quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Poemas do Viandante (316)

316. Palavras são armadilhas afáveis

palavras são armadilhas afáveis
deixadas no caminho do incauto viandante
tecem uma iluminação de sons
sobre a esquadria inóspita do mundo
e prometem tudo o que não podem cumprir
os lilases em tuas mãos
o lenço que te cai sobre os ombros

sobre o que não se pode falar
é preciso guardar silêncio
assim o disse o filósofo no século que passou
mas a sua visão estava doente
como uma rosa fanada pelo tempo
nada há sobre que possamos falar
mas tememos a hora vazia
e trocamos palavras para esquecer o medo
ou a angústia que vem pelo crepúsculo

cheguei a este instante da vida
e sei que não há o dizível nem o indizível
se quem me ama me dirige a palavra
diz na fala o indizível do seu amor
e tudo o que os homens apontam como indizível
só o é porque eles o disseram
por isso ao olhar o horto e o jardim
ou ao escutar os bandos de estorninhos
descobri que nada disso me interessa

 falo porque sou humano
e não sei latir ou ganir como um cão
para exprimir a dor ou o prazer
uso palavras para perfurar o silêncio
e riscar de carvão a brancura da parede
cada frase que construo é um jardim
pequenas violetas e arbustos sem nome
os velhos vasos de aspidistras secas pelo verão

falamos pois amamos as emboscadas
com palavras e uma gramática rude
construímos laços e anzóis
e pensamos que tudo isso é uma cidade
ruas e avenidas ou um porto e o cais
assim cresce o comércio sonoro
e institui-se um mercado secreto
a palavra que te dou pela palavra que recebo

passa assim a vida
e no fluxo das palavras esquecemos o rio
déspota feroz que corre sem parar
da nascente do passado para a sombria foz