quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Poemas do Viandante (342)

342. NAQUELA HORA, ANTES DO DIA SE DESVANECER

Naquela hora, antes do dia se desvanecer,
há um brilho nos céus e um cheiro a erva húmida,
odor vindo do tempo da inocência,
anunciando a estação das lamparinas,
os velhos candeeiros a petróleo.
O vento chegava com a frescura da serra,
para a distribuir casa a casa, as portas abertas
e as janelas onde se contrabandeava a solidão.

A noite precipitava-se com uivos vacilantes,
enchia as casas de tenaz escuridão
e traçava mapas misteriosos
nas paredes, férteis planícies brancas.
Ainda não tínhamos uma biografia,
a vida não passava de uma recolecção de
sensações, tiras rasgadas no papel pardo,
aquele que embrulhava sonhos e mercearias.

Se chovia, escutávamos as águas a cair no telhado,
a escorrer nos beirais, a precipitar-se nos baldes.
Era um tempo de minúcia e ardor
e a vida um cálculo contínuo,
a persistência da flor no jardim encantado.
Cada gesto rasgava um horizonte,
que logo o murmúrio dos pinheiros cerzia,
fazendo pensar num conto de fadas
ou na quimera de um oásis no furor do deserto.

Voltaram, nesta hora tardia, os sonhos,
promessas de vida já esquecidas.
Chegam um pouco antes da madrugada
e acordam-me para as paisagens abandonadas,
que um forasteiro tenebroso saqueou,
deixando um rasto de cinza e desolação
naquelas planícies brancas batidas pelo vento,
rasgadas pelas águas da invernia.
Sonâmbulo, ergo as mãos para a tua face
e oiço-te respirar no silêncio da escuridão.