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terça-feira, 4 de setembro de 2018

A ruína

Deborah Turbeville, Vera Abrusova, Stroganov Palace, 1996

Sim, conheço-a muito bem. Pelo menos, o suficiente para trocar com ela, de quando em quando, algumas palavras. De circunstância? Não, ela nunca fala para preencher o vazio ou para matar a solidão. Vive só, claro, mas não é uma solitária. Quando herdou o palácio, ele já estava em ruínas. Um dia, disse-me que tinha hesitado muito sobre o destino a dar ao destroço que tinha recebido. Quando o filho, o único que tinha, morreu, abandonou o marido, o mundo, e veio viver para ali. Disse-me que, a partir de então, aquele seria o seu elemento natural. Também ela era uma ruína sem futuro. Pálida, sorriu, como se pedisse desculpa, e entrou pela porta decrépita que não procurou fechar.

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Chegar a casa

Cecil Beaton, Dorian Leigh, Vogue, 1950

Apoiou os braços e nestes, a cabeça. Estava exausta. Tinha vindo de longe, de tão longe que esquecera o sítio de onde partira. Talvez fosse de uma casa na montanha ou de uma cidade perto do oceano. Todas as suas memórias tinham começado a dissipar-se. Era como se uma pedra dura, de repente, se desfizesse em grãos de areia microscópicos, e estes, quase um fluido, escorressem entre os dedos. Assim, perdia ela os pormenores da sua vida, o nome dos pais, a face dos homens que amara, o lugar onde nascera. Vívido, apenas o buraco negro por onde entrara e a luz que agora a iluminava. Uma voz sussurrou-lhe: chegaste a casa.

sexta-feira, 8 de junho de 2018

A estátua

Nelly’s, Girl from Ipati, Greece, ca. 1930

Se o acontecimento é extraordinário, as razões que a levaram aquela decisão são misteriosas. Não lhe faltavam os dons que atrairiam sobre ela as maiores felicidades. Bela, poderia escolher o homem que quisesse e a vida que mais desejasse. Tinha uma índole jovial e não lhe faltavam amizades. Tão pouco nascera num lar sem fortuna. Quando viu, pela primeira vez, a estátua de pedra, gritou. Depois, silenciou-se. Uma noite, viram-na colocar-se ao lado da estátua, imitando-lhe a pose. Na manhã seguinte, continuava lá. Enlouquecera, pensaram. Quando no dia seguinte a avistaram, alguém foi ter com ela. Tocou-lhe. A sua carne, porém, era um mármore frio e pálido. 

sábado, 31 de março de 2018

A beleza

Kishin Shinoyama, 1968

O seu ar era puro e a maneira de andar recatada. Comecei a esperá-la com ansiedade. Um dia, ganhei coragem e falei-lhe. Respondeu-me. Acompanhei-a e disse-lhe que a iria buscar. Disse-me o nome e, para minha surpresa, assentiu. Assim o fiz e quando me aproximava de casa convidei-a a entrar. Não recusou. Ao fechar a porta, toquei-lhe no braço. Ela afastou-me com delicadeza e despiu-se diante de mim. Eu ardia de paixão. Nua, ajoelhou-se, sentou-se sobre os calcanhares, inclinou, levemente, o dorso para trás, a cabeça para a frente e para baixo. Nunca vira nada tão belo. Não resisti, e toquei-lhe. Horror. Estava fria. Sob os meus dedos, uma estátua de mármore. Essa mesmo que vê no jardim.

domingo, 25 de março de 2018

Uma cegonha

Leo Matiz, Frida Kahlo tomando el sol,1941

Conheceu-a bem, julgo. Talvez o dia mais memorável da minha vida foi aquele em que ela se deitou ali mesmo. Está a ver a sombra da árvore? Foi aí. O sol banhava-a  e ela resplandecia. O vento levantava-lhe o vestido. Não tinha qualquer peça de lingerie, apenas a pele. Esplêndida. Confesso que a desejei. O que me assombrou não foi a beleza do rosto nem o corpo magnífico que vento descobria. Foi a sua partida. A certa altura, pôs-se de cócoras, o vento enfunou-lhe o vestido e, pode crer, este transformou-se em asas enormes e cintilantes. Estremeci, maravilhado. Então, ela levantou voo e desapareceu atrás das nuvens. Era uma cegonha.

sexta-feira, 23 de março de 2018

O homem que escutava o mar

Ferdinando Scianna, Jorge Luis Borges listening to a shell, Palermo, 1984

Agarrou numa concha e levou-a ao ouvido. Oiço o oceano, gritou e riu-se. Depois, sentou-se, pegou na caneta e escreveu sobre as ondas que ouvira e o mar que só então passara a existir. De vez em quando, tornava-se a levantar, segurava, com mil cuidados, a concha, levava-a ao ouvido e dizia: oiço o oceano. Depois, ria-se e continuava a escrever as gaivotas que nasciam e os cardumes que passavam ao longe. Quando anoiteceu, da sua caneta saiu um pequeno barco a remos. Então, levantou-se, tirou a gravata, desapertou o colarinho, entrou no barco e remou. Ao largo, um enorme transatlântico esperava-o. Nunca mais voltou.

quarta-feira, 14 de março de 2018

Aquele que rodopia

Leonard Freed, Whirling Dervishes, Konya, Turkeye, 1976

É tão estranha a minha situação que não haverá quem acredite no que aconteceu. Não hesito em chamar paraíso ao lugar onde estou, mas o melhor é não abusar da benevolência do leitor. O que se passa é que estou no céu e não morri. Após uma crise grave, entrei numa comunidade de dervixes. Empobreci e a minha vida tornou-se casta e austera. Segui os preceitos e orei ao Misericordioso. Aprendi, ao dançar, a abandonar-me. Um dia, ao meditar rodopiando como é habitual na nossa ordem, senti que a gravidade deixara de ter poder sobre o meu corpo. Então, enquanto girava, fui elevado aos céus. Aqui estou, grato ao Todo Poderoso, e sem esperança que o leitor acredite em mim.

segunda-feira, 12 de março de 2018

O amante excessivo

Cecil Beaton, Fashion Model, 1950s

Há amores que são excessivos. Foi assim que ele começou a conversa. A princípio fiquei atónito, pois não esperava uma confissão, mas logo me recompus. Contou-me como tinha conhecido a mulher, a paixão que dele se apoderou. Não escondeu sequer alguns episódios picarescos, embora nunca tenha exposto a intimidade desse amor. Descreveu o casamento durante horas. A passagem dos anos não saciou a paixão, confessou-me. A dela, não sei. O que ele me contou foi que, um dia, a mulher lhe disse: o teu amor é excessivo para mim. Nesse instante, alimentada pela obsessão dele, ela começou a desdobrar-se. Primeiro, uma sombra, depois um vulto, por fim outra mulher exactamente igual a ela. Hoje, não sem felicidade, vivem os três.

sexta-feira, 9 de março de 2018

A ponte

Toni Schneiders, Fykesunds bru im Hardanger Fjord, 1959

Ninguém sabe quem construiu a ponte. Diz-se que nos inícios dos anos cinquenta do século passado, de um dia para o outro, a ponte apareceu ali. Os relatos são coincidentes e os jornais da época registaram o fenómeno. Pouca gente morava então nesta zona, mas o terror foi grande, como pode imaginar. Do lado de lá, não há notícia que tenha vindo alguém e aqueles que do lado de cá se aventuraram nas trevas da outra margem nunca voltaram. O que está no fim da ponte ninguém sabe. A escuridão parece eterna. Desde que a ponte apareceu ali - ia a dizer foi construída - nunca o dia sucedeu à noite. E isto é tudo o que sei.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

A minha mulher

Hannah Höch, Self portrait with Raoul Hausman, ca. 1919


Conheceu a minha mulher. Lembra-se, por certo, da sua figura e da sua maneira de ser misteriosa. Como ela adquiriu os papéis de identidade, nunca o soube. Quando casámos, estava tudo na mais perfeita ordem. O problema é que ela não tinha pai, nem mãe, tão pouco nasceu ou teve uma infância. Um dia, ao crepúsculo, senti uma leve tontura. Não cheguei a cair, mas de dentro de mim começou a sair uma sombra. Não tive medo. O processo não foi demorado. Quando a noite caiu ouvi uma voz, uma bela voz. Tremi. Vinha da sombra, agora um vulto, e tocou-me o coração como nenhuma outra. Quando acendi a luz, o vulto era uma mulher. Olhei-a no fundo dos olhos e soube de imediato que seria a minha mulher.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Um casal

André Kertész, Couple devant un coucher de soleil, Lágymányos, Hongrie, 1920

Chegavam ao pôr-do-sol. Vinham de mãos dadas, depois olhavam o horizonte e ele punha-lhe a mão sobre o ombro. Então, ela encostava-se, e assim ficavam largos minutos, depois partiam. Que eu tivesse visto, nunca se beijaram. Se pareciam felizes? Não lho sei dizer. Nunca lhes vi o rosto. Não sei se ela era bela ou se ele tinha um ar altivo. Um dia ficaram mais tempo. O sol pôs-se e eles permaneceram ali, abraçados e luminosos, banhados pelo crepúsculo. Quando a luz estava quase a desaparecer, entraram devagar dentro de água e caminharam sem pressa. Submergiram no momento em que a noite se cerrou. Nem nesse momento houve um beijo, se isso o interessa. Não, não os tornei a ver.

domingo, 17 de dezembro de 2017

Para toda a vida

Tóth Zsuzsanna, Egy életen át

- Lembras-te do que me segredaste quando, no dia de casamento, saímos da Igreja?
- Nada de impróprio. Ou foi?
- Não, não foi, embora fosses capaz de o fazer. Não te faltava atrevimento. Não te lembras mesmo?
- Aos dezanove anos, somos capazes de segredar qualquer coisa.
- Ainda não tinhas dezanove anos, faltava uma semana.
- Como era nova. Bem, não era assim tão atrevida... Nunca te deixei tocar-me. Lembras-te?
- Se lembro, atrevida, mas...
- Nunca pensei que ia parecer a minha avó. O que te disse?
- Faz um esforço. Cumpriste.
- Cumpri? Ainda bem, mas, nesse dia, estava tão atordoada que devo ter prometido este e o outro mundo.
- Não foi, propriamente, uma promessa.
- Não? Ainda bem, se o fosse e com o esquecimento poderia acontecer que faltasse à palavra.
- Não. Fizeste uma espécie de constatação.
- Uma constatação? Mas o que constatei?
- Que era para toda a vida. Murmuraste: para toda a vida. E eu senti-me eterno. Eras um anjo, atrevida, mas um anjo.
- Mas, mas a vida ainda não acabou.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Nesta terra

Jean Dieuzaide, Turquie, la chevauchée, désert de Konya, 1954

Atravessamos um mundo após outro para chegar a este. E o que nos espera? Um deserto vazio como o esquecimento, um calor infernal e nuvens de poeira que lembram sabe-se lá o quê. Melhor seria termos evitado esta Terra, mas as informações nunca são certas e os vendedores de mundos há muito que perderam os escrúpulos. Os negócios estão mal, queixam-se, como se isso lhes aliviasse a consciência. Pobres cavalos. Estão cansado e não sabemos onde haverá lugar para descanso. Nunca pensei. De todos os mundos possíveis, logo haveríamos de vir a este. Maldita poeira do deserto. Ainda morremos todos nesta Terra.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Ilusão

Edward Weston, The Marion Morgan Dancers, California,1921

- Vê-as? Está mesmo a vê-las?
- Sim, já lhe disse que sim. Por que pergunta?
- Vejo-as, há muito, mas nunca me aproximei delas. Com o passar do tempo comecei a convencer-me que eram uma ilusão.
- Uma ilusão? Talvez tenha razão. Uma ilusão...
- Uma alucinação, como a daqueles que se perdem no deserto e vêem oásis onde só existe areia.
- E elas estão sempre assim?
- Sim, despem-se, riem e olham para as imagens reflectidas no lago. Depois, pegam na roupa e desaparecem.
- Nunca se sentiu tentado...
- Todos os dias.
- E nunca se aproximou?
- Ó não. E se fossem apenas uma miragem? 
- Compreendo-o, nunca devemos trocar o certo pelo incerto. 
- Já tenho anos suficientes para não trocar um belo engano pela crua realidade. Olho-as e isso basta à minha solidão.

sábado, 2 de dezembro de 2017

A espera

Elliott Erwitt - Musée de l'Orangerie, Paris, 1998

- Encosto-me ao silêncio frio da parede e espero. 
- Um museu é um belo sítio para esperar. Será que vem? 
- Outrora, estaria inquieta e jamais ficaria impassível. 
- Era tão impulsiva? 
- Se era, mas isso foi há muito. 
- E continua a esperar?
- Há que manter a disciplina.
- Mas, espera por...
- Por ninguém. Nunca falta. 

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Dilaceração

Paul Wolff, Audi cabriolet, 1939

Sentimo-nos sempre dilacerados. Também se sente assim, não é? Muitas vezes, confundimos o desejo com a realidade. Pensamos que o sentir-se dividido é um acidente, talvez uma patologia, e não a natureza dos homens. Isso, porém, é uma ilusão que nasce do desejo de aplacar uma dor. Pode crer no que lhe digo. Não fomos feitos para o sofrimento. Como é que a cisão nasce, é isso que quer saber? Vejamos o que lhe posso contar. Trago sempre em mim duas imagens. Uma fala-me do passado e transporta uma nostalgia que nunca se desvanece. A outra aponta para o futuro e nunca me deixa tranquilo. O resto é a carne a rasgar-se entre uma e outra. Por vezes, sangra.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

No seu lugar

 Norwegian Film Institute © - Liv Ullmann

Via-a assim e nunca quis sequer imaginar o que passava pela sua cabeça. A cabeça de uma mulher é um país estrangeiro. Se somos novos temos a ilusão de que é possível aprender a língua e penetrar naquela pátria. O tempo, porém, trata de matar as ilusões e mostrar que não é apenas o vocabulário que nos separa. A morfologia é inaudita e a sintaxe obedece a uma lógica que, sem remissão, desconhecemos. Se eu não a quis compreender? Não, conheci-a já bem maduro. Bastava-me olhar para ela. Tinha descoberto, há muito, que a felicidade é maior na incompreensão mútua. Ela olhava para além e eu observava-a em silêncio. E tudo estava no seu lugar.

domingo, 19 de novembro de 2017

A cadeira

André Kertész - Acapulco,1955

Vê aquela cadeira? Não está a ver? Parece uma sombra, mas é bem real, se é que alguma coisa há que o seja. Não, não se preocupe, não vou discutir metafísica consigo. Aliás, é assunto que não me interessa. Quer saber o que ela tem de tão especial? Mudei-me para aqui há 70 anos, já a cadeira ali estava, e até hoje nunca vi ninguém sentado nela, apesar de todos os dias uma pessoa, que foi mudando ao longo dos anos, a limpar e cuidar. Dizem, certamente por superstição, que é o lugar do morto. Parece, agora, interessado. Quer saber porque lhe falo disto? É simples. A cadeira está ali e é evidente que está à espera. E sempre que chega um forasteiro, pergunto-me se não é ele que ela, há tanto tempo, aguarda.

domingo, 3 de setembro de 2017

Uma degradação meticulosa

Leonard Misonne - Impressionistic photography (photogravure), 1942

As mulheres não se movem. Estão ali há muito, prendendo nas mãos os guarda-chuvas. Não só elas, mas tudo o que vê. Nem vento, nem chuva a cair, nem água a deslizar no caminho ou, sequer, nuvens a vaguear pelos céus. Tudo está, há muito, tomado por uma imobilidade e, contudo, o tempo passa e aquilo que ali está é arrastado por ele. Como? Não sei explicar o processo, mas pode observar o resultado. O que vê é já uma sombra, uma mera impressão daquilo que um dia foi nítido, tão nítido que parecia real. O movimento é uma ilusão, penso. O que acontece é que tudo, apesar de imóvel, viaja, através de uma degradação meticulosa, da nitidez para o vazio, para sucumbir na ausência. Só isso.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Exausta

Deborah Turbeville - Vera Arbuzova, Stroganov Palace, 1996

Exausta, deitei-me no chão. Não era capaz de dar mais um passo. Os quartos ficavam tão longe. Senti, por instantes, a dureza da madeira, mas adormeci. Se foi um sonho, não consigo dizê-lo. Sei apenas que me vi ali estirada, a respiração, a princípio irregular, serenou e adormeci. Pela primeira vez contemplei demoradamente o meu corpo sem que um espelho interviesse. A certa altura vejo-o multiplicar-se em incontáveis corpos. Reconheci-os, eram todos o meu corpo, desde o nascimento até agora. Afastavam-se de mim, condenando-me à solidão de ser apenas aquilo que sou em cada instante, para logo me ver partir para longe de mim mesma. Estou exausta.