quinta-feira, 31 de julho de 2014

A maior das quimeras

Max Ernst - Quimera (1925)

Não há gente mais dada a quimeras do que aquela que se diz realista e apenas interessada na materialidade do mundo. A abertura ao espírito - a vida contemplativa - tem por pressuposto o abandono de toda e qualquer ilusão, seja uma ilusão material, seja uma ilusão dita espiritual. Pois aquele que quiser salvar a sua vida - a maior das quimeras-, perdê-la-á.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Haikai do Viandante (198)

Francis Schanberger - Two Leaves (secret hiding place) (2013)

secreto lugar
onde o teu corpo me espera
na noite ao sonhar

terça-feira, 29 de julho de 2014

Do tempo e da eternidade

JCM - Do tempo e da eternidade (2007)

Água e árvores. A água, claro, é um símbolo da temporalidade, do fluxo do tempo. As árvores, não sendo eternas, podem sem dificuldade simbolizar a eternidade. Se nos deixarmos guiar por esta simbólica talvez possamos penetrar um pouco no mistério da criação daquilo que é temporal. Como as árvores precisam de água para se alimentar, também aquilo que é eterno mergulha as suas raízes no fluxo temporal, alimentando-se do sentido que assim faz nascer.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Do ocaso e da aurora

Jaime Burguillos - Ocaso (1976)

Quando desce a noite, descobrimos a verdade do dia. No ocaso encerra-se a luz. Cercada pela noite, porém, a luz não se desvanece. Respira lentamente e prepara, nas trevas mais densas, o raiar de uma outra e mais decisiva aurora. A viagem continua.

domingo, 27 de julho de 2014

À volta de um ponto

Frantisek Kupka - Alrededor de un punto (1911-12)

Por vezes, o viandante volteia uma e outra e outra vez em torno de um ponto. Sinal de que está perdido? De certa maneira, sim. Fundamentalmente, porém, sinal de que, tomado pela errância, procura já o caminho que o leva ao que chama por ele.

sábado, 26 de julho de 2014

A natureza como palavra

Joseph K. Dixon - A Native American sends smoke signals in Montane (1909) [National Geographic Found]

O homem pode utilizar os elementos da natureza como signos e símbolos, porque toda a natureza é já - no todo e nas partes - signo e símbolo. Através dela, aquilo que está para além da natureza comunica connosco. Saibamos nós ver e escutar O que nela se manifesta e se torna palavra.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Poemas do Viandante (466)

JCM - Entrada (2014)

466. quero-te ver nesta porta

quero-te ver nesta porta
à luz que se esvai

aguardo-te no segredo
que de ti descai

desejo-te nessa hora
vem e logo vai

quinta-feira, 24 de julho de 2014

A sombra sobre a palavra

Rembrandt - Parábola do homem rico (1627)

Por que lhe falas em parábolas? (...) Por isso lhes falo por parábolas; porque eles, vendo, não vêem; e, ouvindo, não ouvem nem compreendem. (Mateus, 13:10 e 13)

A parábola e a alegoria são formas indirectas de tornar acessível um certo conteúdo discursivo excessivamente luminoso. E o som e a luz são de tal modo fortes que os olhos e os ouvidos dos homens não os suportam. Falar por parábolas - ou através de alegorias - é projectar uma certa sombra sobre a palavra. Não para que ela se oculte, mas para que se revele segundo a possibilidade de escuta daqueles que por ela são atingidos.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Um traço de luz

JCM - Origem da Vida (2014)

Um traço de luz irrompe nas trevas e, lentamente, dissemina-se na planície da noite. Onde tudo parece ausência, lentos grãos de vida brotam da escuridão. Sementes carregadas de esperança anunciam a via, a verdade e a vida.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Haikai do Viandante (197)

JCM - Caminhos (2014)

sendas de verão
rasgam a pele da terra
abrem-se na mão

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Perder-se no infinito

Lennart Olson - Cangas de Onis III (1991)

Onde vão dar os caminhos que levam a lado nenhum? Esse nenhures é, em primeiro lugar, o sinal da finitude do viandante. Seja qual for o sítio onde se encontre ou para onde se dirija, devido à sua finitude, o viandante está ou estará em lado nenhum. Esta é, porém, uma visão nascida da fragilidade de um ser finito. Nenhures é, na verdade, o signo do infinito, daquilo que não tem fim. Toda a viagem tem como finalidade que o ser finito se perca no não finito, no infinito que, sem limites, o aguarda.

domingo, 20 de julho de 2014

Na imensidão do mar

JCM - Devaneio (2014)

Como um barco solitário na imensidão do mar, também o viandante se dirige a um porto. Quem olha de longe julga que ele vai imerso num devaneio desmedido, mas ele sabe que aquela é a realidade. A mais autêntica realidade, pois é a sua, aquela a que apenas ele pode, na imensidão da vida, aceder. 

sábado, 19 de julho de 2014

Poemas do Viandante (465)

Susan Burnstine - Transit

465. espero-te neste lado

espero-te neste lado
da velha fronteira

vem sem medo nem cuidado
na noite primeira

para que o sol incendiado
te faça fogueira

sexta-feira, 18 de julho de 2014

A frágil bondade

Etienne Cabran - Almost fragile

A viagem espiritual não é um exercício em que o prazer, a liberdade ou  mesmo salvação do viandante sejam o motivo e a finalidade do pôr-se a caminho. O que está sempre em jogo é a protecção daquilo que é frágil, a começar, para usar um título feliz de Martha Nussbaum, a fragilidade da bondade. Não há, no mundo dos homens, nada mais frágil do que a bondade. Risível, vilipendiada, desprezada, abandonada, a bondade, aquilo que tem origem no supremo Bem, chama cada homem a protegê-la na sua fragilidade.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Puras silhuetas

Man Ray - Silhouette of Lee Miller, Paris (1930)

Entre as trevas que se temem e a luz que não se suporta, repousamos na sombra como quem encontra o compromisso certo que permite a continuação da vida. E tudo o que somos, pensamos, fazemos e sofremos vem marcado por esta condição sombria, por esta mistura que nos torna em puras silhuetas.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

O imperativo musical

Ferdinand Schmutzer - Vienna (1901)

Escondestes estas verdades aos sábios e inteligentes e as revelaste aos pequeninos. (Mateus, 11:27)

O que solicita a música ao espírito do homem? Que ele diminua, que se torne pequenino. Que o homem se torne pobre em espírito! Eis o imperativo musical. A música, como se fosse a emanação de um outro mundo, não se dirige à razão, mas ao que está acima dela e quer tornar-se o próprio do homem, a sua propriedade, a sua natureza.

terça-feira, 15 de julho de 2014

Haikai do Viandante (196)

 

no escuro ramal
nas velhas folhas sombrias
a luz é sinal

segunda-feira, 14 de julho de 2014

A via do sonho

W. Eugene Smith - Street of Dreams. Pittsburgh, Pennsylvania (1955)

Pensa-se muitas vezes a vida do espírito como destituída de ligação ao real. Não seria mais do que um longo devaneio pela rua dos sonhos, um exercício onírico de fuga ao trágico da existência ou uma incapacidade de afirmação da vontade de poder. A verdade, porém, é que a vida do espírito nasce da atenção ao trágico da existência e do abandono de todos os sonhos que a  vontade de poder faz nascer no homem. O caminho espiritual nasce onde o delírio onírico acaba.

domingo, 13 de julho de 2014

Poemas do Viandante (464)

Serge de Sazo - Paris (1960)

464. eis as trevas que me assombram

eis as trevas que me assombram
no meio da cidade

entre elas fantasmas dançam
sem luz nem idade

velhas imagens que cantam
ao som da verdade

sábado, 12 de julho de 2014

Razão de ser

Fred Stein - Fountain, Paris (1935)

O olhar fascinado por uma fonte, pelo fluxo de água vinda não se sabe de onde, é o sinal de que um mistério toca, naquele momento, o espírito dos homens. Não é apenas a simbolização do nascimento que nos espanta devido ao segredo que habita todas as origens. É porque ali, na imagem de uma fonte, se encontra aquilo que nos motiva, como se o voltar sempre e sempre à origem fosse a nossa razão de ser.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Na solidão da paisagem


Na paisagem escarpada, no território acidentado, encontra o viandante o difícil caminho que o espera. Por vezes, chama-o a luz; outras, é o segredo da terra que o aguarda. Entre a luz e as trevas, terá de abrir a via, aquela que apenas ele, na solidão da paisagem, poderá trilhar.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Poemas do Viandante (463)

Jean Dieuzaide - Lisbon (1954)

463. mistério de sombra e cal

mistério de sombra e cal
que a tudo povoa

mar e água restos de sal
neste sol que voa

símbolo signo sinal
a luz de lisboa

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Espelho de água

Imogen Cunningham - Eiko’s Hands (1971)

Na água pura reflecte-se, como num espelho, a leveza das mãos, o ócio que nelas nasce e o trabalho que delas se espera. Nesse espelho de água inscreve-se o caminho que aguarda o viandante, um caminho secreto e transparente, fluido e sólido. Assim se apresenta o espírito quando chama o homem.

terça-feira, 8 de julho de 2014

Da natureza da esperança

Bill Perlmutter - Nazaré, Portugal (1956)

Há sempre esse momento de espera, uma suspensão para que os olhos se abram para a desmedida do horizonte e tracem novas rotas ou encontrem aquilo que, tão esperançosamente, aguardam. A esperança não é outras coisa senão o olhar que se projecta para o caminho que nos solicita ou para aquilo que nos aguarda.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Haikai do Viandante (195)


uma luz na tarde
rasga a cal do horizonte
um portal que se abre

domingo, 6 de julho de 2014

A pele rugosa



Se a pele se torna rugosa, então sabemos que o ambiente é adverso. Se o viandante, porém, confunde uma reacção de defesa com a sua própria realidade, não é apenas o ambiente que se lhe tornou estranho. Também ele se alienou de si mesmo, perdeu a elasticidade, e perdeu-se a si no caminho. A rugosidade da pele não é o símbolo de uma demarcação, mas o sinal de uma aventura e o lugar onde o eu e o outro se encontram.

sábado, 5 de julho de 2014

Naturezas mortas

Horst P. Horst - Classical Still Life - circle, disk, bust (1937)

Nunca pensamos suficientemente o sentido da expressão natureza morta. Não se trata apenas da representação de objectos inanimados. Neles capta-se, neste nosso mundo tão dado à acção, ao movimento e à mobilização, um repouso essencial. É como se as naturezas mortas fossem um sinal que nos dissesse que, para além das aparências móveis tocadas pela inquietação, a realidade permanece imóvel, entregue à mais pura quietude contemplativa.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

O caminho da montanha

Eric Vali - Himalaias

Ide aprender o que significa: Prefiro a misericórdia ao sacrifício. Porque eu não vim chamar os justos, mas os pecadores. (Mateus, 9:13)

O caminho da montanha. Não será o sacrifício o caminho para o cume? Não será ele que permite ao homem viver na montanha, na atmosfera mais rarefeita e opressiva? A resposta que Mateus transmite é, surpreendentemente, ambígua. Apresenta-se, numa leitura imediata, como disjuntiva. Não o sacrifício, mas a misericórdia. Essa ambiguidade é ainda intensificada pela ideia de que os chamadas são os pecadores, os errantes, os perdidos no caminho, e não os justos. Estas duas disjunções são, contudo, aparentes. A misericórdia não anula o sacrifício, mas amplia-o. Ele está presente no acto de compaixão. A misericórdia é a partilha activa de uma paixão, de um sofrimento que atinge o outro. O que está em jogo não é a aniquilação do sacrifício, mas do ritualismo sacrificial, e a sua substituição pelo sacro ofício da partilha. E esse outro é o homem comum, perdido, errante, aquele que falha o alvo. Mas, pela misericórdia, pela compaixão, o justo descobre-se na sua realidade de homem também ele perdido no caminho. Juntamente com o outro, ele pode então escutar o chamamento. Nem a misericórdia se opõe ao sacrifício, nem o justo é diferente do pecador.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Passagem para o infinito

Jacqueline Mirsadeghi - Passages vers l’infini

Haverá uma passagem para o infinito? A resposta terá de ser sempre ambígua, um sim e um não. Sim, porque qualquer ponto pode funcionar como passagem para o infinito. Não, porque o infinito está já presente em qualquer ponto. A finitude não é outra coisa senão a manifestação do infinito perante os olhos de seres finitos que transportam em si o infinito.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Da vida do espírito

Ralph Gibson - Untitled, (from The Somnambulist) (1970)

Em todos os símbolos há uma ambiguidade essencial, como se o símbolo possuísse uma carga semântica tal que simbolizasse, ao mesmo tempo, coisas contrárias. A porta é um dos símbolos mais ricos do imaginário dos homens. Nela existe também essa carga simbólica contraditória. É o símbolo da saída e também o da entrada. A razão analítica apresenta entrada e saída como contrárias, mas a experiência imemorial dos homens diz-lhes que toda a saída é uma entrada e toda a entrada implica uma saída. Ora a viagem do homem é o contínuo deslocar-se nessas encruzilhadas de entradas e de saídas, como se a viagem do espírito fosse infinita. Nunca se entra num patamar que não seja para dele sair. Nunca se sai de outro patamar que não seja para entrar no próximo.

terça-feira, 1 de julho de 2014

Poemas do Viandante (462)

Cecil Beaton - Three models dressed in Ladurée macaron colours (1948)

462. como tocar-te agora

como tocar-te agora
que o vento sopra

como deixar-me levar
no rumor da noite

como atear o fogo
no cansado peito

basta que o teu olhar chegue
e a sua luz me açoite