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| A. Barbichon, Givre et Brouillard, 1896 |
As águas descem da montanha e são um rio que, na sua vertigem, arrasta a sombra que as gerou, para a estender pelo mundo, até que o mar as receba na voragem das ondas e na paz que reside em toda a dissolução.
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| A. Barbichon, Givre et Brouillard, 1896 |
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| Clarence Moore, Le Récit d'un Ancien, 1894 |
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| Paul Gauguin, La recogida del heno, 1888 |
e de casa excluís quem vive no ardil,
quem à mentira ergue um altar.
Fecho os olhos e penso na imperfeição:
nasceu em mim, inventei-a pela manhã.
O mundo rasga-se no ruído das ruas.
A Primavera abre-se à morte,
sem força para cerzir o que a vida feriu.
Junho de 2026
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| Francesca Woodman, Untitled, 1976 |
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| Ludwig David, Canal Bei Delft, 1902 |
está a herança sem fim dos dias alegres,
as noites esculpidas na pedra da eternidade.
Observo o jardim no solfejo da Primavera,
colho as últimas rosas da melancolia.
O universo expande-se para fora de si,
deixando um rasto de estrelas,
para cobrir os céus com a cintilação da luz.
Junho de 2026
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| H. R. Taylor, Easton’s Beach, 1891 |
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| Howard Hodgkin, Mr. and Mrs. Patrick Caulfield, 1969 – 1970 (Gulbenkian) |
Deixar os sacrifícios nas trevas do sangue.
Um jardim no húmus do conhecimento,
a flor-de-lis sob a luz da misericórdia.
No fogo da memória, crepitam os meus olhos.
Ávidos de água, toldados de terra.
As ruas despiram-se de transeuntes.
São um excesso no sobejo do universo,
a métrica lexical na gramática da errância.
Junho
de 2026
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| Moritz Nähr, Waldinneres, 1891 |
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| Mily Possoz, sem título (Gulbenkian) |
raiz mergulhada no solo do mistério,
um salto sobre a fronteira do sem sentido.
Não desvio os ouvidos do rumor antigo,
do que chega e ilumina a minha casa.
O vento fresco da manhã corre nas ruas,
levanta a poeira esquecida,
a verdade na palavra perdida no mundo.
Junho de 2026
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| Hein Semke, Paisagem, 1957 (Gulbenkian) |
e das areias do deserto sem nome
um caminho de sombras sob o punhal solar.
Fixo o olhar no horizonte, um silvo abre
o céu primaveril ao azul do Estio.
A cidade descansa poisada no calendário,
dormita pelas ruas cobertas de pétalas
caídas em segredo dos jacarandás em flor.
Junho de 2026
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| John A. Hodges, The Day was Nearly Done, 1895 |
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| Fernando Lemos, Pedras, 1949 (Gulbenkian) |
será no fim do dia exaltada.
Pedra angular no segredo do silêncio.
Abro a porta ao êxtase da aurora,
ao orvalho deixado pela fadiga da noite.
Os martelos do mundo batem em furor,
abrem o silvo da cidade
ao florescimento das constelações nocturnas.
1 de Junho de 2026
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| João Queiroz, sem título, 1999 |
mas nele arde a púrpura da redenção,
o sangue de ouro do cosmos a vir.
Perscruto a seiva na luz das tílias,
o vento crestado dentro da minha voz.
A cidade cai na armadilha do domingo.
Dedilha as horas no azul do céu,
no êmbolo dos carros presos no alcatrão.
Maio de 2026
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| Autor desconhecido, Picnickers enjoy a Meal, 1899 |
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| Bernardo Marques, Primavera |
da rosa que é, da treva que não é,
do ardor que se aproxima, da luz que vai.
Peso as palavras na balança da memória,
teço um clarão sobre o que se avizinha.
A Terra é um pássaro sonolento e rodopia,
esquecida na poeira da Primavera,
na cintilação do hóspede perdido na noite.
Maio de 2026
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| Victor Palla, sem título, 1990 (Gulbenkian) |
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| António Palolo, sem título, 1972 (Vídeo) (Gulbenkian) |
no súbito solo da eternidade:
Erva que não seca, flor que não cai.
Acordo sob o império da fala,
estendo os braços para o oiro da língua.
A Primavera solfeja no furacão da cidade,
irrompe na quietação da boca –
um mundo de sons sombreia a esteva e o vento.
27 de Maio de 2026
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| René Bertholo, Pintura, 1959 (Gulbenkian) |
Erguer das pedras o prodígio do canto.
Erguer do incêndio o incenso do louvor.
Abro caminho com a fragilidade das mãos,
o ar com a madrepérola da manhã.
A cúpula do mundo ferve sob o sol de Maio.
As tílias cintilam, espalhando sombras
sobre o dorso dormente da tenaz do tempo.
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| Frances Hodgkins, Church and Castle, Corfe, 1942 |
a noite e abriu a morte
ao rumor da ressurreição.
Olho o vacilar do silêncio,
a palavra soletrada no esquecimento.
O bosque ao longe cresce para o sol,
traça uma muralha de vento
onde dia desagua no delta da eternidade.
Abril de 2026
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| Alfred Eisenstaedt, View of Midtown Manhattan. Circa 1939 |
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| Charles Job, Drifting, 1907 |
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| Andrew Dasburg, Chantet Lane (1926) |
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| Vincent van Gogh, Casa de campo con árboles, 1885 |
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| Imogen Cunningham - Dream Walking, 1968 |
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| Edward Steichen, Portrait, 1905 |
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| Manuel Filipe, Inverno-Primavera , 1978 (Gulbenkian) |
Nuvens no céu tecem-me a nostalgia
do corpo mergulhado na poeira do calor.
Virá o espírito na opulência da oliveira
e derramará perfumes do Líbano.
O Inverno soletra as últimas palavras.
A voz do tempo abre-se ao júbilo da alvorada.
Março de 2026
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| Anónimo Bizantino, Pentecostes, 1537 |
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| William Henry Jackson, El Capitan, Yosemite, 1889 |
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| Miguel Flávio, A cidade ao pôr-do-sol, 1967 (Gulbenkian) |
O corpo solicita-me a erva das ruas
e o saibro ígneo do entardecer.
A parábola dos vinhateiros abre um tonel
de sangue no caminho da inocência.
O mundo respira sob o saibro das ervas
o vinho da morte e o vítreo vento das glicínias.
Março de 2026
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| Oskar Kokoschka, Amantes con gato, 1917 |
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| Julia Margaret Cameron, Enid, 1874 |
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| Joaquín Torres García, La fuente de la juventud, 1906 |
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| Edward Steichen, Balzac, the Open Sky - 11 P.M. 1908 |
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| Joaquín Mir, Dia de vent |
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| Edouard Hannon, Die letzten schönen Tage, 1897 |
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| Georg Einbeck, Mutter und Kind, 1898 |
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| Francis Picabia, Amanecer en la bruma, Montiguy, 1905 |
e em mim levanta-se a vegetação do dia.
Sois o sal da terra, a luz do mundo, canta-se
na cintilação do fogo, no vidro da candeia.
O troar da tempestade cessou: a súplica
da terra, o rumor do céu, a revolta do mar.
Fevereiro de 2026
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| Eve Arnold, Bar girl in a brothel in the red light district. Havana, Cuba, 1954 |
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| Odilon Redon - Combate de centauros |
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| Léonard Misonne, Souvenir de Londres, 1930-1940 |
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| Fernando Lemos, sem título, 1999 (Gulbenkian) |
sem o cântico do sol e o ofício da luz.
Esquecidos da ira final, os homens
caminham nas veredas de aço e fósforo.
Enlouquecidas, as aves partiram
para o sol do Sul e as ravinas de luz.
Fevereiro de 2026