sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Haikai do Viandante (336)

Gustave Courbet - Le Château de Chilon, 1874

Montanhas e águas
sobre o mistério da tarde.
Silêncio no lago.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Poemas do Viandante (650)

Frantisek Kupka - Ensayo, robustez (1920)

650. ensaio um passo redentor

ensaio um passo redentor
na robustez
da eternidade
e oiço o canto
das estrelas
a poisar no jardim
que estremece
sob o pálido pavor
dos rubros pés de deus

(14/12/2016)

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Meditação breve (47) - Contemplativos

Charles Gatewood

O mais surpreendente naqueles que são contemplativos não é o facto de estarem arredados da acção e dos negócios humanos.  O que surpreende é a sua contemplação balançar sempre entre a aparência da indiferença e a prontidão com que respondem a uma solicitação de quem deles se aproxima.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Água que corre

Paula Modersohn-Becker - Landscape with Marsh Channel (1899 )

Como o fogo, também a água que corre exerce um grande fascínio sobre o espírito do homem. Ficar a ver passar as águas de um rio conduz os homens a uma experiência muito arcaica. Não é a antiguidade da experiência, porém, que a torna fascinante, mas o jogo de espelhos que ela opera. O espírito olha o fluir da água e reconhece-se a si mesmo. O rio de Heraclito é já uma solidificação dessa experiência, uma tentativa de racionalizar a experiência da fluidez do próprio espírito humano, mas este, como a água, recusa-se ao estado sólido e logo escapa do contorno da figura que o prende e parte em busca de si mesmo, para além das múltiplas figuras que vai tomando.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

As moradas do espírito

Walker Evans - Apartment Building Façade with Horse-Drawn Carriage, Sixth Avenue, New York, 1934

Múltiplas são as moradas que aguardam o espírito e em todas elas ele demorará o tempo de reconhecer que essa não é a sua morada e que uma outra o espera, num caminhar sem fim nem quietação.

domingo, 17 de setembro de 2017

O caminho sem fim

Alexej Titarenko - St. Petersburg, 1998

O exercício da metamorfose é a natureza do espírito. Quando perde a elasticidade e se petrifica, morre. É uma estátua de sal. Se, como Lázaro, for ressuscitado, espera-o o caminho infinito da transformação. Nenhuma casa é a sua casa, nenhum porto o abriga, nenhuma figura é a sua figura. O lugar onde chega é já aquele de onde deve partir. Além é sempre aquilo que o espera.

sábado, 16 de setembro de 2017

Poemas do Viandante (649)

Frantisek Kupka - Encuentro (1919)

649. o centro do silêncio rosna

o centro do silêncio rosna
se encontra
no orvalho
uma mão de caruma
e ladra
como um ladrão
sabe ladrar
à porta de pedra
desfeita
no feitiço da linguagem

(13/12/2016)

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Haikai do Viandante (335)

Jan Sudek

Os ramos despidos
na sombra do meu olhar.
Espero o inverno.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Meditação breve (46) - Rede

Albert Renger-Patzsch - Crab fisherman (1927 )

Transportamos a rede na qual, incrédulos, nos enrolamos.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Máscaras e armaduras

Charles Clifford - The Armor of Philip III, 1866

Fala-se muitas vezes de máscaras sociais, estando estas ligadas aos diferentes papéis que os seres humanos desempenham. São um dos artefactos cénicos que são mobilizados na vida social. Nelas está sempre presente a dimensão do disfarce, o qual nos permite encarar de forma menos traumática as interacções que são exigidas nos espaços públicos e privados em que vivemos. A questão é que a máscara, sem que o pensemos, transforma-se muito cedo em armadura. Um dispositivo de defesa, de protecção, mas também de ataque. O que dá solidez às máscaras sociais é o facto de elas serem armaduras disfarçadas, armaduras mascaradas. Proteger-nos do perigo e conquistar vantagens, eis o programa da nossa animalidade. Para chegar à vida do espírito não basta tentar arrancar o disfarce, a máscara, é preciso perceber o que se esconde nele. E o que se esconde não é um suposto verdadeiro ser, mas a armadura do combatente, o sinal do seu desejo de conflito.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Meditação breve (45) - Fogos de artifício

Hernando Viñes - Feux d'artifice (1954)

A generalidade das actividades, mesmo as mais sérias, a que os homens se entregam não passam de fogos de artifício. Iluminam-nos por um instante para que eles esqueçam da escuridão que os envolve e os habita. 

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Poemas do Viandante (648)

Wassily Kandinsky - À volta da linha (1943)

648. à volta da linha

à volta da linha
figuras
de mosto fermentam
na cripta
da memória
à volta da linha
a lepra do dia
borda-se
em madeira e
vésperas de cal

(13/12/2016)

domingo, 10 de setembro de 2017

Haikai urbano (20)

Edward Hopper - La ciudad (1927)

Vultos pela rua
passam no frio do silêncio.
Um grito ao meio-dia.

sábado, 9 de setembro de 2017

Meditação breve (44) - Concórdia

James Brooks - Concord (1975)

A concórdia não é a ausência de conflito, uma harmonia nascida da inexistência de oposições. A concórdia é o resultado do exercício de aproximação que transforma os outros, irredutíveis na sua materialidade, em próximos pelo espírito. Se o corpo separa os homens e os abre ao conflito, o espírito, ao torná-los próximos apesar da discordância e do conflito, abre-lhes o difícil caminho da concórdia.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Meditação breve (43) - Quase Negro

Gustavo Torner - Casi Negro

Esse resquício de luz que separa o quase negro da escuridão total não é sinal do caminho que falta percorrer até à treva absoluta. É antes a prova de que a luz persiste inabalavelmente nas piores situações e de que a noite nunca será plena.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Meditação breve (42) - Labirinto

Lucio Fontana - Ambiente spaziale (Labirinto bianco) (1968)

O labirinto não é uma provação com que alguns são confrontados. Labirinto é aquilo que cada um atravessa no decurso total da sua vida. Incerta não é a saída do labirinto mas a paisagem que encontra ao sair.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Poemas do Viandante (647)

Frantisek Kupka - Alredor de un punto (1911-12)

647. à volta do ponto

à volta do ponto
a lua treme
de mágoa e raízes
roídas
à volta do ponto
a gramática
de uma camélia
desfolha-se
à volta do ponto
na cabeça rutilante
da minha loucura


(13/12/2016)

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Haikai do Viandante (334)

Artur Pastor - Atlantic ocean, not dated

Contemplo nas águas
o rolar sombrio das ondas.
As horas deslizam.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Meditação breve (41) - Tradições

Thomas Hoepker - A geisha in traditional oiran dress in a 17th century tea house. Kyoto, 1977

Podemos pensar as tradições como persistências do passado no presente devido à resiliência do hábito social. Mais adequado seria pensá-las como âncoras do presente lançadas nas águas do passado.

domingo, 3 de setembro de 2017

Uma degradação meticulosa

Leonard Misonne - Impressionistic photography (photogravure), 1942

As mulheres não se movem. Estão ali há muito, prendendo nas mãos os guarda-chuvas. Não só elas, mas tudo o que vê. Nem vento, nem chuva a cair, nem água a deslizar no caminho ou, sequer, nuvens a vaguear pelos céus. Tudo está, há muito, tomado por uma imobilidade e, contudo, o tempo passa e aquilo que ali está é arrastado por ele. Como? Não sei explicar o processo, mas pode observar o resultado. O que vê é já uma sombra, uma mera impressão daquilo que um dia foi nítido, tão nítido que parecia real. O movimento é uma ilusão, penso. O que acontece é que tudo, apesar de imóvel, viaja, através de uma degradação meticulosa, da nitidez para o vazio, para sucumbir na ausência. Só isso.

sábado, 2 de setembro de 2017

Destruições e escombros

Edward Weston - Wrecked Car, Crescent Beach, British Columbia, 1939

Há uma tendência para ver a vida do espírito como alguma coisa de glorioso, onde o viandante vai de luz em luz, de glória em glória. A esta fantasia edulcorante contrapõe-se uma realidade feita de destruições e escombros, ambos dolorosos. Não haverá para o homem maior dor que a destruição da suas mais íntimas ilusões. Olha e à sua volta tudo são escombros.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Poemas do Viandante (646)

Ellsworth Kelly - Light Reflection on Water (1951)

646. a luz cintila na água

a luz cintila na água
afoga-se em
escuridão
ilumina peixes
mortos
com lâmpada
de algas
e candelabro
de plâncton e petróleo

(13/12/2016)

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Haikai urbano (19)

Wolf Suschitzky - Venice, 1957

Sol e luz na praça.
Os homens param e olham:
pombos esvoaçam.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

A porta do esquecimento

Chema Cobo - Amnesic Gate (1986-87)

Entrar pela porta do esquecimento é uma condição fundamental para a vida do espírito. Aquilo que não se esquece salta sempre como obstáculo no caminho. Uma distracção, um desvio, uma alienação. Entrar pela porta do esquecimento é um exercício de purificação e, ao mesmo tempo, a criação de uma clareira para que a realidade brote plena e total.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Meditação breve (40) - Equilíbrio

Florence Henri - Untitled, USA, c. 1940

O equilíbrio é o motor e o fim de toda a vida espiritual. Por maiores que sejam as ameaças de desequilíbrio, por maior que seja o perigo de perder o centro de gravidade, o espírito move-se para esse equilíbrio onde se reconhece e reconcilia consigo. As obras artísticas, as experiências místicas, até a especulação filosófica não são mais do que os vestígios da luta do espírito pelo equilíbrio.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Exausta

Deborah Turbeville - Vera Arbuzova, Stroganov Palace, 1996

Exausta, deitei-me no chão. Não era capaz de dar mais um passo. Os quartos ficavam tão longe. Senti, por instantes, a dureza da madeira, mas adormeci. Se foi um sonho, não consigo dizê-lo. Sei apenas que me vi ali estirada, a respiração, a princípio irregular, serenou e adormeci. Pela primeira vez contemplei demoradamente o meu corpo sem que um espelho interviesse. A certa altura vejo-o multiplicar-se em incontáveis corpos. Reconheci-os, eram todos o meu corpo, desde o nascimento até agora. Afastavam-se de mim, condenando-me à solidão de ser apenas aquilo que sou em cada instante, para logo me ver partir para longe de mim mesma. Estou exausta.

domingo, 27 de agosto de 2017

Poemas do Viandante (645)

Ellsworth Kelly - Four Blacks (1952)

645. no verão as folhas

no verão as folhas
tingem-se de negro
carcomidas
pela fuligem
oxidadas pelo ódio
tomadas pelo pavor
da queda
anunciada
em seiva ansiosa
de sombras e outonos


(13/12/2016)

sábado, 26 de agosto de 2017

Haikai do Viandante (333)

Paul Klee - Clearing in the Forest (1926)

dissipam-se as sombras
na assombração da floresta
chega a madrugada

sábado, 19 de agosto de 2017

Meditação breve (39) - Máscara

Annie Leibovitz - Meryl Streep, New York, 1981

Debaixo da máscara o que encontramos? Outra máscara. E debaixo desta? Uma nova. Enquanto alguém pensar que é alguma coisa, o que descobre por detrás da máscara com que representa o seu papel social é apenas uma nova máscara. O desejo de que por debaixo da aparência exista a realidade não passa disso mesmo, um desejo.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Meditação breve (38) - Árvores

Pier Luigi Lavagnino - Alberi (1969)

Uma árvore não é mais do que um silêncio que tomou corpo. Do alto da sua mudez, ela olha com condescendência para a bavardage onde os homens, sem parar, se afogam. 

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Vida interior

Meyer Schapiro - Abstract Interior (1950)

Um dos equívocos mais perigosos para a vida interior é confundi-la com uma existência plena de abstracções. Um conceito, por exemplo, é uma mera representação, enquanto a vida é sempre uma presença, um estar presente aqui e agora. O caminho do espírito começa sempre por um elevar-se da inocência concreta ao domínio da abstracção - é o momento da representação - para, de seguida, conquistar-se a si mesmo como realidade viva e plena, como presença pura no devir. Este é o tempo da sabedoria.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Poemas do Viandante (644)

Gerardo Rueda - De levante a poniente (1974)

644. de levante a poente

de levante a poente
sigo o rumo
do astro
escuto a erva
a ronronar
na palidez da planície
e
se o oriente se afasta
o mar em mágoa
afoga um diadema de fogo

(13/12/2016)

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Haikai urbano (18)

Ara Güler - Traffic on the old Galata Bridge, Turkey, 1956

cidade nocturna
sombra e secreto segredo
da noite a luz

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

A necessitada

Deborah Turbeville - Clothes by Romeo Gigli, Mirabella Magazine, 
École des Beaux Arts, Paris, 1989

O sangue corre-me um pouco mais rápido nos lábios, sinto a pressão contra a pele, a boca lateja. Engulo a saliva e passo com a língua pelos lábios. Vejo os dele e sinto que a pressão dos meus, o latejar do sangue no seu interior, é um sinal. Sinal de uma falta. Quase sinto o que me falta, uma ausência física. O coração estremece ao de leve e respiro. O ar entra muito lentamente pelas narinas e a tensão cresce. Penso nele e o coração é lacerado por uma dor. Inclino-me mas não está ali, apenas uma necessidade sem fim de lhe sorver os lábios, de os arrepanhar. Os lábios, os meus latejam no vazio.

domingo, 13 de agosto de 2017

Haikai do Viandante (332)

Filippo de Pisis - Paesaggio alpestre con case (1927)

casa na montanha
presa ao silêncio do dia
a sombra irrompe

sábado, 12 de agosto de 2017

A estátua

Josef Breitenbach - Sculpture Academy, Paris, c. 1935

Tenho frio. Não, o estúdio não está frio. Nem é o estar despida que me traz o frio. É o olhar deles nas minhas costas. Olham para mim e não me desejam, o olhar deles é frio, ao dirigiram os olhos para mim é gelo que deles sai. Só as pobres estátuas que saem das suas mãos recebem o seu desejo, o calor dos seus olhos. Tenho frio, muito. Os músculos começam a perder a flexibilidade, sinto-os duros, o sangue parou e os pulmões já não se movem. Quero, mas não consigo mover os braços. Aquela olhares gelam-me. Toda eu cheio a mármore. Sou uma pedra que nasceu dos olhos deles, a sua estátua, malditos sejam.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Poemas do Viandante (643)

Fernando Lerín - Sem título (1985)

643. uma névoa de azul

uma névoa de azul
e pedra
desce na manhã
embriagada
cobre de glicínias
as colinas de mogno
onde sangram
rosas de água
a escorrer púrpura
para o rio de cal e anil

(12/12/2016)

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Ofícios e profissões

Joaquín Mir - Carpintero

O que se perdeu na transição dos antigos ofícios para as modernas profissões? O essencial da perda reside no desaparecimento do espírito ligado ao trabalho. As modernas profissões visam apenas a eficácia externa e não pressupõem nelas nenhuma metamorfose espiritual. Quanto muito, exigem adequação psicológica. Os antigos ofícios, porém, eram verdadeiros programas de transformação espiritual. O afeiçoar da matéria era também um programa de transformação de si mesmo. O que se ganhou em objectos que, a cada instante, se tornam obsoletos, perdeu-se na vida interior de quem os produz.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

A fugitiva

Jeanloup Sieff - Alfred Hitchcock and Ina Balke, 1962

Pertenço-lhe. Se não lhe pertencesse não fugia. Corro, mas ele aproxima-se. Não suporto mais aquelas mãos. Ele aproxima-se. Uma provação, um teste. Definitivo. Se ele me agarrar, entrego-me ao seu império. Se conseguir escapar, serei livre, não mais lhe pertencerei. Essa sombra que me persegue quase me faz cair, sinto o ardor das suas mãos, o fogo que se desprende dos olhos. O ódio move-me. Oiço os gritos e fujo. Malditas ervas. Tantas pedras, vou cair. Não, ele ainda não me apanhou. É apenas uma sombra e as sombras não prendem as pessoas. Ou prendem. Corro. Ele corre, uma sombra. Aproxima-se e eu corro, fujo. Serei agarrada?

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Haikai do Viandante (331)

Modesto Ciruelos - Caballos (1952)

os cavalos dançam
à porta da eternidade
silêncio na estepe

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

A acossada

Gerda Taro - Republican militiawoman training on the beach, outside Barcelona, Spain, 1936

Apontar, a mão firme. Não hesitar, nunca hesitar. Não há coisa pior do que hesitar. Hesito e intrometem-se nos meus sentimentos. Estarei perdida. Não me amam. Olham-me e sinto os olhos do inimigo a rodear-me. As suas mãos na minha pele, as suas palavras de amor. Não quero que me toquem, sinto a pele suja. Não posso hesitar. Apontar, a mão firme e desfazer-me deles. O joelho por terra, alvejá-los antes que se aproximem e tragam o ronco das suas vozes, o martelar dos seus dedos. Rodeiam-me, aproximam-se, o que faço? Hesito, não hesito? Disparo. Para quê?

domingo, 6 de agosto de 2017

Poemas do Viandante (642)

Esteban Vicente - Matices del rojo (1986)

642. o vermelho abre-se em

o vermelho abre-se em
mil matizes
o poder cego do ocre
o delírio do vinho
o casto caminho
do castanho
a terra de saibro
e a casa de tijolo
pairam no poder cego
e deslumbrante
da ferida em carne viva

(12/12/2016)

sábado, 5 de agosto de 2017

A abandonada

Francesca Woodman - Untitled, Providence, Rhode Island, 1976

Ela desce, desce, penetra o soalho e vai desaparecer. A sombra que vivia a meu lado, vai-se embora. Temia-a tanto e já sinto a angústia da sua ausência. Que fazer agora que não tenho de me proteger dela, das suas solicitações, das suas manobras esquivas? Não, não me vou vestir. Para quê, se ninguém me vem ver, a própria sombra me deixou. Eu sou como estas paredes. Abandonadas, desintegram-se dia após dia, como se o nada as chamasse para dentro da sua imensa algibeira vazia. Medo? Não tenho medo, apenas um pouco de cansaço. Sim cansaço, o abandono é um exercício violento, tão violento. Sento-me cansada e espero. É tudo.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

A enclausurada

Deborah Turbeville, Self Portrait, Versailles, 1981

Enlouqueço. Sim, quase louca. Onde ponho os pés? Fechada, fechada aqui, para sempre. Para sempre? O que é a eternidade? E aqui o que é? Lá fora, o mundo espera-me. As pessoas falam e eu aqui presa. Se ao menos fosse um convento... São oito da manhã, quantas horas até o dia acabar? Caminhar, não parar. Não posso esquecer. Talvez fosse melhor esquecer, ou então morrer. Se eu soubesse cantar, mas não quero cantar. Quero rasgar as veias e deixar o sangue... ou cantar, talvez cantar fosse um remédio ou talvez não. Não posso mais, vou andar devagar, muito devagar e contar os passos. Quantos passos até ao fim? Um, dois, três, quatro...

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Meditação breve (37) - Revelação

Yoshiyuki Iwase - Nude (1950)

É no desequilíbrio, nessa ameaça de desarmonia, que sobressai a harmonia de um corpo, a sua obediência a uma ordem estética com que a natureza conspira para que, através desse corpo, o espírito se revele e revele no seu mais íntimo esplendor.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Haikai do Viandante (330)

Modesto Ciruelos - Abstracción (1975)

um barco desliza
pela água do mar de verão
sol céu infinito 

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Poemas do Viandante (641)

Eugène Leroy - Poisson (1974)

641. o peixe perde-se na paisagem

o peixe perde-se na paisagem
devorado por
uma ostra de volúpia
e
canta ao ritmo
dos remos
preso no veludo
da rede
preso na sílaba
de bronze
preso
                no anzol do amor

(12/12/2016)

segunda-feira, 31 de julho de 2017

A luz

Odilon Redon - L'Homme ailé ou L'ange déchu (1880)

A ambiguidade do título do quadro de Redon, independentemente das razões que assistiram ao pintor, marca um dos traços da nossa cultura. O desejo de se elevar e o temor de cair. O destino tanto de Ícaro como do anjo decaído está relacionado com a luz. Um aproxima-se tanto da fonte da luz, o Sol, que as asas derretem. Outro, Lúcifer, o anjo da luz, não resiste à desmedida de ser portador da luz. Em cada uma destas figuras, o espírito ocidental exprimiu a dificuldade de se relacionar com a Luz. Não por acaso, João, o evangelista, escreveu: a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam.

domingo, 30 de julho de 2017

Um Cristo crucificado

Odilon Redon - Crucificação (1910)

Olhamos o quadro de Odilon Redon e, perante a data, perguntamos, perplexos, o que faz ele ali. Ali não se trata do Museu de Orsay onde se encontra, mas de 1910. Depois do Iluminismo, do positivismo e dos diversos materialismos, por que razão tornar a apresentar um Cristo crucificado? Se nos deixarmos instruir pela pintura, talvez seja possível compreender alguma coisa. O que vemos é a solidão e o abandono do Cristo. Elas são o negativo que permitiram construir o mundo que ainda é o nosso. Pensa-se muitas vezes que a grande vantagem que o Ocidente construiu se deve à ciência e à técnica. Isso, porém, não passa de uma aparência. A vantagem que nos permitiu inclusive chegar à ciência e à técnica funda-se toda ela nessa consciência difusa de que a solidão e o abandono experimentados pelo Cristo na cruz são a nossa verdadeira condição. Sobre este alicerce construímos o resto. Umas vezes para o bem, quando aceitámos a verdade do homem; outras para o mal, quando o medo foi mais forte do que a aceitação.

sábado, 29 de julho de 2017

Haikai do Viandante (329)

Modesto Ciruelos - Abstracción (1975)

terras do levante
paisagens de fogo e mágoa
as cigarras cantam