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quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Vestígios

André Kertész - Luxembourg Gardens, Paris, 1925

Quantas vezes, inopinadamente, nos deparamos com vestígios da infância? Olhamo-los e eles respondem ao nosso olhar, interpelando-nos: como te afastaste tão depressa desse tempo em que eu fazia parte do teu mundo? E o nosso silêncio é o sinal de uma ignorância fundamental. Balbuciamos uma explicação sem nexo e sentimos a consciência culpada de termos deixado escapar, sem explicação, o território encantado em que o simulacro de um cavalo era um cavalo verdadeiro que nos levava para este e para qualquer outro mundo que a imaginação criasse.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Da imaginação

Fritz Henle, The Diver, Las Delicias, Taxco, 1943

Os anjos nasceram de uma conspiração da imaginação contra a terrível gravidade. Aquilo que sujeita o corpo dos homens gera uma revolta do espírito. Umas vezes, este usa a imaginação para resolver tecnicamente a sujeição; outras, deixa-a flutuar no imponderável, para que ela distribua sobre os homens as suas graças. Estas não quebram a sujeição do corpo, mas comprazem o espírito dando-lhe a ver a sua natureza.

domingo, 18 de dezembro de 2016

A adoração dos pastores

Rafael Durancamps - La Adoración de los Pastores

Aproxima-se o Natal. Uma das características deste evento é a sua inverosimilhança. A adoração dos pastores ao menino nascido no presépio de Belém é absurda. A natureza absurda destas narrativas não lhes vem de uma pretensa ingenuidade, mas da ausência desta. Estas narrativas foram concebidas não como um registo histórico-racional, mas contra esse mesmo registo. Dizem, pela sua simples existência, que não se dirigem à razão mas à imaginação. Não nos narram factos históricos mas trazem à luz modelos imaginários que estão para além do tempo e da história. A adoração dos pastores não retrata um facto do passado, mas um evento eterno que nunca deixou de acontecer. Na essência do cuidar do rebanho está um acto de adoração que transcende o pastor e o rebanho. É a alteridade, consubstanciada no adorado, que permite ao pastor ser aquilo que é.

terça-feira, 31 de maio de 2016

Portas e metáforas

Pierre Bonnard - La Porte Ouverte (1910)

A porta aberta funciona muitas vezes, fundamentalmente, na linguagem corrente, como uma metáfora. Esta contaminação pela linguagem quotidiana roubou-lhe o brilho metafórico. No entanto, a expressão continua a ser essencial para compreender a própria metáfora. Esta é interpretada, por norma, na base da analogia. Se dissermos, porém, que a metáfora é uma porta aberta, talvez estejamos mais perto de perceber o que nela se joga. Semeadas no texto, as metáforas são portas por onde entramos num outro mundo, num mundo que a literalidade esconde ao espírito mas que este, através, dos ardis da imaginação abre, para que neles possamos encontrar o nosso lugar.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Cuidar o jardim

Raoul Dufy - O jardim abandonado (1913)

De um ponto de vista racional, pode-se sempre pensar que a ideia do paraíso, do jardim do Éden, foi construída à imagem e semelhança dos jardins que homem teria já inventado para seu deleite na terra. A imaginação, porém, pode, com o poder arquetípico que a constitui, dizer o contrário. Todos os jardins humanos são uma cópia ou uma reminiscência do paraíso, dessa experiência originária que habita o fundo da espécie humana. Ao dizer isto, a imaginação está ainda a dizer outra coisa. Tendo o homem sido expulso, o jardim foi abandonado. E esta ideia traz uma injunção para cada homem sobre a terra. A vida, no seu significado último, não deveria ser outra coisa do que a viagem de retorno. O jardim precisa de ser cuidado.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

A desmedida da fantasia

Alexandre de Riquer - Fantasia

A fantasia liga-se muitas vezes ao delírio da imaginação, à suspensão das reais condições de possibilidade da experiência humana, isto é, à anulação dos efeitos do espaço e do tempo. Nessa suspensão, o desejo entrega-se livre ao devaneio com os objectos que o solicitam e lhe dão intenção e conteúdo, objectos que também eles deixam de estar condicionados pelos limites espácio-temporais, como se a imaginação fantasiosa nos segredasse a existência de um mundo no qual os corpos, não deixando de ser corpos, se tornassem etéreos, livres e desmedidos.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Dos limites da fantasia

Alexandre de Riquer - Fantasia

O discurso do senso comum, muitas vezes dinamizado por uma certa divulgação pseudo-científica, tem valorizado, para além do domínio artístico, a dimensão da fantasia. Desde a importância da fantasia na vida sexual até à sua mobilização no âmbito da publicidade e da técnica de vendas, passando pelos múltiplos usos quotidianos do fantástico, a fantasia tornou-se um vocábulo que facilmente é mobilizado como panaceia do aborrecimento e do cansaço. 

O resultado desta banalização do exercício fantástico da imaginação está longe de ser percebido. Seja a fantasia realista ou inverosímil, ela é sempre um exercício de suspensão do contacto com a própria realidade. Perante uma realidade tida como prosaica, a subjectividade recria-a, imagnariamente, à luz dos seus desejos. Esta velha propensão da humanidade para a fantasia esconde uma inconfessável impotência para acolher e maravilhar-se com a própria realidade. A usura que o olhar quotidiano sofre, impede-o de uma atenção à própria realidade. A fantasia surge, então, não como um remédio mas como uma técnica de intensificação da patologia quotidiana. 

Em diversas tradições espirituais da humanidade, e contrariamente ao que se pensa, a crítica ao desejo funda-se na fuga mundi que ele introduz através da fantasia. Essa crítica à consciência desejante não é, na verdade, uma crítica do desejo, mas ao delírio que, pela fantasia, desvia o desejo do seu objecto real. O que nessas tradições - por exemplo, na mística cristã - está em jogo não é um desvio da consciência relativamente à realidade, mas a aprendizagem de uma atenção ao que é real, como caminho que conduz ao espanto (a experiência que, segundo os gregos, leva à filosofia) perante aquilo que é, e ao deslumbramento perante a verdade.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Imaginação

Kant divide a imaginação segundo duas funções. Por um lado, a imaginação é reprodutora, pois reproduz a imagem dos fenómenos concatenados pela sensibilidade; por outro, a imaginação é produtora. Ela produz imagens que ultrapassam o domínio fenoménico, embora não sejam mais que a sua recombinação. A natureza poética ou ficcional da imaginação inscreve-se no âmbito da sua função produtora. Mas estará a imaginação humana confinada à repartição entre mimesis e poiesis? Em caso afirmativo, ela estaria confinada à sensibilidade, que lhe forneceria os materiais, e eventualmente à razão, que funcionaria como uma espécie de guarda e que vigiaria os devaneios dessa imaginação.

O que se deve questionar, contudo, é se a imaginação não possuirá uma função comunicacional. Quanto do que imaginamos não se deverá à recepção de uma comunicação? E não se está a referir a comunicação recebida sensorialmente nem a ordenada pelo logos (entendido aqui na sua duplicidade de discurso e razão). Antes, a uma comunicação que resulta de uma comunhão de espírito, de influências voláteis não determináveis sensorialmente ou através da razão. Não será na imaginação que se fundam e alimentam processos como a oração e a meditação? E estes processos não serão actividades comunicacionais? Mesmo a níveis mais triviais, quanto da nossa revêrie e dos nossos devaneios não será comunicações vindas do devaneio e da revêrie de outros que assim nos chamam e nos tocam através da imaginação? A imaginação é a mais misteriosa e a mais global das faculdades humanas. Isto dever-se-á menos às suas capacidades miméticas e poiéticas do que à sua natureza comunicante. É ela que, vinda do mistério da sua natureza, funda a comunhão entre os seres.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

A luz que oriente

Um dia de dissipação. O espírito arrastado pelo turbilhão dos devaneios, uma distracção contínua, uma impossibilidade de ir para o essencial. Um dia de seca e de aridez, um dia desperdiçado, um dia escuro e afastado da luz, de qualquer luz, por mais pobre e sumida que fosse. Mas este é apenas mais um dia entre os muitos onde a vontade se arrasta impotente, e nessa impotência se entrega à luxúria desenfreada do devaneio. O devaneio nasce do fascínio que certas coisas exteriores exercem sobre a imaginação, impedindo o espírito de operar. Mas por que será tão frágil o meu espírito, tão incapaz de resistir à tentação? É um espírito perdido, abandonado nos baldios da terra, sem rota nem estrela polar. Ainda virá uma luz que o oriente?

segunda-feira, 26 de maio de 2008

A tentação

A tentação possui uma curiosa fenomenologia. Começa por ser um fruto da imaginação. Esta imagina um objecto desejável, confere-lhe uma tonalidade apetecível, instiga os instintos para esse fim, ao mesmo tempo que dissolve a vontade e torna a razão numa coisa nublada e incapaz de julgar. Por vezes, suspende mesmo a razão em nome do impulso que habita a faculdade de desejar. A imaginação é então uma rainha despótica de um reino sem fronteiras, soberana sempre desejosa de alargar os seus infinitos territórios. Mas será assim tão soberana essa imaginação? Quem desencadeia nela as imagens tentadoras?