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terça-feira, 23 de agosto de 2016

Criar contrastes

Doménec Pascual Badía - Contraste (1970)

Contrastar é uma das acções fundamentais da vida do espírito. Criar um contraste é tornar claro a diferença, retirar algo da névoa da indiferença. Criar, através do acto de contrastar, oposições não é criar conflitos, mas determinar os opostos que, ao diferenciarem-se, se harmonizam. Na vida do espírito, a harmonia nasce da oposição, do contraste, da diferença.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Como uma orquestra

Paul Ackerman - A Orquestra

Da ideia moderna de orquestra pode-se retirar uma poderosa analogia da vida espiritual. Na verdade, olhada desta perspectiva, a vida pode ser encarada como um contínuo ensaio de orquestra, onde um maestro desconhecido tenta conjugar os vários naipes de instrumentos, os poderes do corpo, os anseios da alma e as faculdades do espírito, para que o indivíduo, na sua singularidade, se descubra como pura harmonia.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

O chefe de orquestra

Paul Ackerman - A orquestra

O homem não é um ser unidimensional. Pelo contrário, é composto por múltiplas dimensões que, como os instrumentos de uma orquestra, precisam de ser concatenados. O trabalho de concatenação cabe ao chefe da orquestra, ao espírito. Uma parte da vida espiritual está ligada à descoberta do maestro e à sua preparação. A outra parte é o trabalho deste na transformação de uma cacofonia numa peça musical sublime.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

O espírito e a espada

Esteban Vicente - Séries Alison - Harmonia (1976)

Não cuideis que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas a espada. (Mat. 10: 34)

A grande ilusão da vida espiritual é a harmonia. Quantas vezes as pessoas julgam que a vida espiritual tem como missão proporcionar-lhe uma existência bem ordenada, perfeita, onde o desacordo consigo e com o mundo desapareça, uma vida de paz, ordem, coerência e conformidade consigo mesmo. A vida espiritual, porém, não veio trazer a paz mas a guerra. Veio trazer a desordem, o desacordo, a desconformidade consigo e a incoerência. A vida espiritual não é uma sessão de auto-ajuda, mas a viagem por uma paisagem em guerra. Quem quiser adentrar-se no caminho do espírito tem de aprender a manejar a espada.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Do sentimento de harmonia

Henri Matisse - Harmonia em vermelho (1908)

Facilmente, o espírito se deixa enredar num equívoco sentimento de saudade de um tempo em que, na vida, reinava a harmonia. Essa harmonia, contudo, nunca existiu, não passava do mero desconhecimento daquilo que já nos cindia e dilacerava. A desordem, a desproporção, a assimetria são a nossa condição originária. A harmonia é o sintoma de um cansaço que a vida inscreve em cada um de nós.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

O sonho da harmonia

Paul Signac - Au temps d'harmonie (1894)

Talvez o maior anseio do coração do homem, mesmo daquele que se transviou por complete das normas da sociabilidade humana, seja o retorno a uma vida de harmonia, o retorno ao paraíso perdido. A modernidade sonhou, através das diversas utopias que foi criando, esse paraíso. Sonhou-o de forma impaciente e febril, sonhou-o como se ele dependesse do engenho e da indústria dos homens. Esse sonho tornou-se pesadelo. As utopias deram lugar a distopias e a harmonia sonhada, aos piores conflitos da triste história humana. Talvez a harmonia não seja algo que caiba ao homem, talvez, e em alternativa, o caminho para esse harmonia não passe pelas realizações exteriores, mas pela procura de um centro interior onde entremos em harmonia connosco e, a partir daí, com os outros.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Reconstruir a harmonia

Paul Signac - Au temps d'harmonie (1894)

Por que razão o viandante se põe a caminho? Porque uma desarmonia se instalou dentro dele e abriu uma brecha que ameaça tornar-se em abismo. A viagem não é a fuga ao abismo, mas o esforço supremo de o olhar de frente e, esperando uma graça, conseguir unir aquilo que em si se afastou e, desse modo, reconstruir a harmonia que imaginou existir antes que a cisão de si consigo mesmo se instalasse.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

O lugar de Eros

Armand Point - Eros (1896)

Mas, nem o espírito ama sozinho, nem o corpo: é o homem, a pessoa, que ama como criatura unitária, de que fazem parte o corpo e a alma. Somente quando ambos se fundem verdadeiramente numa unidade, é que o homem se torna plenamente ele próprio. Só deste modo é que o amor — o eros — pode amadurecer até à sua verdadeira grandeza. (Bento XVI (2005), Deus Caritas Est - Carta Encíclica).

Bento XVI inicou praticamente o seu papado com uma reflexão sobre o amor. Penso que o texto foi pouco escutado fora dos círculos cultos da Igreja Católica. No entanto, vale a pena ser lido. Não porque traga nele uma ruptura com a doutrina da Igreja, mas porque a torna mais clara. Um aspecto interessante é o da reflexão implícita sobre o dionisismo. Contrariamente ao que pensam alguns exaltados, os estados dionísiacos são absolutamente dissolventes e, se não forem controlados, arrastam as sociedades para situações degradantes e de clara desvitalização. O culto de Eros, presente nesses estados, precisa de um forte controlo. Para os gregos, o controlo da dissolução orgiástica dionisíaca vinha através dos  cultos apolíneos, cultos da razão e da ordem política. Na leitura que Nietzsche faz da origem da tragédia, estes dois princípios estão em contradição e em conflito contínuo. A resposta do cristianismo é menos dialéctica, menos heraclitiana. Em vez do conflito entre razão e instinto, propõe uma integração dos diversos níveis, medita sobre uma aquisição da sabedoria do amor. No cristianismo, não há lugar para o excesso e a desmedida dionisíaca, mas também não há lugar (embora isso tivesse acontecido) para a rígida voz de uma razão supressora de Eros. E, de forma surpreendente, encontramos um conceito proveniente da moral clássica dos gregos, o conceito de justa medida. O cristianismo recusa o excesso de Eros mas também o excesso de razão. O que está em jogo é uma aprendizagem da justa medida, um princípio de equilíbrio e de integração entre as diversas tensões que percorrem o ser humano, sem as negar e sem as superlativar.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Harmonia

Luis Brihuega - Armonía (1960)

A harmonia consigo mesmo, com os outros e a natureza é o ideal que se oculta muitas vezes sob a capa do mal estar. A experiência de desarmonia, de desacordo, de desconformidade corrói a vida dos homens, trabalha-a por dentro até fazer dela qualquer coisa feia e inaceitável. Essa experiência de nunca se estar em sua própria casa conduz à criação de uma mitologia que nos permita imaginar um ideal de proporção e beleza nas nossas vidas. Mas a vida é desarmonia e desconcerto por excelência, e ao homem resta-lhe aceitar essa sua condição. É no momento em que aceita a desarmonia que o homem começa a dar os primeiros passos na senda da harmonia. Harmonizar-se com a desarmonia, eis o imperativo para quem se sente em desconformidade e desacordo com e na vida.

sábado, 12 de maio de 2012

Fractura e harmonia

Benvenuto Benvenuti - La case delle armonie celeste (1911-1913)

O sentimento de fractura que, desde muito cedo, se insinua em nós traz consigo uma exigência a realizar na vida. Essa exigência é a da reconstituição da harmonia perdida. Não sei bem qual foi o momento em que senti ter deixado o estádio ingénuo da harmonia primeira para entrar no jogo, um jogo quase desesperado, para equilibrar as partes fracturadas. No hiato entre elas insinua-se um estranho exigência de absoluto. Esta insinuação traz uma lição consigo: não mais é possível restabelecer a ingénua harmonia, esse paraíso perdido dos primeiros tempos de vida. A fractura destruiu a inocência e esta não mais é possível. O conhecimento do mal é uma etapa, então, para esse absoluto. A exigência de absoluto significa a conquista de um novo estádio de inocência, não de uma inocência inocente, mas de uma inocência que se inocentou ao viver a culpa, de uma harmonia que se harmonizou pela mediação da fractura. É para isso que todos temos de passar por esse momento em que o fruto da árvore do bem e do mal nos seduz e joga em plena vida mundana.