sábado, 22 de julho de 2017

Poemas do Viandante (639)

Eugène Leroy - Le Petit Arbre (1971)

639. a árvore irrompe da terra

a árvore irrompe da terra
lança os ramos
sobre o ruído
da floresta
e aguarda
a queda dos frutos
no sobressalto
das folhas
escritas
pela mão do abandono

(12/12/2016)

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Modelos

Deborah Turbeville - From the Valentino Collection, 1977

A moda é impensável sem os modelos e os desfiles que estes protagonizam. Tudo isto está intimamente ligado à transitoriedade. Dura uma estação e torna-se de imediato passado, pois qualquer coisa de novo está a irromper e a abrir a clareira da próxima colecção. Os fogos de artifício que rodeiam o fenómeno ocultam, contudo, a presença da eternidade no transitório de uma roupa. Mais do que manequins, suportes de vestuário ou calçado, os modelos são arquétipos espirituais, uma espécie de ideias platónicas, eternas e imutáveis, de cuja natureza os mortais pretendem participar. Vestidos ou sapatos não são objectos utilitários, mas o elemento metafísico que estabelece essa participação. 

quinta-feira, 20 de julho de 2017

O anjo da juventude

Chris Killip - Youth on Wall, Jarrow, Tyneside, 1976

Ao ver o murete, sentou-se e encostou o dorso à parede. Então flectiu as pernas e apoiou nelas as mãos, e nestas descansou o rosto. Vinha de longe, foi o que pensei. Tal era o ar exausto e a angústia que tentava ocultar. Por vezes, erguia a cabeça e perscrutava a rua, mas logo perdia o interesse e voltava-se para a dor que o animava. O que lhe aconteceu? É isso que quer saber? O que me disseram eu não o vi. Não o posso assegurar, apesar da fonte ser credível. Levantou-se e nas costas abriram-se duas asas. Voou para longe. Era um anjo, asseveraram-me sem se rirem, o anjo caído da juventude.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Haikai urbano (17)

Berenice Abbott - Nightview, New York, 1932

montanhas de luz
na invernia da noite
cidade sem sono

terça-feira, 18 de julho de 2017

Ruínas

Edward Weston - Meraux Plantation House, Louisiana, 1941

A tentação, ao olhar uma ruína, é ver ali a acção do tempo. Isso, porém, não passa de uma compensação e de um gesto de auto-indulgência da espécie humana. A ruína é a manifestação da incúria com que os homens lidam com aquilo que os envolve. Onde emerge uma ruína há um dedo acusatório apontado na nossa direcção.

domingo, 16 de julho de 2017

Poemas do Viandante (638)

Kuno Küster - Metamorfosis o, los cuatro administradores de la felicidad... (1993-94)

638. um violino desliza

um violino desliza
no breu do céu
sangra
na ferida
                supurada
glissandi
                de dor
                               e
arpeggios
                d’ira

(11/12/2016)

Sombras

Rodney Smith - Gary Descending Stairs, 1995

O sentimento de realidade e de solidez que ostentamos talvez seja apenas uma ilusão do nosso desejo. No lugar de vermos a sombra que somos, projectamo-nos como objectos reais dotados de existência. Até ao dia em que a ilusão se dissipa como a sombra se dissipa na ausência de luz.

sábado, 15 de julho de 2017

Uma bela mulher

Sergio Larraín - London (1959)

Pode dizer que ela era uma delas. Vinha ali algumas vezes por semana. Eu via-a da minha janela. Chegava e as aves envolviam-na, pousavam-lhe nos ombros, esvoaçavam sem inquietação em torno dela. Uma bela mulher. Não se pode dizer que falasse com os pássaros. Cantava e isso era tudo. A sua voz de contralto apaziguava-os. Quando se calava, as aves voavam para longe e ela ia-se embora. Ontem veio como das outras vezes, cantou a mesma ária de sempre, só que as aves em vez de a rodearem, mantiveram-se em bando bem acima dela. Então, ela começou a esbracejar e, pode crer, ergueu-se da terra e foi ao seu encontro. Desapareceram no horizonte.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Haikai do Viandante (327)

Hiroshi Sugitomo - Ligurian Sea, near Saviore, 1993

do céu o silêncio
cai sobre o mover das águas
névoas de verão

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Desdobrar-se

Carel Blazer - Double print, portrait, 1932 

O desejo de se desdobrar é uma revolta contra os limites da condição humana. O corpo impõe-nos a unidade, mas o espírito é múltiplo e incansável na processo de diferenciação. Jamais está apaziguado com a unidade que a materialidade do corpo lhe impõe. Por isso, inventa continuamente novas e novas formas de se tornar outro, de se tornar múltiplo, de ser muitos apesar de possuir apenas um só corpo. Se o corpo lhe impõe que se dobre, ele, o espírito, responde desdobrando-se.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Poemas do Viandante (637)

Kuno Küster - Deserto do silêncio

637. no deserto do silêncio

no deserto do silêncio
desejo a
sílica do olhar
e oiço
o sulco suave
das mãos
soltas
na névoa negra
das noites de novembro

(11/12/2016)

terça-feira, 11 de julho de 2017

O acrobata

Marino Marini - Acrobats (1960)

Pensamos as acrobacias como exercícios de equilíbrio fundados na destreza, agilidade, força e risco. Vale, porém, a pena fazer a arqueologia da palavra. Descobrimos a sua origem no vocábulo grego akróbatos, aquele que anda em bicos dos pés. Há uma certa continuidade de ideia. Andar em bicos dos pés implica equilíbrio. A destreza física do equilibrar-se acaba, todavia, por nos esconder o desejo que se esconde nessa estranha forma de andar. Tem duas características. Por um lado, é uma diminuição da base de apoio do homem, diminuindo o contacto do corpo com a terra. Por outro, é um elevar-se em direcção ao céu. Na essência da acrobacia há, deste modo, um desejo de elevação e de superação da condição terrestre do homem.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Eclipse

Mario Sironi - L'eclisse (1942)

Oiço-a gritar, chamar por mim, dizer coisas que nunca julguei ouvir, mas não a vejo. De um momento para outro deixei de a ver. Se eu a conhecia? Não sei. O facto de ter casado com ela há 20 anos não prova nada. Nós julgamos que conhecemos alguém, mas isso não passa de uma presunção. O surpreendente é que quando a via, quando o seu corpo estava perante os meus olhos, nunca a ouvi gritar ou dizer o que quer que fosse de desagradável. Até que um dia alguma coisa se interpôs entre nós. Tem toda a razão. Um eclipse, um verdadeiro eclipse. Deixei de a ver. Quanto menos visível, mais audível se torna a sua voz. Enlouqueço.

domingo, 9 de julho de 2017

Haikai urbano (16)

Fred Stein - Cobblestones, Paris (1936)

a calçada cresce
sobre o mistério da terra
rua sem raízes

sábado, 8 de julho de 2017

A espera

Otto Ehrhardt - Waiting (1929)

Toda a espera nasce de uma desadequação perante o presente. Este tornou-se tão insuportável que se é levado a tomar a espera como o momento que antecede a redenção que o futuro trará.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Poemas do Viandante (636)

Modest Cuixart - Boscatge de Varignon (1994)

636. incendeia-se a floresta

incendeia-se a floresta
de vidro
presa na variz
do vento
suada pelo murmúrio
do fogo
adormecida no grito
de um pássaro
de asas de sangue
e folhas como penas a arder

(11/12/2016)

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Noites de Verão

Winslow Homer - Summer Night (1890)

Ao pensar-se em noites de Verão, o pensamento, de imediato, é conduzido à ideia de sonho. Certamente, a peça de Shakespeare - Sonhos de uma Noite de Verão - terá, nessa associação, um papel. No entanto, sempre se pode especular que o nome da peça seja já o resultado de uma experiência primordial da humanidade, muito anterior ao dramaturgo inglês, experiência que liga as noites de Verão ao sonho. Essa ligação é feita através do desejo. A combinação da temperatura cálida e da noite torna-se um poderoso estimulante do desejo. O sonho nasce então desse desejo que perdeu as amarras que a luz e o frio sobre ele faziam cair.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

A sombra

Toni Schneiders - Shadow (1956)

Também eu pensava assim. Temos dificuldade em libertarmo-nos do que aprendemos. Sabida uma coisa, ela torna-se um hábito e este é uma segunda natureza. Durante muitos anos sempre pensei a sombra como um espaço privado de luz devido à interposição de um obstáculo opaco. A tradição ensinava-o e a experiência confirmava-o. Uma dia, porém, vi a minha própria sombra a pairar entre mim e a fonte de luz. Não era possível, mas ela ali estava contra todas as probabilidades. Olhei-a durante muito tempo, até que percebi que ela era apenas a projecção dos meus pensamentos. Nessa altura dissolveu-se, mas volta todos os anos no dia do meu aniversário. 

terça-feira, 4 de julho de 2017

Construtores de pontes

William H. Fox Talbot - Suspension Bridge, Rouen (1846)

Na vida espiritual do homem - seja em que área for - a construção de pontes tem um lugar central. É certo que as diversas artes, no século XX, tentaram eximir-se a esse papel, encerrando-se muitas vezes em si mesmas, erguendo muros que as preservassem do contacto com o outro. Esse encerramento, porém, leva-as ao estiolamento. O espírito - onde se inclui o que anima as artes - é mediação, experiência da alteridade, ruptura com o idêntico e com a clausura. É por isso que todo o homem de espírito é um pontífice, um construtor de pontes.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

A outra viagem

Gustave le Gray - Le Havre, Bateaux quittant le port (1856)

Deixar o porto, fazer-se ao mar para, depois e após múltiplas escalas, voltar a esse mesmo porto. Assim, como um partir e um retornar mediados pelo viajar, podemos resumir a viagem física dos homens. Será diferente a viagem do espírito? Não será, por exemplo, a peregrinação uma viagem espiritual em tudo idêntica àquela que foi descrita? Sim, mas nem toda a peregrinação ou nem toda a viagem espiritual implica sair de onde se está fisicamente. O essencial da viagem não está em deslocar-se no espaço mas em transformar-se continuamente. A viagem espiritual - essa outra e mais decisiva viagem - é uma metamorfose, onde aquele que se transforma é ao mesmo tempo o porto de onde sai, o caminho que faz e o porto aonde regressa como sendo, ao mesmo tempo, o mesmo e já definitivamente outro.

domingo, 2 de julho de 2017

Haikai do Viandante (326)

Caspar David Friedrich - Summer Landscape with a Dead Oak Tree (1805)

um velho carvalho
morre ao sol de verão
sopra o silêncio

sábado, 1 de julho de 2017

Poemas do Viandante (635)

George Blacklock - Blue Pieta (1998)

635. ó blue pietà tão pura

ó blue pietà tão pura
e tão dorida
quanto do teu azul
são lágrimas
de portugal
para te bebermos
quanta água
correu na
                matermatriz
das mil noivas
                tão virgens
tão noivas 
                tão por casar

(11/12/2016)

quinta-feira, 29 de junho de 2017

A espera

Fred Stein - Three Chairs, Paris (1937)

Ainda hoje não creio no que me contaram quando vi, pela primeira vez, as cadeiras vazias. Não seriam eternas, entenda-se, mas durariam tanto quanto a própria humanidade. É difícil de aceitar. Também eu nunca vi ali ninguém sentado. Disseram-me, sem me abalarem o cepticismo, que nelas repousaram Tália, Eufrosina e Aglaia, as três Graças dos antigos gregos. Mais tarde foram o lugar da Fé, da Esperança e da Caridade. Sei pouco de teologia e de mitologia para lhe responder se as Graças e as Virtudes Teologais não seriam a mesma coisa olhadas com outros olhos. Talvez. O que sei é o que vejo e o que vejo é que as cadeiras estão vazias. Esperam.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

O céu estrelado

H. Hirsch - Girl, gazing to the stars (1880)

Olhar as estrelas é a grande experiência humana do confronto com o incomensurável, com o infinto. Este confronto com o desmesurado não nos indica apenas a nossa finitude. Dá-nos a dimensão do desejo que nos habita.

terça-feira, 27 de junho de 2017

A visão pura

Jing Huang - Pure Sight

O olhar sempre me fascinou. Não porque ele permitia discernir uma quantidade sem fim de coisas e de pormenores. Não, pelo contrário. O seu fascínio resultava da frustração, pode crer. Era impossível que, ao olhar fosse o que fosse, não se intrometesse uma espécie de ruído. Claro que treinem longamente os olhos, mas nunca conseguia evitar surpresas. A visão pura foi o graal da minha vida. Encontrei-o? É isso que deseja saber? Foi por acaso. Um dia, estando a olhar o horizonte em busca desse ver puro, fechei os olhos. Talvez estivesse cansado, e persisti nesse fechamento. De súbito, compreendi, tinha encontrado o graal, a visão pura. O que vi de olhos fechados? Nada. Descobri que não havia nada para ver.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Poemas do Viandante (634)

Lee Krasner - Between Two Appearances (1981)

634. de aparência em aparência

de aparência em aparência
visto o avental
de loucura
e componho a gravata
em torno da perfídia
do pescoço
se a voz vozeia
aperto o nó
e espero sentado
o grande veleiro do silêncio

(11/12/2016)

domingo, 25 de junho de 2017

Haikai urbano (15)

Kurt Hielscher - Salt Warehouses, Lübeck, 1931

armazéns de sal
adormecidos nas águas
o tempo flui e pára

sábado, 24 de junho de 2017

Fugas

Jackie Greene, Seminole Park. Model Sailboat Race (1974) 

Há uma tendência para perceber como compensação actividades como aquela que a fotografia nos dá a ver. Não podendo participar em regatas com veleiros a sério, compensa-se a inclinação com corridas de modelos. Se se pensar um pouco mais talvez se faça uma constatação surpreendente. Mais que uma compensação este tipo de actividades mostra-nos a natureza da actividade humana, de grande parte da actividade humana. Na verdade, esta não passa, na generalidade dos casos, de puro divertissement pascaliano, fuga à sua própria e insuportável realidade. A natureza e a dimensão dos modelos são irrelevantes.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

A sombra

Aart Klein - Skater, Holland, 1970s

Padeci desse mal que atormenta muita gente com propensão para a metafísica. Não, não se tratam desses sempre prontos para a arena da argumentação. Essa patologia tem origem diversa. A minha, como a de muitos outros, era fruto das variações sobre o tema quem sou eu? Tem razão, uma patologia musical. Música e metafísica são irmãs, embora já poucos o saibam. Tudo isso, porém, deixou de me interessar. Acertou. Curei-me. A cura? Nasceu da revelação da verdade. Patinava, como todos os anos no Inverno, sobre o lago gelado. De repente, olhei e vi a minha sombra no gelo. Tudo se iluminou. Eu não passava da emanação da minha sombra. Uma sombra de uma sombra, talvez.

terça-feira, 13 de junho de 2017

Haikai urbano (14)

Robert Doisneau - Place de la Concorde, Paris, c. 1940

manhã de neblina
sobre a praça da concórdia
rumores de inverno

domingo, 11 de junho de 2017

Poemas do Viandante (633)

Manuel Viola - Batalla al amanecer (1979)

633. as labaredas da manhã

as labaredas da manhã
no labor da sombra
deslizam
pela púrpura da noite
e cambaleiam
em céu de cinza
tisnado de escuridão
e cântaros de luz

(11/12/2016)

sábado, 10 de junho de 2017

Haikai do Viandante (325)

Reuben Wu - Light Painting With A Drone

floresta de pedra
sobre o lago do silêncio
luz água e calcário

domingo, 28 de maio de 2017

Viagem para si

Will Faber- Buscándome a mí (1968)

Buscar-se a si mesmo é como a tarefa de retorno de Ulisses à pátria. Múltiplos são os obstáculos que, durante a vida, se interpõem no caminho daquele que empreende a viagem de regresso si. Muitos nem se apercebem que há uma viagem a fazer. Outros soçobram no caminho vítimas de ilusões. Por fim, há os que empreendem a viagem para Ítaca, sabendo-a sempre ali e sempre distante. Sabendo que a Ítaca que encontram, sendo real, ainda é uma imagem e um símbolo da Ítaca a devem chegar. Descobrem que a viagem é infinita.

sábado, 27 de maio de 2017

Poemas do Viandante (632)

Eduardo Gruber - Bajos Fondos (1990)

632. o fundo salitrado da noite

o fundo salitrado da noite
ruge-me nos dedos
se toco a parede
e grãos de areia
e cal deslizam
pelas horas
na praia de poeira
na simetria de salitre

(11/12/2016)

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Mundos voláteis

Toni Schneiders - Karussell, Dom von Hamburg, sd

Mundos voláteis manifestam-se, por breves instantes, e logo desaparecem. Aquilo a que chamamos mundo talvez seja apenas esta volatilidade. Instantes de manifestação, como se fosse uma hierofania, para logo soçobrar no não manifestado.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Haikai urbano (13)

Alfred Ehrhardt, Lauben am altstädter Ring, Prag, Böhmen und Mähren, 1941

na cidade velha
arcadas, sombras, segredos
homens em silêncio

terça-feira, 23 de maio de 2017

Caminho

Hiroshi Sugitomo - Strait of Gibraltar, 1996

A linha que separa é também a que une. Quando se diz a linha do horizonte, o pensamento abre-se a uma dupla experiência, a do discernimento das diferenças ou a da fusão na identidade. Nestas duas experiências encontram-se três caminhos para o homem. A da especialização numa diferença, a da imersão muda no idêntico, a da tensão contínua entre o diferente e o idêntico. A cada um o seu caminho.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Poemas do Viandante (631)

Yves Klein - Vent Paris-Nice (COS 10) (1960)

631. o vendaval de neve

o vendaval de neve
desliza
nas escamas
da memória
murmúrio de sedas
no veludo
do tempo
água-forte que traça
figuras enlouquecidas
                no bronze
das estátuas
                               ou das estrelas

(10/12/2016)

domingo, 21 de maio de 2017

Pobres e ricos em espírito

Jill Freedman, Richest man in the world, 1970s

Na vida material, aquele que move a generalidade dos seres humanos, a riqueza reside no acumular. Na vida espiritual, pelo contrário, a verdadeira riqueza é pobreza. Reside no abandonar. Abandonar inclusive aquilo de que o espírito se apropriou e toma como propriedade sua. Um espírito que é proprietário, mesmo que seja apenas e só de bens espirituais, é um espírito submetido à lógica do mundo material, às regras do mercado. Só se tornará efectivamente rico quando se despir de tudo isso e se tornar um pobre de espírito, um sem-abrigo que não espera nada e vive para cada instante que a vida lhe concede, .

sábado, 20 de maio de 2017

O sonho

René Burri - Town of Shanghai, China, 1989

Era um sonho recorrente, daqueles que persistem ao longo da vida. Um quarto, um televisor e nele um rosto, parte de um rosto, para ser mais preciso, onde se abria um olho. Observava-me e seguia os meus passos dentro do quarto. Sentia incómodo, mas não medo. Não sei se o sonho era demorado, parecia-me que durava uma eternidade, até que acordava e não havia olho, rosto ou sequer um televisor. Nunca tive uma televisão. Até hoje, até agora que acordei e você está aí a olhar-me. Reconheço bem o olho que me espiou, o corte de cabelo que eu percebia no sonho e nada explica o que faz um televisor de ecrã estilhaçado no meu quarto.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Meditação breve (31) - Esperança

Pete Turner - New Dawn, Heimaey, 1973

O momento em que o dia irrompe é sempre o símbolo de uma esperança. A exuberância da luz rasga o véu da escuridão e anuncia aos homens um novo começo, e a esperança não é mais do que isso, o desejo de um novo começo, a possibilidade do inédito a redenção pelo retorno à inocência.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

As mãos

Stephan Vanfleteren

Eis as minhas mãos. São assim, já não me lembro como foram. Como eram pequenas e cresceram acompanhando o ritmo do corpo, não o sei. Tornaram-se poderosos, diz-me a memória que resta. Pegaram no mundo e ergueram-no, tocaram em corpos que enlouqueceram, imagino. Agora são um mar de rugas, a pele gasta, uma vontade de inércia. Dantes, guiavam-me, iam sempre à minha frente. Hoje não sei o que fazer com elas. Olho-as, mas não sinto nostalgia. Dizem-me que elas teriam muito a contar. Talvez, mas a verdade é que quase não me lembro. São apenas umas mãos escavadas pela enxada do tempo.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Poemas do Viandante (630)

Yves Klein - Anthropométrie suaire sans titre  (ANT SU 3) (1960)

630. a borboleta desce

a borboleta desce
miraculada
de cores
no alvéolo branco
do ciúme
e estende a teia
aos amantes
no vinho ébrio
borboletado
de janeiro a janeiro

(10/12/2016)

terça-feira, 16 de maio de 2017

Haikai urbano (12)

John Atkinson Grimshaw - Liverpool Docks, 1880s

navios do passado
chegam na luz do futuro
cidade de sombra

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Olhares

Unknown Photographer - The first day of school, Portugal, 1936

A escola é, muitas vezes, um treino sistemático para aprender olhar para baixo, como se todo o interesse dos homens estivesse na terra. Por vezes, alguém ousa olhar para cima e é nesse momento e nesse gesto que o homem adquire rosto, onde se manifesta o espírito, e um outro sentido para a vida se torna manifesto.

domingo, 14 de maio de 2017

Meditação breve (30) - Ser

Barbara Brändli - Untitled, from Sistema Nervioso (1974-5)

Não basta ser, é preciso querer ser. Não basta querer ser, é necessário afirmá-lo e inscrevê-lo na realidade. Um facto que se torna projecto para se tornar ser.

sábado, 13 de maio de 2017

Os caminhos do espírito

 Francis Wu - Shellfish Catching at Dawn, undated

Basta uma simples fotografia de uma actividade material para se perceber que a vida do espírito possui múltiplos caminhos. Antes das sendas singulares, estão vias mais gerais, a que se dá o nome de culturas. Estas conferem enquadramento e sentido para a aventura individual. O caminho espiritual, seja em que área for, é sempre um processo de singularização. As culturas mais do que dispositivos de diferenciação são meios de intermediação entre o universal e o singular.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Poemas do Viandante (629)

Lucio Muñoz - 7-86 (1986)

629. o pó da penumbra

o pó da penumbra
levanta-se
e trémulo deixa
entrever
o açafrão da paisagem
na rota rasgada
pelo tímido tremor
da chuva de novembro

(10/12/2016)

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Haikai do Viandante (324)

Gustave Le Gray - Groupe de Navires - Cette, Mediterranée (1857)

silêncio no porto
são águas da primavera
os navios parados

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Sombras

Loomis Dean: Women modeling apres-ski fashions designed by Fred Spillman cast long shadows on the Palace Hotel’s ice rink. St. Moritz, Switzerland, 1958

Acha curiosa a fotografia? Tem razão, claro. Ela merece o nosso olhar atento, mas não é por aquilo que somos levados a pensar. A beleza das mulheres, a luz e a projecção de grandes sombras sobre a superfície gelada. Em tudo isso, há um estranho equívoco. Os nossos hábitos não nos deixam perceber a realidade. Estas sombras já estavam impressa no gelo há muito. Sempre que a havia luz, eram visíveis. Até que um dia, juro que o vi, começaram a formar-se estranhas estátuas de gelo, quando estavam completamente formadas, ouvi vozes. Falavam entre si. No dia seguinte, quando a luz voltou, elas lá estavam. De carne e osso. Aquelas mulheres, tão vivas, são sombras das próprias sombras.