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| Ana Peters, Azul prusi, 1993 |
domingo, 16 de agosto de 2026
sábado, 8 de agosto de 2026
Sonhos de Verão 7
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| Juan González Alacreu, Contraluz |
Da geração incrédula e
perversa, não há memória,
mas a voz compassiva
curou a criança lunática.
Agosto estende as suas
redes sobre o azul do mar,
e um grão de mostarda traz
um zéfiro pela terra.
Sentado à sombra,
debito o rol de milagres,
faço-os nascer de um
verbo vazio, iluminam a luz.
Agosto de 2026
sexta-feira, 31 de julho de 2026
Sonhos de Verão 6
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| Carlos de Haes, Playa de Guethary, 1881 (aproximadamente) |
São surdos os que se prostram no templo,
corre-lhes o Estio nas
veias, o avaro coração.
As marés baixas abrem
um deserto na praia.
Se as gaivotas
grasnam, não há quem as oiça.
Caminho pela senda
sombria do crepúsculo,
escuto a voz pregada
na estreita cruz da surdez.
Julho de 2026
quinta-feira, 23 de julho de 2026
Sonhos de Verão 5
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| Paul Cezanne, Bibemus Quarry, 1898-1900 |
Na grávida luz da
graça, uma terra de pomares,
herança contaminada pelo
musgo da abominação.
A lira da noite cai
sobre o fogoso seio do Estio,
as raparigas abrem-se
ao contágio do amor.
Infectado, murmuro no bálsamo
do vento Norte.
Julho cobre-me o
zumbir nascido do desejo.
Julho de 2026
quarta-feira, 15 de julho de 2026
Sonhos de Verão 4
terça-feira, 7 de julho de 2026
Sonhos de Verão 3
sexta-feira, 3 de julho de 2026
segunda-feira, 29 de junho de 2026
Sonhos de Verão 2
domingo, 21 de junho de 2026
Sonhos de Verão 1
segunda-feira, 15 de junho de 2026
Ecos da Primavera 12
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| Paul Gauguin, La recogida del heno, 1888 |
Abominais o que faz correr o sangue
e de casa excluís quem vive no ardil,
quem à mentira ergue um altar.
Fecho os olhos e penso na imperfeição:
nasceu em mim, inventei-a pela manhã.
O mundo rasga-se no ruído das ruas.
A Primavera abre-se à morte,
sem força para cerzir o que a vida feriu.
Junho de 2026
quarta-feira, 10 de junho de 2026
Ecos da Primavera 11
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| Ludwig David, Canal Bei Delft, 1902 |
Onde repousa a taça com o vinho da memória
está a herança sem fim dos dias alegres,
as noites esculpidas na pedra da eternidade.
Observo o jardim no solfejo da Primavera,
colho as últimas rosas da melancolia.
O universo expande-se para fora de si,
deixando um rasto de estrelas,
para cobrir os céus com a cintilação da luz.
Junho de 2026
domingo, 7 de junho de 2026
Ecos da Primavera 10
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| Howard Hodgkin, Mr. and Mrs. Patrick Caulfield, 1969 – 1970 (Gulbenkian) |
Deixar os sacrifícios nas trevas do sangue.
Um jardim no húmus do conhecimento,
a flor-de-lis sob a luz da misericórdia.
No fogo da memória, crepitam os meus olhos.
Ávidos de água, toldados de terra.
As ruas despiram-se de transeuntes.
São um excesso no sobejo do universo,
a métrica lexical na gramática da errância.
Junho
de 2026
sexta-feira, 5 de junho de 2026
Ecos da Primavera 9
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| Mily Possoz, sem título (Gulbenkian) |
O princípio da palavra é a voz da verdade,
raiz mergulhada no solo do mistério,
um salto sobre a fronteira do sem sentido.
Não desvio os ouvidos do rumor antigo,
do que chega e ilumina a minha casa.
O vento fresco da manhã corre nas ruas,
levanta a poeira esquecida,
a verdade na palavra perdida no mundo.
Junho de 2026
segunda-feira, 1 de junho de 2026
Ecos da Primavera 7
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| Fernando Lemos, Pedras, 1949 (Gulbenkian) |
Sob o sol de Junho, a pedra repelida
será no fim do dia exaltada.
Pedra angular no segredo do silêncio.
Abro a porta ao êxtase da aurora,
ao orvalho deixado pela fadiga da noite.
Os martelos do mundo batem em furor,
abrem o silvo da cidade
ao florescimento das constelações nocturnas.
1 de Junho de 2026
domingo, 31 de maio de 2026
Ecos da Primavera 6
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| João Queiroz, sem título, 1999 |
Um caos sem fronteiras é o mundo,
mas nele arde a púrpura da redenção,
o sangue de ouro do cosmos a vir.
Perscruto a seiva na luz das tílias,
o vento crestado dentro da minha voz.
A cidade cai na armadilha do domingo.
Dedilha as horas no azul do céu,
no êmbolo dos carros presos no alcatrão.
Maio de 2026
sexta-feira, 29 de maio de 2026
Ecos da Primavera 5
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| Bernardo Marques, Primavera |
Está próximo o fim de todas as coisas,
da rosa que é, da treva que não é,
do ardor que se aproxima, da luz que vai.
Peso as palavras na balança da memória,
teço um clarão sobre o que se avizinha.
A Terra é um pássaro sonolento e rodopia,
esquecida na poeira da Primavera,
na cintilação do hóspede perdido na noite.
Maio de 2026
quarta-feira, 27 de maio de 2026
Ecos da Primavera 4
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| António Palolo, sem título, 1972 (Vídeo) (Gulbenkian) |
A palavra, íntegra semente germinada
no súbito solo da eternidade:
Erva que não seca, flor que não cai.
Acordo sob o império da fala,
estendo os braços para o oiro da língua.
A Primavera solfeja no furacão da cidade,
irrompe na quietação da boca –
um mundo de sons sombreia a esteva e o vento.
27 de Maio de 2026
terça-feira, 26 de maio de 2026
Ecos da Primavera 3
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| René Bertholo, Pintura, 1959 (Gulbenkian) |
Erguer das águas o assombro do sentido.
Erguer das pedras o prodígio do canto.
Erguer do incêndio o incenso do louvor.
Abro caminho com a fragilidade das mãos,
o ar com a madrepérola da manhã.
A cúpula do mundo ferve sob o sol de Maio.
As tílias cintilam, espalhando sombras
sobre o dorso dormente da tenaz do tempo.
quinta-feira, 2 de abril de 2026
Ecos da Primavera 2
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| Frances Hodgkins, Church and Castle, Corfe, 1942 |
O memorial de pão e vinho rasgou
a noite e abriu a morte
ao rumor da ressurreição.
Olho o vacilar do silêncio,
a palavra soletrada no esquecimento.
O bosque ao longe cresce para o sol,
traça uma muralha de vento
onde dia desagua no delta da eternidade.
Abril de 2026








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