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quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Indícios

Aaron Siskind - Gloucester, 1944

A ciência trabalha não com certezas mas com corroborações robustas dadas pela experiência. O espírito, porém, não tem apenas uma dimensão científica. Fora dela, ele trabalha por indícios. Um indício não nos diz nada sobre a verdade do que quer que seja. Indica um caminho, sugere uma palavra, aponta um silêncio.

domingo, 10 de agosto de 2014

Da necessidade de mitologias

JCM - Mitologias (animais totémicos)  (2014)

A vida dos homens é uma longa colecção de mitologias, um exercício contínuo de mitificações, uma produção ininterrupta de mitos. Com a experiência trazida pela modernidade e pelo iluminismo sabemos que entre o mitificar e o mistificar o passo é curto, demasiado curto. Assim informados, por que razão insistimos no trabalho do mito? Não seria mais curial entregar tudo à guarda da ciência empírica? Isso seria verdade se não pressentíssemos que uma outra verdade exige um outro acesso. A nossa disposição para as mitologias reflecte não o amor dos homens às ilusões e às quimeras, mas o seu fundo compromisso com a verdade, com uma outra verdade que escapa à ciência e nos chama de longe.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Uma nova inocência

Luc Tuymans - Disenchantment (1990)

O triunfo da ciência moderna e da razão instrumental trouxeram o fim do mundo encantado em que o homem vivera até então. Com esse fim, nasceu a nostalgia do encantamento, o desejo de reencontrar essa unidade perdida entre a natureza e a sobrenaturalidade. Esse passado não é apenas um estranho país. É uma pátria para sempre interdita. O retorno a essa inocência - uma inocência culpada pelo que havia nela de desconhecimento - está-nos vedado. A perda dessa inocência, porém, abriu o caminho para uma nova inocência, aquela que nasce do conhecimento e da dissolução da culpa.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Elemento ar

Gustavo Torner - Átomos - Os Quatro Elementos - Ar (1986)

Descobre-se no sopro, canta no vento, viaja incógnito sobre terra e água. Tão subtil que parece o símbolo da ciência, a promessa de um voo, o desígnio de um profeta que, tomado pela vertigem, anuncia um mundo de fogo e desolação.

domingo, 22 de dezembro de 2013

O Magnum Mysterium

Tomás Luis de Victoria - O Magnum Mysterium (The Cambridge Singers)

Poder-se-ia pensar que o mistério maior seria o da Virgem trazer no seio e dar à luz o filho de Deus. Isso, contudo, seria ficar pelo sentido literal das narrativas. Mas as narrativas apenas simbolizam o mistério decisivo da existência do mundo e de nele haver seres dotados de razão. Para nós, que somos filhos de uma educação iluminista e racionalista, na qual a ciência joga o papel central, nada é mais estranho do que falar de mistério. A ciência enfrenta e resolve quebra-cabeças (puzzles), o mistério é-lhe estranho. Mas talvez tudo o que é decisivo para o destino de cada um seja do domínio do mistério e não do quebra-cabeças racional. Dito de forma dogmática: tudo o que é decisivo na vida do homem é um magnum mysterium, e é isso que está em jogo nestes dias de Natal.

domingo, 15 de setembro de 2013

O cavaleiro místico

Odilon Redon - Le Chevalier Mystique (c. 1892)

Toda a viagem é um desejo de participação no mistério. Não no mistério entendido como problema. Esse, a ciência coloca-o e, com a ajuda da razão e da experiência, resolve-o. Nenhum problema científico é um verdadeiro mistério, pois não passa de uma construção da razão, a que a razão, tarde ou cedo, responderá. O verdadeiro mistério afronta a razão, impõe-se-lhe, arrasta-a para uma negra noite. O viandante que sente o apelo do mistério não espera resolvê-lo, nem encontrar-lhe uma solução, o esboço de uma resposta. Cavalga na vida seguindo o eco misterioso. Não espera o triunfo da luz sobre as trevas. Não espera. segue apenas o seu destino. É o cavaleiro místico.