Mostrar mensagens com a etiqueta Poesia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Poesia. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Viagem de Inverno 4

Camille Pissarro, Morning, Sunshine Effect Winter, 1895

Canto uma esquecida canção,

do Oriente vem, ave poisada na voz.

 

O poder de perdoar rasga a noite

e toca o ombro do arqueiro que o alvo errou.

 

A inclinação da Terra esconde a luz

e a seta do Inverno ecoa no sal da manhã.

 

Janeiro de 2026

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Viagem de Inverno 3

László Meitner, Inverno em Paris (Gulbenkian)

Abro o corpo para o sol da manhã,

um cântico na combustão do silêncio.

 

Os Reis voltaram para o Oriente

iluminados pelo carmesim da Lua.

 

No crocitar do calendário, os dias crescem,

a Terra ecoa no húmus do universo.

 

Janeiro de 2026

 

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Haikai do Viandante (446)

Marco Bicci, Paisagem de Inverno

Homens e animais
escutam a voz do vento.
Paisagem de Inverno.

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Viagem de Inverno 2

Oscar Monet, Two-Path at Argenteuil, Winter, 1875

Caminho na solidão de Dezembro,

abro portas no sigilo da memória.

 

Passou como uma sombra o Natal,

o esplendor da noite, a quietação do dia.

 

O frio envolve de geadas a manhã,

promete neve que a noite não trará.

 

Dezembro de 2025

 

domingo, 21 de dezembro de 2025

Viagem de Inverno 1

Caspar David Friedrich, Winter Landscape with Church, 1811

Sonho-me na sombra de sal do dia,

na súplica aberta na lava da exaltação.

 

Como um barco na melancolia do mar,

o Advento aproxima-se da candura do cais.

 

Move-se a geometria dos dias e das noites:

triunfais, as trevas cantam feridas de morte.

 

Dezembro de 2025

 

domingo, 14 de dezembro de 2025

Silêncio de Outono (12)

H. L. Brusse, Herfstmorgen, 1906

Caem ainda das acácias

folhas vergadas

pelo tempo.

Juncam os caminhos,

o advento, a aurora.

 

Uma exaltação adormece

em mim, se apanho

do chão as folhas mortas.

 

Dezembro de 2025

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Silêncio de Outono (11)

Alfred Sisley, Bank of the Seine in Autumn, 1876

Sem mácula, a paisagem

desdobra-se

nas cores de Outono

e na virginal

concepção do Inverno.

 

Percorro a senda dos dias:

espero a súbita

revelação da eternidade.

 

Dezembro de 2025


quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Pintura e haikus (47)

Júlio Pomar, Varina Comendo Melancia, 1942 (Gulbenkian)

 Frutos do Estio:

O vermelho da varina,

azul de paixão.

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Silêncio de Outono (10)

Aurélia de Souza - Visitação

Secreta, chegou a luz

do Advento.

Veio no húmido

odor da terra,

nas folhas pelo chão.

 

Retenho na memória a voz

vinda  na água

dos dias de sol e névoa.


Dezembro de 2025

 

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Silêncio de Outono (9)

Tomás Viver Aymerich, Apunte de paisaje

A vida recolhe-se

na sonolência

dos dias, no sangue

dos mártires

vivos na viragem da morte.

 

Ergo o lume da tarde,

um cântico preso

no coral de quem dorme.

 

Novembro de 2025

 

terça-feira, 18 de novembro de 2025

Silêncio de Outono (8)

Alson Skinner Clark, Autumn Blaze

Para o Sul partiram

as últimas aves.

Anuncia-se o que virá

buscar na sombra

a luz do pássaro perdido.

 

Deslizo pelo âmbar da tarde

e colho do chão

o silêncio de uma  folha caída.

 

Novembro de 2025

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Silêncio de Outono (7)

Romà Vallés, Cosmogonies. Sèrie Color (6). 1962

Um rasto de romã e a tinta

do dióspiro

cobrem de carmesim

os que triunfam

na peregrina névoa da dor.

 

Na rua, abro-me à bênção

da água lustral,

o baptismo nas chuvas de Novembro.

 

Novembro de 2025

 

sábado, 8 de novembro de 2025

Silêncio de Outono (6)

Milton Avery, Autumn, 1944

Estão colhidos os frutos

trazidos pelo Outono.

Os campos esperam a bênção

de todos os santos

silenciados nas ruas da cidade.

 

Deambulo pela memória

e oiço os mortos

nimbados no silêncio da luz.

 

Novembro de 2025

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

Silêncio de Outono (5)

Benvenuto Benvenuti, Le Vele, 1930-1932

Chegaram os dias de chuva,

o tempo de sombra

e de flores cansadas,

a hora do missionário partir

num veleiro de coral.

 

Saio de um sonho inquieto

e entro na terra húmida

nascida no segredo das nuvens.

 

Outubro de 2025

sábado, 18 de outubro de 2025

Silêncio de Outono (4)

Marc Chagall, The Woman and the Roses, 1929

As manhãs refrescaram.

Cedo, a cidade

recolhe-as em rosário

de rosas brancas,

vermelhas de luz.

 

Sento-me no vime da alvorada.

Espero em silêncio

o lume do dia.

 

Outubro de 2025

 

domingo, 12 de outubro de 2025

Pintura e haikus (46)

Teresa Magalhães, sem título, 1982

 negro coração
máscara ociosa vinda
na luz de outono

sexta-feira, 10 de outubro de 2025

Silêncio de Outono (3)

Francesco di Stefano, St. Francis Receiving the Stigmata

Os dias empobrecem-se de luz,

clamam por quem

da pobreza ergue uma vida,

altar onde plantas, animais e homens

desenham a cruz do amor.

 

Cubro-me com os estigmas da aurora

e entro na casa da penúria,

movido pela fortuna de tudo dar.

 

Outubro de 2025

 

sábado, 4 de outubro de 2025

Silêncio de Outono (2)

Jacqueline Lamba, Forest Stream, 1947

O pequeno caminho das coisas

abre-se à sumptuosa

castidade das cores:

Amarelos, vermelhos, castanhos,

o ouro destes dias.

 

Pego nos metais raros.

Pouso-os

na serenidade do entardecer.

 

Outubro de 2025

segunda-feira, 29 de setembro de 2025

Silêncio de Outono (1)

Benvenuto Benvenuti, Mattino, 1935-1940

As folhas caem em silêncio.

Os três arcanjos

murmuram uma canção

feita de vento

e corolas de estrelas matinais.


Estremeço e abro as mãos

para o fogo ateado

nas águas negras do oceano.

 

Setembro de 2025

sexta-feira, 19 de setembro de 2025

Haikai do Viandante (445)

Adolfo Guiard, Amanecer, 1910


 Secreta manhã
desce no silêncio dos campos:
sonhos de Outono