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domingo, 30 de julho de 2017

Um Cristo crucificado

Odilon Redon - Crucificação (1910)

Olhamos o quadro de Odilon Redon e, perante a data, perguntamos, perplexos, o que faz ele ali. Ali não se trata do Museu de Orsay onde se encontra, mas de 1910. Depois do Iluminismo, do positivismo e dos diversos materialismos, por que razão tornar a apresentar um Cristo crucificado? Se nos deixarmos instruir pela pintura, talvez seja possível compreender alguma coisa. O que vemos é a solidão e o abandono do Cristo. Elas são o negativo que permitiram construir o mundo que ainda é o nosso. Pensa-se muitas vezes que a grande vantagem que o Ocidente construiu se deve à ciência e à técnica. Isso, porém, não passa de uma aparência. A vantagem que nos permitiu inclusive chegar à ciência e à técnica funda-se toda ela nessa consciência difusa de que a solidão e o abandono experimentados pelo Cristo na cruz são a nossa verdadeira condição. Sobre este alicerce construímos o resto. Umas vezes para o bem, quando aceitámos a verdade do homem; outras para o mal, quando o medo foi mais forte do que a aceitação.

sábado, 1 de novembro de 2014

O passeio pelo bosque

Henri Rousseau - O passeio pelo bosque (1886)

Há na literatura espiritual uma analogia recorrente entre o paraíso e o bosque, o bosque deleitoso, esse jardim onde o homem reencontraria a sua natureza perdida com a queda. Essa visão deleitosa oculta, porém, algo de muito mais essencial. O bosque como lugar de contacto com a vida tal como ela é, fora das ilusões que o eu constrói na interacção social. De certa maneira, o bosque é o lugar das delícias e da luz, mas também do árduo contacto com os elementos telúricos e com a sombra. O passeio pelo bosque não é apenas a delícia dada pela ressurreição. Inclui nele a morte na cruz, para falarmos segundo a tradição religiosa do Ocidente.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Algumas questões cruciais

JCM - Black & White Dreams, Belmonte (2008)

Será o cristianismo, como pretende Nietzsche, uma forma de ressentimento e uma negação da vida? Esta pergunta tem outra como resposta. Como poderia uma religião negadora da vida criar a civilização com maior vitalidade e onde a vida foi mais exuberante na sua afirmação e nas suas realizações? E a esta pergunta duas outras se devem juntar. Como pôde um símbolo de morte, a cruz, tornar-se semente de vida, criatividade e realização existencial plena? Como compreender, com a diminuição do influência do cristianismo e da perda de sentido simbólico da cruz para muitos ocidentais, e apesar do poderio e a riqueza actual das sociedades pós-cristãs, que estas sejam percebidas como estando em profunda crise e ameaçadas de morte?

domingo, 16 de junho de 2013

A cruz invisível

Paul Gauguin - O Cristo amarelo (1889)

A cruz foi um dos símbolos centrais - o mais central de todos eles - do mundo ocidental. Lentamente, porém, a cruz foi desaparecendo do espaço público, foi-se tornando invisível, foi esquecida e, para muitos, tornou-se desconhecida. A cruz é um símbolo muito desagradável, pois recorda aos homens aquilo que eles insistem em não querer ver. Lembra-lhes não apenas a sua condição mortal mas a natureza frágil e finita do seu corpo, de um corpo que é jogado, ao sabor de circunstâncias que ele não controla, entre o prazer e a dor. A cruz remete para a dimensão da dor e isso torna-a, para a consciência alienada dos homens modernos, absolutamente insuportável. O pior, porém, é que a cruz - usada pelos romanos no castigo dos escravos - torna patente a impotência dos homens e o arbítrio dos poderes. Na cruz estão todos os que são destituídos de poder, todos a quem o arbítrio dos poderes distribui sofrimento e injustiça. E é por isso que a cruz se torna invisível e, para muitos dos que lá estão crucificados, insuportável, pois recorda-lhes que a vida é, na verdade uma via crúcis