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domingo, 30 de julho de 2017

Um Cristo crucificado

Odilon Redon - Crucificação (1910)

Olhamos o quadro de Odilon Redon e, perante a data, perguntamos, perplexos, o que faz ele ali. Ali não se trata do Museu de Orsay onde se encontra, mas de 1910. Depois do Iluminismo, do positivismo e dos diversos materialismos, por que razão tornar a apresentar um Cristo crucificado? Se nos deixarmos instruir pela pintura, talvez seja possível compreender alguma coisa. O que vemos é a solidão e o abandono do Cristo. Elas são o negativo que permitiram construir o mundo que ainda é o nosso. Pensa-se muitas vezes que a grande vantagem que o Ocidente construiu se deve à ciência e à técnica. Isso, porém, não passa de uma aparência. A vantagem que nos permitiu inclusive chegar à ciência e à técnica funda-se toda ela nessa consciência difusa de que a solidão e o abandono experimentados pelo Cristo na cruz são a nossa verdadeira condição. Sobre este alicerce construímos o resto. Umas vezes para o bem, quando aceitámos a verdade do homem; outras para o mal, quando o medo foi mais forte do que a aceitação.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

O reconhecimento

Maurice Denis - Os peregrinos de Emaús (1895)

O episódio dos discípulos de Emaús (Lucas 24:13-34) onde se narra a aparição de Cristo ressuscitado a dois discípulos é marcado por dois momentos ligados ao reconhecimento. O primeiro é o da ausência do reconhecimento, a incapacidade demonstrada em atentar na identidade do outro que segue caminho com eles. O segundo momento é o do reconhecimento dessa identidade. Esse reconhecimento, porém, não se dá numa situação trivial, como a conversação doutrinal da viagem, a qual se mostrou incapaz de gerar o reconhecimento, mas no momento em que é mobilizado um símbolo, a fracção e bênção do pão. 

É o símbolo que desencadeia o processo de reconhecimento, o que torna manifesto que todo o reconhecimento do outro, de qualquer outro, implica a suspensão da trivialidade e a mobilização de uma dimensão simbólica onde esse outro ganha sentido e valor. O paradoxal no texto é que o reconhecimento conduziu, de imediato, ao desaparecimento de Cristo. Reconhecer o outro não significa, então, prendê-lo numa esfera significativa, circunscrevê-lo em conceitos. Isso significaria reduzi-lo à trivialidade que se liga à significação usada na vida quotidiana. O outro, seja o Cristo ou o homem comum, pertence a uma dimensão simbólica e só esta permite conjugar o reconhecimento desse outro com o mistério, nunca desvendável, que o constitui.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Uma incongruência

Luis Pintos Fonseca - Cristo

A aguarela do pintor pontevedrino Luis Pintos Fonseca (1906 - 1959) tem o poder de tornar patente a incongruência histórica do cristianismo. Como foi possível que Cristo crucificado, a simbolização da humilhação, do abandono, da irrelevância social, se tornasse, juntamente com a herança helénica, o núcleo dinamizador da mais poderosa civilização material e cultural que alguma vez se manifestou sobre este pobre planeta? Olhamos a aguarela e vemos na morte - e morte na cruz - a semente de um florescimento exuberante. Quando o discurso do mundo se centra no fausto e no poder, não deixa de ser incongruente e causar perplexidade que aquilo que o Ocidente é tenha a sua origem num Deus que veio para morrer.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Confronto entre a vida e a vida

Artur Bual - Pietá

O filho morto nos braços da Virgem - essa eterna cena que dá pelo nome de Pietá - deixa-se captar, na pintura de Artur Bual, em toda a complexidade que ela contém. Não se trata apenas da dor humana sentida pela mãe que perde o filho, mas da situação equívoca onde esse filho se encontra. Essa equivocidade é idêntica à da semente que, morta na terra, ressuscita com e para uma outra vida. Também na morte do Cristo, no acolhimento que os braços da mãe fazem do filho morto, se joga o terrível - pois inclui nele a morta, por simbólica que ela seja - confronto entre duas formas de vida. Na Pietá de Bual - no seu gestualismo figurativo - capta-se o momento onde, na morte, essas duas vidas se misturam, se confrontam e se separam.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Um mero grão de areia

JCM - My foolish world (2014)

Se se perguntar o que é a alienação, as respostas tenderão a dar uma visão social ou mesmo política do estar alienado. Esse tipo de alienação, por importante que seja, é já e só secundário relativamente a uma alienação mais funda e estruturante. Trata-se do estranhamento do homem relativamente à sua natureza, a alienação antropológica. Esse estranhamento nasce da convicção, socialmente induzida, de que o homem é qualquer coisa, de que ele é algo mais do que um mero grão de areia, perdido num deserto infinito. O cristianismo chamou a atenção para essa ilusão ao fazer nascer o Cristo, o filho de Deus, num lugar que era a marca da pobreza. O Filho do Homem afinal - e esse é o grande escândalo - não era mais que um mero grão de areia.

domingo, 24 de novembro de 2013

O escárnio do homem

Emil Hansen - O escárnio de Cristo

Na cena onde Cristo, no seu caminho para a cruz, é vítima de escárnio não encontramos apenas a referência a um acontecimento singular da história inaugural de uma certa religião. Encontramos simbolizada a atitude do homem comum por tudo o que é essencial na humanidade. A radicalidade do cristianismo tem esse estranho poder de suscitar, na vulgaridade que todos trazemos em nós, a necessidade de a defender e, por esse motivo, apoucar o fundamental, tentar torná-lo risível e, devido a essa risibilidade, entregá-lo à morte. O risível objecto de escárnio, que a cena crística simboliza, não é o ridículo das nossas pretensões, mas as nossas possibilidades mais autênticas, a verdade que se esconde no fundo do coração do homem.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Seguir o seu caminho

Camille Corot - Le Chemin de la gare à Ville-d`Avray (1874)

Mas, passando pelo meio deles, Jesus seguiu o seu caminho. (Lucas 4:30)

O versículo citado de Lucas traz o modelo de todo o autêntico viandante. O viandante - e todo o ser racional é convocado a sê-lo - não é aquele que permanece entre os seus concidadãos, embora não os evite. O viandante passa pelo meio deles, entre as suas querelas e os seus limites ideológicos, e segue um caminho que é especificamente seu. Se o Cristo - segundo a tradição do cristianismo - se constituiu no modelo a ser seguido pelos homens, isso não significa que todos os homens devam praticar os mesmos actos narrados nos textos neotestamentários. Significa que, como Ele e à sua imagem, devem seguir o caminho que é seu e apenas seu, que lhes compete pela sua natureza, e não qualquer outro. 

terça-feira, 14 de maio de 2013

Orfismo e cristianismo

Alexandre Séon - Lamento de Orfeu (1896)

Os limites espirituais do politeísmo grego expressam-se plenamente no mito de Orfeu. Diz a lenda que tendo perdido Eurídice, a amada levada pela morte, Orfeu desce aos infernos para a resgatar para a vida. Consegue convencer os deuses infernais a libertarem a amada. Estes, porém, impõe-lhe uma condição. Que nunca olhe para ela enquanto durar a travessia do reino dos mortos. Orfeu, todavia, não consegue resistir à necessidade de certificação ou ao desejo e acaba por perder Eurídice. 

O orfismo reflecte a impotência perante a morte, a incapacidade do homem resgatar a alma (Eurídice) do túmulo (o corpo ou o reino dos mortos). De certa forma é a isto, ao mistério que aqui se representa, que o cristianismo veio responder. Também Cristo desce ao reino dos mortos, não como corpo que procura no fundo de si a sua alma, mas como aquele que morreu e que na morte, na morte do homem velho, encontrou uma nova vida, melhor: encontrou a vida. Orfismo e cristianismo respondem ao mesmo problema, mas a vitória do cristianismo está toda ela contida no destino diferente que tiverem Orfeu e Cristo na sua descida ao reino dos mortos.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Na margem do discurso

Guillermo Pérez Villalta - O discurso da verdade (1978)

Naquele tempo, aglomerava-se uma grande multidão à volta de Jesus e Ele começou a dizer: «Esta geração é uma geração perversa; pede um sinal, mas não lhe será dado sinal algum, a não ser o de Jonas. Pois, assim como Jonas foi um sinal para os ninivitas, assim o será também o Filho do Homem para esta geração. A rainha do Sul há-de levantar-se, na altura do juízo, contra os homens desta geração e há-de condená-los, porque veio dos confins da terra para ouvir a sabedoria de Salomão; ora, aqui está quem é maior do que Salomão! Os ninivitas hão-de levantar-se, na altura do juízo, contra esta geração e hão-de condená-la, porque fizeram penitência ao ouvir a pregação de Jonas; ora, aqui está quem é maior do que Jonas.» (Lucas 11,29-32) [Comentário de Rafael Arnaiz Baron aqui]

O que haverá de reprovável em pedir um sinal? Não é natural que os homens peçam sinais como forma de provar uma pretensão ou confirmar uma alegação? Não será antes reprovável aceitar a palavra do outro apenas fundada no princípio de autoridade que esse outro se arroga, mas que é contestada pela multidão? Talvez fosse estranho já esse pretensão para os homens daqueles dias, mas para nós, homens educados nos princípios do Iluminismo, nada há de mais estranho que a pretensão de Cristo.

O texto dá duas pistas para resolver a questão. Salomão, o rei, foi reconhecido pela Rainha do Sul. Jonas, o profeta, foi reconhecido pelos habitantes de Nínive. Mas Aquele que se apresenta agora – e este agora é um eterno agora – não é reconhecido por ninguém, apesar da sua dignidade real ser maior que a de Salomão, apesar do seu dom de profecia ser maior que o de Jonas. A ausência de reconhecimento significa, neste contexto, que os que pedem um sinal quebraram um laço fundamental, esqueceram alguma coisa que deveriam reconhecer em cada hora. Tornaram-se estranhos, alienaram-se da sua própria natureza, perderam o contacto com a realidade.

O não reconhecimento do Outro é o arquétipo de todos os não reconhecimentos, o do não reconhecimento do próximo e o do não reconhecimento de si mesmo. Não há, porém, a recusa de um sinal, mas a proposição do mais surpreendente dos sinais, o sinal de Jonas, metáfora anunciadora da morte e ressurreição de Cristo, o novo sinal deixado aos que pedem sinais. O carácter surpreendente do sinal reside na sua inverosimilhança. Não é verosímil que aquele que foi engolido por uma baleia seja por ela cuspido com vida, não é verosímil que Aquele que vai morrer na cruz triunfe sobre o sepulcro.

Sobre a inverosimilhança deste sinal foi construída uma religião e edificada uma comunidade de fé que transporta o sinal de geração em geração. Mas o que contém esse sinal? O que sinaliza ele? Claramente, ele sinaliza a perversidade das gerações, a sua incapacidade de reconhecimento, a sua alienação, mas sinaliza a possibilidade de desalienação, a restauração da via do reconhecimento. O sinal, pela sua natureza paradoxal, faz lembrar um koan da tradição do Budismo Zen. Um sinal que ultrapassa a razão e que convoca o homem para a margem do discurso, muito para lá daquilo que as palavras podem dizer, como se o sinal fosse uma convocação ao viver, o que ultrapassaria infinitamente a dimensão cognitiva presente naqueles que exigem sinais.

quinta-feira, 29 de março de 2012

De Abraão a Jesus - uma viagem

Caravaggio - Il Sacrificio di Isacco

Jesus respondeu-lhes: «Em verdade, em verdade vos digo: antes que Abraão fosse, Eu sou!» (Jo 8, 58)

Podemos começar a hermenêutica deste versículo do Evangelho de João sublinhando a natureza intercomunicacional que o sustenta. Jesus fala com outros homens, judeus no caso. O facto de serem judeus apenas é relevante devido à presença da figura de Abraão, o pai dos judeus. Todavia, os judeus são uma espécie de sinédoque da humanidade, na qual se toma a parte pelo todo. Jesus fala a todos os homens. Como se pode sustentar tal ponto de vista? A partir do próprio versículo. Se desviarmos o olhar do destinatário, os judeus, para o lugar de onde Jesus fala, tudo se torna mais claro. De onde fala, então Jesus, qual o topos de onde profere o seu discurso? Fala na e a partir da verdade (Em verdade, em verdade vos digo). O discurso é feito a partir do universal, de um universal que se dirige a alguns particulares, os judeus do Templo, mas que, nesse processo de particularização no espaço e no tempo, não deixa de ser universal. Por isso, ele dirige-se a todos os seres humanos.

Poder-se-á objectar que Abraão não é o pai de todos os povos, mas apenas dos judeus, por via de Isaac, e dos descendentes do seu filho bastardo, Ismael. O discurso de Jesus seria apenas um discurso particular, um assunto privado dos povos semitas. Mas se considerarmos Abraão como uma sinédoque que refere uma parte, neste caso constituída apenas por um exemplar, do todo composto pelos múltiplos fundadores - pais - de povos, a objecção perde sentido. Jesus fala a partir da universalidade da verdade para a universalidade da espécie humana. O seu discurso não é étnico mas universal. 

E o que diz este discurso? Contrapõe o presente a um pretérito. Jesus, que na historicidade da vida do povo onde nasceu veio depois de Abraão, é anterior ao próprio Abraão, o que significa que é anterior a todos os povos, à própria espécie humana. Mas o discurso, o logos, de Jesus é mais complexo. Ele diz-nos não só que é anterior a Abraão, mas que é ao mesmo tempo anterior, posterior e contemporâneo de Abraão, isto é, de cada um de nós. O "Eu sou" de Jesus não se refere a uma ekstase temporal, ao presente, mas a um presente absoluto, a uma presença que está para além das ekstases temporais do passado, presente e futuro. 

O texto de João é a convocação de todos os seres humanos para a viagem, aquela que vai do tempo para fora do tempo, que vai de Abraão para Cristo, que vai da situação aqui e agora para o não-lugar e não-tempo da presença absoluta do Eu sou. Esta viagem tem uma natureza universal e, ao mesmo tempo, particular. Universal porque o fim da viagem é o "Eu sou" crístico; particular, porque cada um, à luz de Abraão, parte da sua situação histórica. Uma viagem da história para fora dela.

sábado, 3 de maio de 2008

O mistério da encarnação

A descida de Deus, do absoluto, na relatividade da carne e do tempo. Como poderia o olhar humano relativo e preso ao relativo perscrutar o fundo abissal do absoluto? Como poderia o corpo humano pressentir o eterno se tudo nele é temporal e passageiro? Mas a vinda do Cristo não é apenas a revelação do absoluto, do eterno e do divino ao homem. Ela é ainda uma outra coisa incompreensível e escandalosa tanto para a minha razão como para a minha sensibilidade: o tempo ainda participa da eternidade e a carne, aquela de que digo: isto é o meu corpo, é na sua corrupção tocada pela incorruptibilidade. Cristo é a proclamação de que há mais no tempo e na carne do que o mero passar e a funesta aniquilação: neles também habita o eterno, o absoluto e o divino.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Oração da manhã

Dizia o velho Hegel que a leitura dos matutinos é a oração da manhã do homem moderno. Dois séculos passaram sobre o dito e à imprensa veio juntar-se um sem fim de meios de comunicação. Mas a que Deus ora o homem moderno? Quando me levanto e abro a Internet e percorro os jornais e blogues o que descubro? Sim, pode-se sempre cultuar o espírito do tempo, mas não é bem ele que aparece em tudo o que é, para o homem moderno, motivo de oração matinal. O que aparece é a espuma. Não é a espuma, porém, uma forma de ocultação da água? O que se esconderá nessa espuma? A que deus oraremos nós homens ainda modernos? Não valerá mais voltar à ingenuidade do homem tradicional e invocar o Deus bíblico? Talvez já não nos seja consentida tanta ingenuidade e não tenhamos outros remédio do que o politeísmo que a comunicação nos traz de manhã, à tarde e à noite. Mas se Cristo aqui estivesse como e a quem oraria ele pela manhã? Mas não é Ele que cada um de nós é?