domingo, 23 de abril de 2017

Meditação breve (27) - Passado

Kurt Hielscher - Windmills in Dobrogea or Basarabia, Romania/Bulgaria (circa 1930s)

A simplicidade e beleza do passado reside tanto no facto dele ser passado como, na sua generalidade, em nos ter dispensado de o viver e suportar o seu peso e a corveia que nos imporia.

sábado, 22 de abril de 2017

Poemas do Viandante (625)

Adolph Gottlieb - Figuraciones de estruendo (1951)

625. ondas de cera tecem

ondas de cera tecem
cisnes no estrondo
do silêncio
e desenham
asas de seda
e topázios vivos
no vidro despovoado
de sombra e assombro

(09/12/2016)

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Meditação breve (26) - Refugiados

Dorothea Lange - Children of [Dust Bowl] refugee families (1938)

Refugiado não é uma situação transitória, mas a condição do próprio homem. Transitória é a percepção que os homens têm de que são, efectivamente, refugiados e nada mais que refugiados.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Haikai do Viandante (321)

Gao Qipei  - Schildering (1700 - 1750)

arbustos no lago
sombras verdes na água azul
um pato emudece

quarta-feira, 19 de abril de 2017

A variação de mim

Gjon Mili - Nude Descending a Staircase (1949)

Na verdade, não creio que Pessoa tenha razão. Não somos habitados por múltiplos eus, dos quais se possa até estabelecer uma biografia autónoma. O eu compõe-se antes de uma multiplicidade sem fim de posições que unificamos com a cola da memória e a férrea corrente da razão. Eu não sou vários. Sou antes a contínua variação de mim mesmo.

terça-feira, 18 de abril de 2017

O anjo da montanha

Robert Doisneau - The Cellist (1957)

Conheci-o num bar de Paris, daqueles que infestavam a Rive Gauche. Bebia, solitário, uma cerveja. O que me chamou a atenção não foi a sua solidão. Quem é que, naqueles dias e naqueles lugares, não era solitário? Meti conversa com ele levado pelo seu ar, como hei-de dizer, diáfano. A luz atravessava-o. Disse-me que era um anjo, o anjo da montanha. Ri-me e ele sorriu da minha incredulidade. O que faz, perguntei-lhe. Sempre que a humanidade está em perigo, subo ao cimo da montanha e toco o meu violoncelo, respondeu. E resulta? Ele olhou-me, irónico, e perguntou-me: terá a humanidade sido extinta?

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Poemas do Viandante (624)

Markus Luepertz - Estilo: Tres cuadros sobre la creación de la Tierra. II. La noche (1977)

624. a morte chega a galope

a morte chega a galope
de uma esfera
de bronze
toldada de inocência
potro de feltro
abandonado
em prado de prata
                triste
transfiguração da tristeza

(09/12/2016)

domingo, 16 de abril de 2017

Estou aqui

Milton Greene - Lauren Hutton (1966)

Este cheiro a terra, de onde virá ele? Que coisa estranha, tenho braços e pernas, mãos e respiro. Como cheguei aqui? E este odor a terra que me penetra e não me larga. Esqueci o meu nome. Eu sei que, um dia, tive um nome e uma casa, filhos e marido. Depois, depois, veio uma escuridão. Que densa escuridão, inexplicável, silenciosa. E nessa escuridão já não tinha corpo e o esquecimento levou as saudades da família, da casa, de tudo. E agora estou aqui e tenho um corpo vivo e um cheiro a terra que não sei de onde vem, um cheiro que parece diluir-se. Estou aqui, mas não sei onde, nem de onde vim, nem quem sou. Estou aqui.

sábado, 15 de abril de 2017

O pintor de flores

John Yardley - Painting flowers

É o que me resta. Foi um longo caminho para chegar aqui. Está surpreendido? Imagino. Era um homem do mundo. Viajava e entregava-me, não sem êxito, à acção. Sabe tudo isso. Não calcula, porém, como era fastidiosa a minha vida. Então, decidi apagar-me lentamente. Esquecia-me dos outros para que se esquecessem de mim. É uma estratégia de êxito assegurado. O que faço? Compro flores e, depois de as contemplar, pinto-as. Falo com elas e elas respondem-me. Está enganado, não são naturezas mortas, são retratos o que faço, é a alma das flores, o seu espírito que fixo na tela. Em silêncio, elas agradecem-me.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Haikai Urbano (9)

Sebastião Salgado - Ho Chi Minh City, Vietnam, 1995

janelas rasgadas
em cimento e solidão
sonhos luz e dor

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Meditação breve (25) - Voltar a casa

Abram Efimovich Arkhipov - On the Way Home (1896)

De certa maneira, todos os seres humanos são uma espécie de Ulisses. Tudo o que fazem ou deixam de fazer tem por finalidade voltar a casa, mesmo aqueles que nunca a abandonaram.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Poemas do Viandante (623)

Manuel Rivera Hernandez - Espejo de doble amanecer (1964)

623. vem manhã perdida

vem manhã perdida
no amanhecer
vem rosto de sal
e mãos de música
espelhar-te
no espelho esquivo
da madrugada

(09/12/2016)

terça-feira, 11 de abril de 2017

Haikai do Viandante (320)

Paul Joseph Constantin Gabriël - Casas rurais junto à água na névoa da manhã

névoas matinais
caem na terra sonâmbula
segredo e saudade

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Uma carta

Johannes Vermeer - Woman Reading a Letter (1663)

Leio e releio. E o que posso dizer? Conto a distância que nos separa, essa distância que vem através das letras com que as palavras são compostas, para nos sublinharem tudo o que nos afasta, mesmo que o que nos afasta seja a lonjura que há entre ti, aí tão longe, e mim. Com estas palavras descubro o espaço e com ele componho o teu exílio e a minha solidão. Chega um papel tracejado a tinta e os cães da saudade, em vez de se calarem, ladram desvairados dentro do peito. Leio e releio e não sei o que possa escrever, não sei como açaimar os animais que me devoram a noite. Leio e rasgo a carta. Talvez assim possa esquecer-me de mim.

domingo, 9 de abril de 2017

No boudoir

Leni Junghans - In the boudoir (c. 1940)

Não, não. O que me apetece mesmo é despir-me, livrar-me da roupa, tirar os sapatos. Nua, completamente nua. Seria engraçado se aparecesse na recepção sem roupa. Um êxito. Correriam a cobri-me? Arrastar-me-iam dali para fora? Seria uma boa ideia. Já não suporto aquela gente e tenho de sorrir, quando me apetece fazer caretas. Teriam a coragem de fingir que estava vestida? Quem sabe? Mostrar-lhes os seios, os pêlos púbicos, o corpo na pura luz. Obrigá-los a fingir que não viam o que viam. Obrigá-los a disfarçar o desejo. Cegá-los. Se tivesse coragem, talvez chegasse a ser feliz.

sábado, 8 de abril de 2017

Meditação breve (24) - Velocidade

Autor desconhecido - Race car mechanic (1958 )

É indiferente se vivemos a vida segundo o signo da imobilidade ou o da grande velocidade. Não somos nós que passamos pela vida. É ela que passa por nós e, inexoravelmente, nos abandona, independentemente da velocidade com que nos deslocamos nela.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Poemas do Viandante (622)

Juan Soriano - Fuegos de artificio (1958)

622. o poeta é um fogo

o poeta é um fogo
que arde
sem se ver
é ferida que finge
tão descontente
que chega a fingir
que é amor
a dor que desatina
e não se sente

(09/12/2016)

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Estar lá

Joshua Benoliel - Praça D. Pedro IV (1910)

Não sei se alguma vez terá feito a experiência. A mim acontece-me sempre que vejo fotos ou mesmo pinturas antigas. Reconheço de imediato o cenário e até as pessoas não me são estranhas. Apossa-se de mim a certeza - inabalável, pode crer - de que as conheço de vista, que passei por elas vezes sem fim. Tem razão, a diferença de épocas não me permite tê-las conhecido, mas está convencido de que isso é razão suficiente para contrariar uma convicção tão íntima e tão profunda? Sim, eu ainda não tinha nascido, mas estava lá, juro-o, quando o fotógrafo montou a máquina e fez a fotografia. Não estamos sempre lá, seja onde for e seja quando for?

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Meditação breve (23) - Deslizar

Frederick Schoch, City Park , Ice Rink, Budapest XIV, Hungary, 1907.

A vida é um caminho, diz-se. Um caminho por onde andamos com passos trémulos. Por vezes, são lentos esses passos. Outras vezes, imitam o galope do cavalo. Importante seria aprender a deslizar suavemente por ela, mesmo que grandes fossem os obstáculos a vencer e as dores a suportar.

terça-feira, 4 de abril de 2017

A rua esquecida

Josef Sudek - Forgotten street (1930)

Era lá que escondíamos os nossos sonhos. Como sabe, todos temos tendência para sonhar. O pior é a realidade. Raramente está disposta a abrir as portas para que os nossos mais autênticos devaneios entrem por ela. Então, pegávamos nos sonhos e íamos escondê-los, talvez por vergonha, naquela rua esquecida, por onde quase ninguém passava. Ficavam lá adormecidos, ao deus-dará, e não havia quem os quisesse roubar. Quando um de nós morria, os outros pegavam nos seus sonhos e, naquelas velhas carretas, levavam-nos a enterrar junto com o morto. Foi assim que os meus sonhos desapareceram.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Haikai Urbano (8)

André Kertész - Ballet, New York (1938)

cisnes na cidade
dançam na cinza das ruas
sombra sobre o lago

domingo, 2 de abril de 2017

Poemas do Viandante (621)

Maria Helena Vieira da Silva - Egipto (1948)

621. sonho um sonho

sonho um sonho
de pirâmides
e águas do nilo
sonâmbulo
caminho
nas areias
e traço com as mãos
vazias
rotas no deserto
e nas ervas do egipto

(09/12/2016)

sábado, 1 de abril de 2017

Alienação

Harold Feinstein - Sharing a Public Bench (1949)

As grandes cidades são máquinas exuberantes de bulício e entusiasmo, onde o espírito se sente não apenas exaurido como, na verdade, estrangeiro. O negativo da condição citadina é o cansaço que despe os homens da sua humanidade e os encerra na penumbra que deles se apossou. A isso se deve chamar, com propriedade, alienação, esse sentimento de se sentir estranho no lugar onde se está e na pele em que se vive,

sexta-feira, 31 de março de 2017

A queda do silêncio

Misonne Leonard - Impressionistic photography (1942)

Há imagens, como esta fotografia de 1942, que são símbolos visíveis do silêncio. Olhamos para ela e compreendemos, de imediato, que todos os  ruídos do quotidiano estão suspensos. Mas o ronronar da chuva e o barulho dos passos não são uma forma de ruído que desmente a imperatividade do silêncio? Não. O murmúrio da chuva e o chapinhar dos passos na terra são a forma como, naquela hora, o silêncio cai sobre os homens.

quinta-feira, 30 de março de 2017

Haikai Urbano (7)

Alfredo García Revuelta - Ciudad (1987)

torres sem memória
erguem-se frias e  letais
a cidade rosna

quarta-feira, 29 de março de 2017

No reino da imobilidade

Teresa Muñiz - Aunque se mueva es pura apariencia (1998)

Uma antiquíssima tradição filosófica ligou o movimento e a aparência. O real seria o imóvel, cabendo a mobilidade ao reino das aparências. A arte - desde a pintura à fotografia, passando pela escultura - não se cansou de manifestar contra-exemplos. Também as aparências são imóveis. Se o real e o aparente são imóveis, o que será o movimento? O cinema veio dar-nos, através do fotograma e da sua montagem, uma imaginativa resposta para o enigma do movimento. Ele não passa de uma sequência de imobilidades.

terça-feira, 28 de março de 2017

Poemas do Viandante (620)

Alfredo Hlito - Efigie oscura (1979)

620. uma obscura efígie

uma obscura efígie
ergue-se
na parede da tarde
traz em si
o odor da sombra
e o eco
da luz eterna
que resplandece
num ramo de malvas

(09/12/2016)

segunda-feira, 27 de março de 2017

Meditação breve (22) - Reflexo

Bernard Eilers - Keizersgracht, Amsterdam (1908)

Olhar o mundo reflectido nas águas não nos dá a verdade desse mundo, mas abre-nos o horizonte para suspeitarmos que há outras formas de o compreender. O reflexo não é o sinal da verdade, mas a porta por onde o espírito pode entrar para suspender o hábito de ver as coisas tal como elas se deixam observar na ingenuidade dos nossos sentidos.

domingo, 26 de março de 2017

Haikai do Viandante (319)

JCM - Nuvens (2015)

céus em sobressalto
tingem de cinzento a tarde
água e solidão

A grande batalha

Yves Klein - La Grande Bataille

A grande batalha não é aquela que se trava com armas e que visa a morte do inimigo. A grande batalha dá-se no palco oculto de cada um. É o combate decisivo da guerra que se trava contra as próprias ilusões, com o desejo de irrealidade que habita o ser humano, com a cegueira e a surdez que tomaram conta de nós e que, na maioria das vezes, julgamos, com convicção quase invencível, que são a nossa mais autêntica realidade. A grande batalha é o combate decisivo pela verdade de si mesmo. 

sexta-feira, 24 de março de 2017

O meu lugar

Richard Sandler - Grand Central Terminal, NYC (1990)

Estou aqui, não sei bem onde. Todas estas sombras que se agitam, vão e vêm, como se esse fosse o seu destino. Passam por mim como se passassem por coisa nenhuma. Levitam. Não vejo chão onde possam pôr os pés. Que sítio é este? O relógio, desde que cheguei, marca a mesma hora. E cheguei há tanto tempo. Sussurros, de onde virão? Sussurros e nem mais um som. Olho, mas ninguém olha para mim. Peço ajuda? E se não me vêem? Para qualquer lado que me volte, as mesmas sombras, os mesmo sussurros sobre o silêncio, os mesmos ponteiros paralisados sobre o esmalte do mostrador. Será isto o inferno? Não, nele não há silêncio, mas também não é o céu. Estou aqui, não sei bem onde.

quinta-feira, 23 de março de 2017

Poemas do Viandante (619)

d'Agaggio - Eclosion printanière (1977)

619. eclodiu a primavera

eclodiu a primavera
nos bolbos
esquecidos
na friagem da terra
deslumbradas  infâncias
maquinam
homicídios de folhas
tortura de pétalas
a corola ardida
no ardor da morte

(08/12/2016)

quarta-feira, 22 de março de 2017

A rainha da noite

Jeanloup Sieff - Queen, London (1964)

Caminhava assim vestida pelo cais. A silhueta recortava-se na luz dos candeeiros e, nos homens que a viam, soltava-se um desejo intenso e inexplicável. Como sabe, são duros os homens do mar mas nunca nenhum se aproximou dela. Correram boatos. Seria louca, dizia-se. Outros apostavam que era o fantasma de uma rainha, cujo nome não recordo. Havia quem afirmasse que era a própria morte que meditava sobre quem levaria. O certo é que os homens enlouqueciam de desejo quando ela passava lenta e silenciosa. Olhavam-na fascinados. Não foram poucas as raparigas que, nos bordéis do porto, apareceram mortas nas noites em que ela vinha.

terça-feira, 21 de março de 2017

Haikai Urbano (6)

Jiri Georg Dokoupil - Polución en Madrid (1989)

nuvens de carvão
pelo dorso da cidade
uma vela arde

segunda-feira, 20 de março de 2017

Meditação breve (21) - A questão individual

Ángel Mateo Charris - La cuestión social (1998)

Na verdade, não existe nenhuma questão social. O que existe são milhões de questões individuais sobre o sentido que cada um deve dar à sua vida e os obstáculos que se levantam. O resto são abstracções.

domingo, 19 de março de 2017

Enigmas e mistérios

Ángel Mateo Charris - El buscador de enigmas (1999)

Confrontar-se com enigmas ainda é confiar na razão como caminho para os decifrar. O enigma não exige nada mais que um raciocínio apurado e treinado, um raciocínio que será tanto mais eficaz quanto maior for a informação de que dispuser. Para além do enigma, porém, está o mistério. Perante este, a razão soçobra, a informação torna-se obstáculo. Os mistérios, na sua efectiva natureza, não se dirigem à decifração. Qualquer técnica hermenêutica esbarra no sem sentido que os constitui. Pode, paradoxalmente, o homem, impossibilitado de o conhecer, viver nele e ser transformado nele e por ele. O enigma dirige-se à razão. O mistério, à existência.

sábado, 18 de março de 2017

Poemas do Viandante (618)

Charles Marq - Double composition II (1978)

618. componho com luz

componho com luz
e ar
uma botânica
de êxtases
nascidos na lentidão
com que
a abundância escorre
da cornucópia
corroída do corpo

(08/12/2016)

sexta-feira, 17 de março de 2017

Viagem

Pierre-Albert Marquet - O carro (1904)

Emigrar, partir do lugar onde se nasceu, talvez tenha sido a primeira e mais marcante forma de transcendência encontrada pelos seres humanos. O que está na origem do especificamente humano, se essa especificidade existir, é o impulso para ir mais além. Deixar para trás os limites onde se nasceu, abandonar a condição com que se chegou à vida, descobrir o espírito como o mais além do corpo. A vida é uma viagem não porque esteja balizada entre a concepção e a morte, mas porque é o exercício contínuo do impulso para se transcender.

quinta-feira, 16 de março de 2017

Haikai do Viandante (318)

Fermín Alegre - Contra luz (Sahara) (1972)

sombras no deserto
caminham silenciosas
sol luz e areia

quarta-feira, 15 de março de 2017

Meditação breve (20) - Caricatura

Thomas Hart Benton - Burlesque (1922)

Na caricatura não há um realçar hiperbólico de certos traços de um indivíduo. Pelo contrário, só na caricatura uma subjectividade se apreende na sua verdadeira natureza, a qual é sempre e irremediavelmente caricatural. 

terça-feira, 14 de março de 2017

Meditação breve (19) - Poder da música

Oskar Kokoschka - O Poder da Música (1920)

O poder da música reside todo ele em ser um reflexo e uma reminiscência do silêncio.

segunda-feira, 13 de março de 2017

Poemas do Viandante (617)

Morgan Russell - Synchromy in Orange: To Form (1913-14)

617. o ofício dos anjos

o ofício dos anjos
tinge-se
de cores cantantes
e vacilantes hossanas
brotam em forma
de frio
no fogo laranja
na fogueira azul
no fogaréu vermelho
que cresce
na fímbria da flor

(08/12/2016)

sábado, 11 de março de 2017

Haikai Urbano (5)

Ángel Orcajo - Arquitecturas IV (1986)

impérios de vidro
em torres frias de metal
um anjo acordou

sexta-feira, 10 de março de 2017

A porta aberta

William Henry Fox Talbot - The Open Door (1844)

Em todos estes anos quase sempre vi a porta aberta e a vassoura encostada à ombreira, tal como as vê daqui. A casa parece imutável, conheço-a assim há mais de cinquenta anos, mas quando era criança os mais velhos diziam a mesma coisa. O tempo não passa por ela. É o que se diz. E ninguém se aproxima? Raramente. Conheci dois, com um intervalo de trinta anos, que se aproximaram e entraram. De ambas as vezes, as pessoas ouviram a porta bater e viram-na fechada durante semanas. Depois voltou a abrir-se. E eles? Ninguém os tornou a ver e não se encontraram voluntários para os ir procurar.

quinta-feira, 9 de março de 2017

Poemas do Viandante (616)

Javier Calvo - Itinerario que conduce al invierno (1974)

616. caminhos de inverno

caminhos de inverno
escadas de musgo
e terra
batidos pela chuva
do lírio de bronze
a arder
no húmus da madrugada

(08/12/2016)

quarta-feira, 8 de março de 2017

Meditação breve (18) - Noite

JCM - Anoitecer em Torres Novas (2016)

O homem não anoitece, nasceu já noite cerrada. Nele não há crepúsculos. Por vezes, uma súbita luz ilumina-o, mas isso é uma dádiva para que possa suportar sem desfalecer a noite que é.

terça-feira, 7 de março de 2017

Desejo

John McKirdy Duncan - Pensive (1920)

A que lugar pertenço? À terra ou ao mar? Quando chegam os dias de sol, tão poucos, felizmente, passeio pela praia e olho o mar. O azul das águas e o som das ondas acordam em mim uma estranha nostalgia, como se me segredassem que o meu reino não é a terra mas a água. Então, olho o azul marítimo e oiço uma voz. Diz-me: Vem. Espero-te há muito. E todo o meu corpo pede para entrar nas águas. Tremo e quando me dirijo para o mar uma gaivota grasna ou uma criança grita, por vezes é o latido de um cão. Então fico presa à terra, os pés incapazes de se mexer, até que a noite chega, o desejo se quebra e o corpo me leva para casa.

segunda-feira, 6 de março de 2017

Haikai do Viandante (317)


nuvens sobre nuvens
anunciam a tempestade
silêncio de inverno

domingo, 5 de março de 2017

Graffiti

Brassaï - Graffiti, Paris (1944-45)

Há em muitos graffiti que poluem as paredes das nossas cidades uma revelação espiritual que raramente se tem em conta. Não me refiro aos que pretendem transmitir mensagem significativas e socialmente reconhecíveis, mas aos que desejam apenas exprimir, num gesto que derrama tinta sobre uma parede, uma emoção ou um sentimento. Traduzem um mal estar, uma opressão da esfera emotiva pela esfera significativa, uma impossibilidade de conferir sentido quando tudo parece entrar em derrocado. Resta então o grito silencioso jogado numa parede. De certa maneira, há um retrocesso, um recuo do campo da interacção comunicativa para o da mera expressão, mas esses mesmos graffiti mostram que o espírito, também ele, se sente preso nos ardis da semântica e nas regras licenciosas da gramática.

sábado, 4 de março de 2017

Poemas do Viandante (615)

Eusebio Sempere - Invierno (1965)

615. o jardim inclina-se

o jardim inclina-se
no inverno
ergue túlipas
entre rosas
e na terra de saibro
abrem-se covas
onde se enterra
a luz azul
e grave de um cravo

(08/12/2016)