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terça-feira, 23 de agosto de 2016

Criar contrastes

Doménec Pascual Badía - Contraste (1970)

Contrastar é uma das acções fundamentais da vida do espírito. Criar um contraste é tornar claro a diferença, retirar algo da névoa da indiferença. Criar, através do acto de contrastar, oposições não é criar conflitos, mas determinar os opostos que, ao diferenciarem-se, se harmonizam. Na vida do espírito, a harmonia nasce da oposição, do contraste, da diferença.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

A leve alteração

Joan Hernández Pijoan - Cinco espaços dourados (1976)

As lentas e imperceptíveis metamorfoses do espaço exigem um espírito aberto para a diferença. O que significa isto? Significa que a vida espiritual não é uma abstracção mas um exercício contínuo de abertura e atenção ao diferente. Não apenas à diferença ostensiva que nos fere o olhar, mas também à leve gradação que simboliza a liberdade do espírito. O divino não se manifesta só na radical alteridade. Também na leve alteração habitam os deuses.

domingo, 19 de janeiro de 2014

Do caminho rochoso

David Teniers the Younger - Landscape with Rocks

Se o deserto é o lugar da tentação, as paisagens rochosas convocam o viandante à elevação, à ultrapassagem. O monotonia da identidade - essa aparência de imutabilidade que o deserto faz nascer - tenta aquele que por ali se perde. O mundo rochoso e escarpado desafia o caminhante a cada instante, propõe-lhe novos e novos enigmas, esmaga-o com a inúmera diferenciação de tudo o que existe. Cada diferença na paisagem é uma provação. Caminhar é, então, vencer cada uma das diferenças que a paisagem traz e elevar-se ao lugar onde as pode contemplar na sua invencível diferenciação.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Analogias e diferenças

José Viera - Analogia (2001)

As analogias fascinam-nos pois captamos com elas as afinidades electivas entre duas realidades diferentes. As semelhanças têm um forte poder de atracção e de subjugação do espírito pela sua luminosidade. Isso é de tal maneira assim que a própria poesia, devido à sua natureza metafórica, acaba por eleger a analogia como a sua própria essência. Ora toda a analogia - e com ela toda a metáfora - está assente na ocultação da diferença, embora seja esta diferença - e não, como se pensa, as semelhanças - que sustenta, enquanto negativo fotográfico (uma metáfora quase incompreensível nos dias de hoje) o pensamento analógico e o exercício poético. O que teme o espírito para que seja tão propenso a indiferenciar o diferente através do jogo das analogias e das metáforas? Por que razão a alteridade radical nos assusta?

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Cegueira e sabedoria

Manuel Vega - Caravana de ciegos (1919)

Édipo não é sábio quando responde ao enigma da esfinge nem quando se torna rei de Tebas. A verdadeira sageza chega quando, perante a verdade do seu casamento com Jocasta, ele se cega. Também é no estado de cegueira que Paulo de Tarso acede à suprema sabedoria. Há toda uma tradição que assenta no paradoxo da necessidade de ser cego para poder ver. Como compreender isto? Vale a pena voltar ao livro A da Metafísica de Aristóteles, ao seu início: "Por natureza, todos os homens desejam saber. Um sinal disto está no prazer que têm nos seus sentidos; para além da sua utilidade, eles são amados por eles mesmos; e acima de qualquer outro o sentido da visão. Não apenas quando se visa a acção, mas mesmo quando não se está a fazer nada, preferimos a visão a todos os outros sentidos. A razão é porque a visão, mais que os outros, faz-nos saber e traz à luz muitas diferenças entre as coisas".

O prazer de ver, esse prazer enraizado na nossa natureza, vai muito para além da sua utilidade, permitindo ao homem uma determinada forma de saber. Ora o que o texto de Aristóteles nos diz é que esse saber tem uma natureza analítica, ele faz-nos ver as diferenças, permite introduzir cortes na realidade global. A particularização e especialização que o sentido da vista permite e fomenta acabam por tornar-se numa espécie de alienação e de enviesamento. Preso no prazer de ver, o homem entrega-se  ao divertimento da diferenciação, ao prazer da multiplicação de aspectos da realidade que, desse modo, são cindidos e tornados independentes.

Este saber visual torna-nos cego para a unidade da realidade, prende-nos na multiplicidade e nos jogos que essa multiplicidade permite. O saber natural, por prazer que vê, apenas permite um saber que não é sábio e não o é porque, seduzido que está pela capacidade de diferenciar, é incapaz de perceber a unidade de tudo, o sentido dessa unidade. Por isso, várias tradições sublinham a necessidade da cegueira para ver. Ver não o particular, mas o universal, o todo, aquilo que as diferenças escondem. O mundo é uma caravana de cegos, de cegos que o são porque dependem da visão e do prazer que ela permite. Tornar-se cego para ver é o caminho da sabedoria.