terça-feira, 30 de maio de 2023

Pintura e haikus (31)

Sam Francis, Around the Blues, 1957-62

Girassóis azuis
erguem-se para o Verão.
Cavalos de fogo.

domingo, 28 de maio de 2023

A Canção da Primavera 10

Ana Hatherly, Cidade, 1971

A cinza caída do céu

cobre de tristeza a cidade.

 

As ruas, passagens desertas,

declinam sob uma luz pálida.

 

Esqueço-me da Primavera

na melancolia de domingo.

 

Maio de 2023
 

sexta-feira, 26 de maio de 2023

O sal do silêncio (99)

Manning P. Brown, Curves, 1937

A nudez é o silêncio onde um corpo se oculta, se subtrai ao olhar inquisidor, oferecendo o seu esplendor para que floresça nos olhos incautos a mais terrível das cegueiras, aquela que ao olhar confunde aquilo que vê com aquilo que é visto.

quarta-feira, 24 de maio de 2023

A sombra da água (14)

Henri Edmond Delacroix Cross, La Dogana, 1903

As águas são propícias a grandes amores e a terríveis crueldades. Existem como uma sombra entre a solidez da terra e a imponderabilidade do ar. Agitam-se, se o vento as toca ou o oceano cintila ao longe. Adormecem, se um sonho as chama para lhes contar os segredos que nelas se escondem.

segunda-feira, 22 de maio de 2023

A Canção da Primavera 9

Vincent van Gogh, Camino en Saint-Rémy con figura femenina, 1889

Pelos campos corre selvagem

a luz do deus da Primavera.

 

Sem mácula ou sombra as flores

abrem-se como aves de fogo.

 

Os dias passam no adro do tempo,

são setas no meu coração.


Maio de 2023

 

sábado, 20 de maio de 2023

No limiar (5)

Georgia O'keeffe, Black abstraction, 1927

Ainda as coroas não ornavam cabeças reais, nem o oxigénio se combinara com o hidrogénio para, em proporção exacta, permitir o advento da vida. O vento era apenas uma promessa cósmica de um tempo a vir, e a luz estelar ainda não tinha sido separada em enxames que se deslocam sempre para mais além. Do fundo negro, uma onda de escuridão ergueu-se e troou, enquanto uma espuma esbranquiçada, imperativa como uma velha fronteira, assinalava as primeiras metamorfoses que trariam o mundo ao lugar onde o encontramos.

quinta-feira, 18 de maio de 2023

Geometrias de fogo (14)

Maria Gabriel, Sonho numa noite de Verão, 1969

Sonhos de Verão são reminiscências de fogos que acordam dentro de uma imaginação exausta de tanta fantasia. O lume arde, enquanto o sonhador dorme. As labaredas tocam-lhe o coração e abrem-se em danças inquietantes por dentro do peito, até que o dia nasce e o sonho se esgota no lume da aurora.

terça-feira, 16 de maio de 2023

A memória do ar (13)

Maria Helena Vieira da Silva, L’air du vent, 1966

A precipitação com que o ar se enovela ao transformar-se em vento anuncia que, sob a capa de um mundo sólido e perfeito, se escondem, secretas e sulfurosas, as moléculas do caos, compostas por miríades de átomos instáveis e energias ferozes que se aniquilam entre si, anunciando o nada de onde tudo, mais uma vez, se haverá de extrair.

domingo, 14 de maio de 2023

A Canção da Primavera 8

Fernando Lerín, sem título, 2000

As tílias sombreiam as ruas

por onde caminho em silêncio.

 

O sol embalado no vento

cintila no verde das folhas.

 

Há no murmúrio da manhã

um cântico de Primavera.

 

Maio de 2023 

sexta-feira, 12 de maio de 2023

O sal do silêncio (98)

Noé Sendas, The Rest is Silence II, 2003 (aqui)

O peso do silêncio dobra a voz para dentro de si mesma. Esconde-se como um animal acossado, como um homem cujos olhos, tão frágeis, não suportam a luz. Na ausência do som, desprende-se dos corpos o sal do sono, e a boca, com o esmalte dos dentes e o âmbar do riso, floresce na floresta memoriosa da mudez.

quarta-feira, 10 de maio de 2023

No limiar (4)

Imagem obtida com IA da CANVA

Pensa-se no lugar onde a realidade se produz em estratos, o trabalho moroso de sedimentação de materiais arcaicos, mas esse pensamento não passa da projecção do desejo de encontrar uma chave de leitura para aquilo que não tem leitura. Trata-se antes do lugar onde a irrisão se encontra com a ausência de sentido, formando ondas caóticas, impressões difusas, recusas viscerais de toda a ordem. Por vezes, soltam-se ruídos, mas não se encontrou ainda aparelho auditivo para os processar e descobrir para eles uma notação prosódico ou mesmo um nome. Pensa-se no não pensável.

segunda-feira, 8 de maio de 2023

A sombra da água (13)

Amedeo Modigliani, Sun Reflected on Water, 1905

O ardor da água, essa pele porosa e lustral onde o fogo encontra a sua imagem, cintila perante a ameaça da sombra ou dos dias negros, de onde a luz foi retirada, reverbera contra a escuridão, alumia-se na inocência de tudo aquilo que passa e perde ao passar a mácula original do movimento.

sábado, 6 de maio de 2023

A Canção da Primavera 7

Georgia O'Keeffe, From the lake nº 1, 1924

Nuvens sobre nuvens encobrem

no céu o sol primaveril.

 

A sombra delida dum cisne

cresce nas águas frias do lago.

 

Ouve-se um canto luminoso,

ventos sopram vindos do Sul.

 

Maio de 2023

 

quinta-feira, 4 de maio de 2023

Pintura e haikus (30)

Zao Wou-Ki, 21-14-59

Tormentos de sombra
em planícies de fria lava.
Um vulcão extinto.

terça-feira, 2 de maio de 2023

Geometrias de fogo (13)

Vincent Van Gogh, Campesina sentada al fogón, 1885

Uma estranha geometria possui o fogo doméstico. As suas labaredas rodopiam arrastadas pelo íman da necessidade. O frio ancestral, o temor nascido no início dos tempos, a fome inexorável, tudo isso se torna um poderoso chamamento. Então, o fogo ergue-se como uma camélia perdida ao vento e arde para que a vida seja ainda uma luz na melancolia da noite.