? Daquele que os homens não conhecem, que só Ele, o enviado, conhece. E quem é esse que O envia? A palavra grega αληθινος diz-nos que aquele que o envia é o verdadeiro. O que pode o Verdadeiro enviar? Apenas a Verdade.

Compreende-se por que motivo a Verdade, aquilo que o Verdadeiro nos envia, tenha de agir na fronteira do público e do privado, do manifesto e do oculto. A Verdade não encontra nos homens acolhimento. Pelo contrário, está ameaçada de morte. A Verdade do homem é-lhe insuportável e, nessa medida, ela não se pode manifestar com toda a clareza, não pode deixar que a luz do meio-dia caia sobre ela.

Há o drama histórico de Cristo perseguido pelos homens, mas para além dele há a dimensão simbólica que nos coloca perante um problema fundamental. Por que motivo, para nós homens, a verdade é tão difícil? O que tem ela que nos faça estremecer e negar a sua evidência? Por que a obrigamos a vir naquela fronteira entre o público e o secreto? Para além desta dificuldade, há uma segunda. A Verdade não vem de si mesma, foi enviada pelo Verdadeiro. Encontrar a Verdade ainda não é o suficiente. É apenas o começo da via para se tornar verdadeiro, para se confrontar com a sua real natureza, aquela que a tradição presente no Génesis diz ser feita à imagem e semelhança do Verdadeiro.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

O secreto e o manifesto

Jacinta Gil Roncalés - Hipócrita (1998)

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Guardai-vos de fazer as vossas boas obras diante dos homens, para vos tornardes notados por eles; de outro modo, não tereis nenhuma recompensa do vosso Pai que está no Céu. Quando, pois, deres esmola, não permitas que toquem trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas ruas, a fim de serem louvados pelos homens. Em verdade vos digo: Já receberam a sua recompensa. Quando deres esmola, que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua direita, a fim de que a tua esmola permaneça em segredo; e teu Pai, que vê o oculto, há-de premiar-te.» «Quando orardes, não sejais como os hipócritas, que gostam de rezar de pé nas sinagogas e nos cantos das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. Tu, porém, quando orares, entra no quarto mais secreto e, fechada a porta, reza em segredo a teu Pai, pois Ele, que vê o oculto, há-de recompensar-te. «E, quando jejuardes, não mostreis um ar sombrio, como os hipócritas, que desfiguram o rosto para que os outros vejam que eles jejuam. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. Tu, porém, quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto, para que o teu jejum não seja conhecido dos homens, mas apenas do teu Pai que está presente no oculto; e o teu Pai, que vê no oculto, há-de recompensar-te.» (Mateus 6,1-6.16-18) [Comentário de Bento XVI aqui]

Uma das leituras possíveis do evangelho de hoje, Quarta-feira de Cinzas, é dada pela tensão entre dois pólos. O público e o privado, o secreto e o manifesto. A vida espiritual é marcada pela sua realidade interior e o segredo é a sua natureza. O segredo não resulta de uma decisão de exclusão do outro, mas é a própria operação do espírito, na intimidade de cada um, que é secreta, que não pode tornar-se pública sem que se degrade e se torne numa outra coisa, por vezes mesmo, como salienta o texto de Mateus, no mais claro exercício de hipocrisia. 

O espaço público é o lugar dos negócios deste mundo, o sítio da pólis e da economia, mas também o palco onde nos apresentamos enquanto pessoas. Apresentar-se enquanto pessoa não é apenas manifestar uma dignidade proveniente da nossa natureza racional. É também apresentar-se enquanto persona, enquanto máscara teatral. Este ser pessoa, com a sua dimensão de máscara, torna claro o que há de pura representação na vida pública, no teatro a que chamamos esfera pública.

 A vida do espírito é uma vida de presentificação, de tornar presente, e não de representação. O caminho é o de abandonar, passo a passo, a persona e apresentar-se na nudez e solidão do seu próprio ser. Nudez significa aqui a verdade de si mesmo, sem filtros, sem velamentos, sem a distorção que a relação com os outrosa exige ou, no mínimo, impõe.

Implica a vida espiritual uma fuga mundi? Não propriamente. Implica a separação clara das águas, a compreensão de que nas coisas do espírito a verdade e a autenticidade são os elementos centrais. Pode implicar mesmo uma presença no mundo, no espaço público de representação, como sinal e símbolo de uma outra possibilidade que ultrapasse a hipocrisia das máscaras individuais e distorção das ideologias, autênticas máscaras sociais. Isso será tornar manifesto um caminho secreto que cada um, no silêncio e na solidão, deve procurar.

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Nota: Com este post inicia-se uma série de comentários ao evangelho diário da liturgia católica. Este projecto durará, se tal for possível, o período da Quaresma. Sublinhe-se que não se pretende nem uma interpretação litúrgica nem teológica, para as quais não se possui competência. Os comentários visam uma confrontação dos textos com uma via espiritual que não abandona a razão e o exercício do pensamento filosófico. Os textos do evangelho serão sempre seguidos de um link para um comentário autorizado, do ponto de vista eclesial, desses textos.