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terça-feira, 23 de junho de 2015

Dúvida e crença

Francisco Arjona - ¡Adelante con la duda! (1985)

A dúvida é um elemento estrutural de qualquer crença, tenha esta uma natureza epistemológica, moral, estética ou religiosa. Duvidar não é uma acção contra-natura do homem, pelo contrário. Duvidar é reconhecer os limites e a finitude dos seres humanos. A crença ou a fé de um homem que não duvida é destituída de qualquer valor, pois assenta numa denegação da sua condição, numa revolta contra a natureza limitada dos seus poderes, numa pretensão a um saber absoluto, seja qual for a área em que se manifeste esta crença. Em linguagem religiosa, esse tipo de fé não é outra coisa senão o pecado do orgulho.

sábado, 4 de abril de 2015

A experiência da via

Stipo Pranyko - Altar para um agnóstico (1996)

Eu sou a via, e a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai, senão por mim. (João 14:6)

A vida espiritual confronta-se sempre com o agnosticismo. Este mais não é do que a confissão de um não saber, de ausência de conhecimento. Muito antes de João ter escrito as palavras de Cristo em epígrafe, Platão definiu o conhecimento como crença verdadeira justificada. A vida espiritual sofreria, então, de uma limitação que a colocaria na classe das crenças dogmáticas, às quais falta justificação. Não será por isso um conhecimento, uma gnose, o que, na verdade e de forma surpreendente, torna os crentes em agnósticos. Porém, há uma justificação que desfaz o hipotético dogmatismo e o concomitante agnosticismo. A crença na verdade e na vida justifica-se não por uma adesão irracional e incompreensível mas pela experiência da via, do caminho. A experiência é a mais radical justificação que uma crença pode obter. Assim sendo, a fé, como nos ensina a palavra latina fides, não é outra coisa do que o compromisso com a via, a fidelidade à própria experiência.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Por que duvidaste?

Norman Narotzky - All life is there (1984)

E logo Jesus, estendendo a mão, segurou-o, e disse-lhe: Homem de pouca fé, por que duvidaste? (Mateus 14:31)

Esta pergunta - por que duvidaste? - fica sem resposta. Pedro não disse nada. Este silêncio, porém, é eloquente e dá que pensar. Situa-se no encontro conflitual entre fé e dúvida. Qual o significado do silêncio de Pedro? A finitude da sua humanidade indica que esse conflito é constitutivo do homem. Enquanto ser natural dotado de razão, o homem está cindido entre a crença absoluta e a dúvida. Pedro não respondeu pois a sua natureza era a resposta. Duvidar faz parte da condição humana. Para que apenas a fé mais pura brilhasse, seria necessário que Pedro, sendo humano, fosse mais do que um homem. E foi isto o que, por várias vezes e em diferentes circunstâncias, lhe foi pedido.

terça-feira, 20 de maio de 2014

A incerta viagem

Ho Fan - Journey to Uncertainty (1956)

Na inauguração dos tempos modernos, a certeza foi definida como o alvo a atingir pelo pensamento humano. A vida riu-se de tamanha pretensão e tornou tudo mais incerto, como se o caminho que cabe a cada um devesse ser feito na escura noite, onde apenas a fé e a graça podem iluminar o homem na incerta viagem que lhe cabe.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

O guia do perplexo

André Kertész - Washington Square, New York, Winter (1954)

Jesus respondeu-lhes: «A obra de Deus é esta: crer naquele que Ele enviou». (João, 6:29)

Por contaminação do pensamento grego, somos conduzidos a reduzir a questão da crença ao domínio da teoria, à discussão sobre se uma determinada crença é verdadeira ou falsa, se há ou não justificação para essa crença, isto é, se há outra crença ou conjunto de crenças que a suportem. Esta forma de pensar é conduzida pelo desejo da evidência e pela busca de consolo que a certeza traz ao espírito. Ora os textos evangélicos, nomeadamente os trechos atribuídos, nessas narrativas, a Jesus Cristo, pouco têm a ver com a consolação da certeza. Mesmo quando é proposta a fé, como é o caso do texto citado de João, o sentido nunca é teórico nem visa afirmar uma certeza. Pelo contrário, o leitor fica perante um enigma, como se a fé fosse a porta para a perplexidade e o evangelho um guia do perplexo.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

O homem cego

Albert Bloch - The Blind Man (1942)

Que queres que eu te faça? Respondeu ele: Senhor, que eu tenha vista. Disse-lhe Jesus: Vê, a tua fé te curou. (Lucas 18:41-41)

O homem cego não é outro senão cada um de nós. Estar cego ou, melhor, ser cego é o nosso estado natural. A cura da cegueira, porém, é algo tão inusitado que é difícil  descrever a terapia. No texto de Lucas, por exemplo, fala-se de fé. Ora haverá poucas coisas mais obscuras do que a fé. Como pode a obscuridade vencer a obscuridade?

segunda-feira, 11 de março de 2013

O prodígio e a evidência

Giovanni Toscani - L'Incrédulité de saint Thomas

Naquele tempo, Jesus saiu da Samaria e foi para a Galileia. Ele mesmo tinha declarado que um profeta não é estimado na sua própria terra. No entanto, quando chegou à Galileia, os galileus receberam-no bem, por terem visto o que fizera em Jerusalém durante a festa; pois eles também tinham ido à festa. Veio, pois, novamente a Caná da Galileia, onde tinha convertido a água em vinho. Ora havia em Cafarnaum um funcionário real que tinha o filho doente. Quando ouviu dizer que Jesus vinha da Judeia para a Galileia, foi ter com Ele e pediu-lhe que descesse até lá para lhe curar o filho, que estava a morrer. Então Jesus disse-lhe: «Se não virdes sinais extraordinários e prodígios, não acreditais.» Respondeu-lhe o funcionário real: «Senhor, desce até lá, antes que o meu filho morra.» Disse-lhe Jesus: «Vai, que o teu filho está salvo.» O homem acreditou nas palavras que Jesus lhe disse e pôs-se a caminho. Enquanto ia descendo, os criados vieram ao seu encontro, dizendo: «O teu filho está salvo.» Perguntou-lhes, então, a que horas ele se tinha sentido melhor. Responderam: «A febre deixou-o há pouco, depois do meio-dia.» O pai viu, então, que tinha sido exactamente àquela hora que Jesus lhe dissera: «O teu filho está salvo». E acreditou ele e todos os da sua casa. Jesus realizou este segundo sinal miraculoso ao ir da Judeia para a Galileia. (João 4,43-54) [Comentário de Anastácio de Antioquia aqui]

O que significam esses sinais extraordinários e prodígios? Objectivamente, podem sobre eles ser dadas diversas explicações. Uma explicação negativa, afirmando que não existem, que a legislação que rege a natureza não permite tal tipo de fenómenos. As explicações positivas têm um espectro mais alargado. Uma primeira dirá que a natureza não se rege por leis deterministas, que estas não passam de um hábito psicológico, como o pensou David Hume, fundado na constância dos fenómenos e na expectativa das pessoas, e por isso é possível que certas acções interfiram no curso do mundo que o hábito nos faz pensar como pré-determinado. Uma segunda dirá que o nosso estado do conhecimento é ainda incipiente e que estes prodígios, não sendo falsificações da realidade, poderão, mais tarde ou mais cedo, ser cientificamente explicados. Por fim, uma terceira explicação dirá que há uma legislação determinada da natureza ou, pelo menos, um curso regular dos acontecimentos e que, em certas ocasiões, por intervenção divina podem ser suspensos para, de imediato, retornar às suas formas habituais.

O texto contudo não abre tanto para uma discussão sobre os milagres mas para as condições subjectivas da fé. O que é, de facto, questionado é a necessidade de fundamentar a fé numa evidência dada pelo prodígio. Isto significa, em primeiro lugar, que existia um cepticismo crítico e racionalizante, o qual obstruía a crença. Em segundo lugar, porém e ao contrário dos dias de hoje, esse cepticismo não é encarado como sendo o natural do espírito humano. As palavras proferidas por Cristo – Se não virdes sinais extraordinários e prodígios, não acreditais – são ditas em tom de censura, como se a essência do próprio espírito fosse o assentimento espontâneo e imediato à Verdade que se revelava.

O texto de João abre assim para uma reflexão sobre a evidência da fé e, como corolário, sobre a perda dessa evidência. Essa perda, porém, não significa que alguma coisa se tivesse alterado radicalmente no curso da história humana, como se houvesse um momento histórico em que o conteúdo da fé fosse transparente a uma consciência mais ou menos inocente. Subjacente ao texto parece estar antes uma outra perspectiva. Em cada homem, a natureza mais íntima do seu espírito conduzi-lo-ia a uma fé que não necessitaria de evidências exteriores, de prodígios e de sinais extraordinários. Essa intimidade consigo mesmo perde-se ou nunca se chega a alcançar e, movido pela perda, o homem torna-se céptico e necessita de sinais exteriores.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Para além da razão, a sabedoria

George Wesley Bellows - Dance in a Madhouse (1917)

Olhar para a vida mundana colocando-nos fora dela é uma experiência que pode desenhar o seu campo de sentido na metáfora do baile num manicómio. Não nos iludamos, porém. O valor metafórico e semântico da expressão não reside no facto de as pessoas que dançam pertencerem a um universo onde a razão está suspensa. O valor da expressão está no facto de haver ainda uma racionalidade apesar daqueles que dançam terem a sua afectada ou suspensa. O baile é um véu de racionalidade depositado sobre  - e nascido de - um universo composto por elementos não racionais.

O manicómio, contudo, é apenas uma figura do mundo da vida quotidiana, um outro exemplo da velha caverna platónica. E nesse mundo quotidiano cada ser humano, por mais racional que se julgue e sinta, não é diferente daquele que, no manicómio, dança. E a razão, esse poder que incensamos como se de um deus se tratasse, não é outra coisa do que o véu tecido pelos movimentos não racionais - nem razoáveis - de todos nós. A razão não é um a priori, mas um a posteriori, uma resultante. E é por isso que ela contém a terrível possibilidade das maiores insanidades.

O caminho da sabedoria começa quando se percebe que há que deixar a razão para trás. Enquanto o homem estiver preso na sedução da razão, ficará fechado na alternativa - falsa alternativa, aliás - entre razão e desrazão. O espírito não é a razão. Esta é discursiva e raciocinadora, implica a temporalidade. Aquele é intuitiva e nasce da suspensão do tempo. A sabedoria é a pura presença em cada momento, a atenção ao enigma do acontecer, o estar para além da alternativa razão-desrazão. Na tradição católica, esta pura atenção ao acontecer tem um nome específico: fé. Ser fiel significa, então, estar presente à realidade, suspender a distracção contida nas considerações da razão, incluindo as que resultam da da razão como suporte da crença em Deus. Esta não passa de uma crença numa ideia projectada pela razão sobre o diverso e irracional da experiência humana. A sabedoria nasce quando se abre mão de tudo isso.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Pobre de espírito

(imagem daqui)

Vejam, nunca até agora, nesta vida, alguém abandonou as coisas ao ponto de nada mais ter para abandonar. São raras as pessoas que têm isso em consideração e se conformam com tal coisa. Compensação verdadeiramente equitativa e justa: tanto quanto tu sais de todas as coisas, tanto quanto sais verdadeiramente de tudo o que é teu, tanto, nem mais nem menos, Deus entra em ti com tudo o que é seu. [Maitre Eckhart, Entretiens Spirituels IV]

Onde, nesta curta passagem de Eckhart, encontramos um lugar para a fé? O místico renano não fala de nenhuma das virtude teologais, não sublinha um dogma, apenas propõe uma forma de agir. Desapropriar-se de si, abandonar tudo o que é tido como seu, quebrar os laços psicológicos do desejo com as coisas, consigo mesmo e até com o desejo de salvação. Abandonar significar abandonar radicalmente. Mas nunca, nesta vida, ninguém se abandonou ao ponto de não ter mais nada a abandonar. A fé reside neste abandono radical, reside na certeza de que cada vazio do espírito nascido do abandono é preenchido pela entrada de Deus. Abandonar-se significa ser pobre de espírito. Uma pobreza radical. Assim como é no presépio de Belém que Cristo nasce, é no mais vazio do espírito que Deus encontra o seu presépio, e ocupa o espaço que a pobreza lhe proporciona. A pobreza espiritual - que não é estupidez ou falta de inteligência - é a virtude essencial no caminho de qualquer viandante. A fé não está na ligação afectiva a uma imagem mais ou menos abstracta ou mais ou menos infantil da divindade, mas no abandono de si à expectativa da chegada de Deus.

sábado, 10 de maio de 2008

A tempestade da dúvida

Há quem tenha uma fé substancial, uma fé capaz de mover montanhas, uma fé clara e distinta. Eu, porém, sinto-me atravessado pela tempestade da dúvida, da incerteza, da impossibilidade de me tornar num Atlas e carregar às minhas costas um mundo, tão pouco uma montanha. Se a fé é a crença e aceitação da revelação, a dúvida é a natureza do espírito que procura um caminho. Talvez a minha fé só possa nascer desse espírito que procura e a dúvida seja um sintoma da vida que cresce e se fortalece e na força que assim vai nascendo encontra a fidelidade ao que, na obscuridade, me chama. Talvez não haja verdadeira fé sem o tempero da dúvida. Quanto maior for uma, mais forte será a outra.

terça-feira, 29 de abril de 2008

O alimento da fé

De que se alimenta a fé? De uma exaltação do ânimo? Da convicção da razão? Do sentimento inabalável? Não, a fé que se alimente de tudo isso não é fé, apenas uma crença que, apesar de poder ser exaltada, não deixa de ser superficial. É esta fé que persegue o próximo e que, tendo o poder da espada na mão, não hesitará a fazer correr o sangue. O motor da fé não pode ser outra coisa senão a dúvida, a incerteza, a fragilidade da convicção. Só elas podem impelir o coração mais para diante, para uma experiência mais funda da palavra que nos fez ser. A fé alimenta-se assim da escuta. Ora aquele que se põe à escuta nem sempre ouvirá. Umas vezes porque está distraído, outras porque aquele que fala suspende a voz para deixar em suspenso o que escuta, desenhar-lhe um espaço maior para duvidar e, assim, com mais determinação fazer crescer a fé.