domingo, 31 de julho de 2022

O Espírito da Terra (18)

Otto Scharf, Memento Mori, 1902
Também a morte faz parte do jogo sem fim em que se manifesta o espírito da Terra. Recordar-se como mortal é abrir uma das portas que levam à compreensão desse espírito, à solenidade com que ele cobre  de bênçãos tudo o que é finito.

sexta-feira, 29 de julho de 2022

O sal do silêncio (87)

 P. Dittrich, Sphinx et Pyramide, 1880s

A esfinge olha o horizonte. Vê o desfiar dos dias, dos anos, dos séculos. Da sua boca, nem uma palavra se solta. Não é o seu destino, pensa, comentar os eventos que se sucedem sem parar. Há muito que descobriu no silêncio o sal de uma vida. 

quarta-feira, 27 de julho de 2022

Arqueologias do espírito 28

Benvenuto Benvenuti, Cipresse e colombe, 1914

Terá sido decisivo o encontro que colocou os seres humanos perante os ciprestes. Mais que outras árvores, em que a linha que une a terra ao céu se dispersa em ramagens perdidas no caminho, nos ciprestes tudo se conjuga para que o olhar não se afaste do alvo que deve desejar. Não admira que, em certos lugares, o cipreste se tenha tornado árvore de cemitério. Não porque haja nela alguma coisa de fúnebre, mas porque simboliza esse velho desejo humano de elevação muito para lá do território que o corpo, por lhe pertencer, não poderá deixar. Ciprestes são símbolos que indicam o caminho. 

segunda-feira, 25 de julho de 2022

Haikai do Viandante (427)

Emil Pröschel, Birken im Schnee,1908

Memórias de neve
no silêncio da montanha.
Fulgores de Inverno.
 

sábado, 23 de julho de 2022

Crónicas (220) Um comboio

Toni Schneiders, Train in landscape, 1950s
Não há memória de ali ter havido uma linha de caminho de ferro. Os poucos habitantes daqueles lugares ermos não sabem o que são carris ou comboios. O mais extraordinário era o maquinista. Na verdade, uma mulher sem idade, cujo rosto não era possível reter. Olhava-se para ele e logo o esquecíamos. Quando o comboio, uma composição movida a vapor, parou num lugar onde não havia qualquer estação, entrou um casal, ambos com uma idade muito avançada. Também eles se vão embora, ouviu-se. Ao som de um apito, a máquina pôs-se em movimento, arrastando carruagens velhas e sombrias. Enquanto se afastava tudo o que ficava para trás se apagava. Ao fim de alguns instantes, não havia vestígio de ter havido carris por onde um comboio pudesse passar. 

quinta-feira, 21 de julho de 2022

Impressões 101. A obra

Thomas Hoepker, Inside the Antelope Canyon, 1995

O turbilhão do tempo rodopia por dentro da rocha porosa. Abre, com a lentidão dos milénios, pequenos sulcos, esculpe e cinzela a obra, até que esta, trespassada pela luz, se abre ao olhar extasiado de quem, por engano, ali deixa correr os seus passos.

terça-feira, 19 de julho de 2022

Biografias 30. O maestro

Ernst Haas, Herbert Von Karajan, Salzburg, 1978

Um dia, ainda muito pequeno, tomou a estranha decisão de se alimentar de música, numa dieta que corria paralela à da alimentação do corpo. Começou, talvez sob a influência parental, por ouvi-la, fazendo grandes esforços para a reter, lutando com denodo para que essa música não fosse evacuada com o correr dos dias. Percorreu as múltiplas estações necessárias para que pudesse enfrentar uma orquestra e retirar dela o mundo sonoro que tinha dentro de si. Chegada a hora, sempre que voltava as costas ao público e olhava os músicos nos olhos, deixava que das suas mãos se evolasse esses mundos sonoros que o alimentaram durante anos e, por contágio, tomassem o coração da orquestra e saíssem, como arcanjos puros, por cada um dos instrumentos que pairavam diante dos seus olhos fechados.

domingo, 17 de julho de 2022

Câmara discreta (13)

Felix Muhr, Weiblicher Akt, 1907

Ensimesmada, a mulher funde-se na secreta natureza que, vinda do fundo dos tempos e do início do cosmos, chega até ela, para a acolher em seus braços, sob a forma de floresta. Sombras, árvores, folhas mortas e folhas vivas, são modos de a natureza se despir para acolher a nudez silenciosa daquela que, para se dar ao olhar, se esqueceu de si, cobrindo-se com o rumor do vento e o canto dos pássaros.

sexta-feira, 15 de julho de 2022

O Espírito da Terra (17)

W. Rothermundt, Eckbauer bei Garmisch in Oberbayern, 1900

No agreste da montanha, a terra fala no silêncio com que acolhe a luz do dia e o céu estrelado da noite. Quando o vento assobia, se se encoleriza por algum desejo frustrado, a terra escuta-o, como se escutasse a voz de um deus perdido na floresta da solidão.

quarta-feira, 13 de julho de 2022

O sal do silêncio (86)

Brett Weston, Forty-Seventh Street, New York, 1947
Há um silêncio que nasce da desmesura dos espaços, dessa arquitectura que brota de um velho rancor contra a humanidade. Ali, a vida perde todo o sal e reduz-se a ser apenas vida nua, na brutalidade que se esconde em toda a nudez de uma existência sem sabor.

segunda-feira, 11 de julho de 2022

Impressões 100. Regresso

R. Köhnen, Heimkehr, 1908

Nas águas, reflecte-se, como sombra impressa no tecido dos dias, os desejos mais secretos de quem partiu e agora chega ao porto, onde, em terra firme, se abrigará da inconstância das águas. De súbito, fecha os olhos e sonha a hora em que não haverá partida nem chegada, pois encontrou a morada que desde sempre lhe fora destinada.

sábado, 9 de julho de 2022

Câmara discreta (12)

Peter Turnley, L'Ile de la Cité, Paris, 1982

Dois destinos cruzam-se, mas nem as suas sombras se tocam. Cada um segue ensimesmado, perdido do outro, levado pelo desejo de chegar ao lado de lá, sem reparar que ali mesmo poderia encontrar um grande amor, o sentido último das suas vidas. Discreta, a câmara mostra esse momento em que esse futuro possível se fecha definitivamente. Quem ali passa nunca mais se tornará a cruzar. A vida não é outra coisa senão a ignorância daquilo que esteve mesmo à mão e se perdeu.

quinta-feira, 7 de julho de 2022

Haikai do Viandante (426)

Heinrich von Seggern, Heidelandschaft, 1908

O rebanho passa
no silêncio da charneca.
Um cordeiro bale.

terça-feira, 5 de julho de 2022

O Espírito da Terra (16)

 Lee Miller, Oasis village (Egypt), 1936
Se pensarmos no sistema solar a que pertencemos, a Terra é um pequeno oásis na imensidão desértica. Se olharmos para a própria Terra, também esta é um jogo entre o deserto e o oásis. Este é a diferença específica que distingue o planeta onde vive o homem de muitos outros que habitam os espaços celestes. E aquilo que distingue é a marca do espírito, desse espírito da Terra que vê em cada oásis um vestígio do paraíso.

domingo, 3 de julho de 2022

Meditação Breve (182) A declinação do espírito

Irving Penn, Three Asaro Mud Men, New Guinea, 1970
São tantas as formas em que a humanidade se declina que, por vezes, podemos pensar que a cada momento dela podem, como rebentos de uma planta vigorosa, estar a brotar novas e novas espécies. E, no entanto, para além de algumas distinções de aparência sem relevo, a unidade física dos seres humanos permanece constante. O que é radicalmente diferente é o espírito que os habita e às suas comunidades, como se esse espírito tivesse muitos rostos e os fosse mudando em conformidade com uma lei que a nossa razão desconhece.

sexta-feira, 1 de julho de 2022

O sal do silêncio (85)

Philipp Ritter Von Schoeller, Cécile, 1897
Esse momento em que o espírito se suspende e o corpo, mergulhado no silêncio, é tomado pelo temor da expectativa, esse momento em que um rumor trazido pelo vento anuncia um mundo novo que então se aproxima, esse momento em que um nome se rasga para que dentro da escura cegueira nasça a luz mais pura. Esse momento em que, após breve hesitação, tudo ganha o sal do sentido.