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domingo, 29 de maio de 2016

O jogo do afastamento e do retorno

Giorgio de Chirico - Ritorno del fliglio prodigo (1965)

O jogo do afastamento e do retorno ocupa um lugar central na vida dos homens. O afastamento significa a ruptura com a inocência originária, uma inocência feita de inconsciência, de não conhecimento, de ignorância. A ruptura abre o homem para a experiência e para os limites que esta lhe mostra. Tendo experimentado os limites, o homem retorna a si, à sua inocência. Agora, porém, a uma inocência que conhece a culpa e que se torna continuamente inocente. Uma inocência que sabe o que são as mãos sujas. Uma inocência que, conhecendo a culpa trazida pela experiência, sabe que a bela alma da inocência originária é uma ilusão. A parábola do filho pródigo não trata de outra coisa.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Uma nova inocência

Mère Geneviève Gallois - Adam et Eve chassés du paradis (1926)

Na narrativa de Adão e Eva, a expulsão do paraíso é vista como um castigo, um acontecimento negativo, algo que sucedeu devido à queda, à perda ingénua da inocência. Esta é, contudo, apenas uma parte da história. A expulsão do paraíso é o começo da viagem, a dolorosa procura de uma nova inocência, uma inocência que, abandonada a ingenuidade, se sabe e se quer inocente.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Cultivar a boa consciência

Robert Doisneau - Hell (1952)

Os outros, segundo a palavra de Sartre, por nos frustrarem a realização do desejo, são o inferno. Ateiam o desejo e pela negação com que o acolhem mantêm viva a dinâmica desejante, sem possibilidade desta se apaziguar no acto da consumação. Mas será que eu sou assim tão inocente no meu desejo? Será que cada um, ao desejar, é vítima duma conspiração vinda de fora? Ora negar a inocência do desejo será atribuir-lhe, na origem, uma decisão, o que contraria a ideia - ideia fundada em sólido senso comum - de que somos irresponsáveis pelo que desejamos. E traria ainda uma outra e não desejada implicação: o inferno não são os outros, somos nós, ou está em nós. O homem sempre gostou de cultivar a boa consciência.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Uma nova inocência

Luc Tuymans - Disenchantment (1990)

O triunfo da ciência moderna e da razão instrumental trouxeram o fim do mundo encantado em que o homem vivera até então. Com esse fim, nasceu a nostalgia do encantamento, o desejo de reencontrar essa unidade perdida entre a natureza e a sobrenaturalidade. Esse passado não é apenas um estranho país. É uma pátria para sempre interdita. O retorno a essa inocência - uma inocência culpada pelo que havia nela de desconhecimento - está-nos vedado. A perda dessa inocência, porém, abriu o caminho para uma nova inocência, aquela que nasce do conhecimento e da dissolução da culpa.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Da experiência pura

Georgia O'keeffe - Abstracción, rosa blanca n. 2 (1927)

Vê-se muitas vezes a experiência como um princípio de contaminação daquilo que é puro, como fonte de mácula que lança uma sombra sobre a brancura da inocência primordial. Será, no entanto, esta inocência tão pura e imaculada? Será a abstinência daquilo que a vida nos propõe o sinal de uma perfeição? Não será antes a forma como agimos e como nos entregamos às diversas experiências existenciais que decidem da pureza e inocência destas? Não é a abstinência que nos torna puros, mas nós que tornamos, ou não, puras e inocentes as experiências a que nos entregamos.

sábado, 13 de julho de 2013

Um tempo de água e fogo

José Manuel Ciria - Água e Fogo (2000)

Água e fogo são dois símbolos primordiais. São, como todos os símbolos primordiais, fonte originária de sabedoria e fundamento de todas as racionalizações que permitem dar um sentido humano ao mundo. Na tradição ocidental, água e fogo não são apenas dois dos elementos centrais - juntamente com o a terra e o ar, por vezes, com o éter - da teoria dos elementos que animou as primeiras especulações dos gregos. Eles surgem também no cristianismo, a água do baptismo, o fogo onde se manifesta o Espírito Santo. A água que purifica e torna inocente, o fogo que confere sabedoria.

A história do mundo, nos últimos decénios, tem sido marcada pela perda de solidez, pela fluidificação da vida e das instituições. É como se a terra sólida se transformasse em água, mas não na água que purifica, antes na água que anuncia um naufrágio. Mais uma vez os símbolos originários são chamados para dar sentido ao acontecer. É esta água que anuncia o naufrágio - ou um dilúvio - que está a reclamar a outra água, aquela que purifica e restaura a inocência. Mas no actual estado das coisas, não basta purificar, é necessário a sabedoria que só o fogo pode trazer. Este é, de novo, um tempo de água e fogo.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Inocência e prudência

Thomas Gainsborough - Study of a Sheep (1755-57)

Envio-vos como ovelhas para o meio dos lobos. Sede, pois, prudentes como as serpentes e simples como as pombas. (Mateus, 10:16)

O texto de Mateus - um único versículo, na verdade - desenha uma complexa rede de analogias para, em última análise, retratar a situação do homem no mundo social e para lhe propor um determinado modo de acção que está, ao mesmo tempo, ligado a um modo de ser. O que é de imediato visível, porém, nessa rede de analogias é que "aqueles que são enviados" são analogados com animais (ovelha, serpente e pomba) e "aqueles para o meio dos quais os enviados são remetidos" são também comparados com um animal (o lobo). Com isso, o texto sublinha de imediato a nossa condição animal e é perante ela que ele se torna significante.

A relação entre ovelha e lobo, entre presa e predador, está fundada também na analogia. O "ser como" de toda a analogia introduz uma ambiguidade na definição que reflecte uma ambiguidade ontológica. Os homens são como ovelhas ou como lobos. Isso significa um estatuto aberto na natureza humana, significa que o homem é dotado de livre-arbítrio. Nem as ovelhas são definitivamente ovelhas nem os lobos têm o destino fechado na lupinidade. E é por isso que as ovelhas, libertadas do rebanho, são enviadas para o meio da alcateia. De certa forma, todos nós somos enviados para o meio da alcateia, essa é a nossa condição.

Ao exercício da predação não é contraposto o sacrifício da presa. Pelo contrário, o texto liberta o homem da praxis sacrificial e propõe como caminho a prudência (a palavra usada para prudentes é φρόνιμοι) e a simplicidade (o termo usado para simples é ἀκέραιοι). Desta maneira, é resgatada a razão prática da filosofia grega, ao mesmo tempo que, com a analogia com a serpente, se dá a ver o seu limite. A prudência pode ser um mero cálculo da serpente e, por isso, não é suficiente para que a ovelha enviada não se transforme em lobo. A prudência deve ser incrustada na simplicidade, na pureza, na inocência. O modo de agir - ser prudente - deve ter a sua raiz nesse tornar-se inocente, simples, puro.

No mundo social, perante o eterno jogo do predador e da presa, perante o ciclo da animalidade e a visão sacrificial da existência, Cristo propõe uma ruptura onde se combina uma natureza inocente - que se inocenta - e uma atitude prudente, um ser puro e uma razão prática dele dependente, como caminho para a instauração de uma comunidade verdadeiramente humana.

terça-feira, 7 de maio de 2013

A inocência

Jean-Léon Gérôme - A inocência (1852)

A inocência é uma das temáticas mais misteriosas da vida humana. Na tradição ocidental, ela é figurada pelo estado paradisíaco, no qual o homem desconhecia o mal. Ora, segundo o mito, a entrada do homem neste mundo dá-se com a Queda. Deste ponto de vista, chegamos já ao mundo num estado de culpabilidade. Aquilo que surge então como o grande desafio é tornar-se inocente, não no sentido de retorno a um estado de inconsciência perante o mal ou de alienação pela real situação em que o homem vive. O que homem deve procurar é a inocência neste mundo e nas solicitações que ele lhe coloca. Não é fugir do mundo e abster-se de agir nele, mas tornar a sua acção isenta de culpa, inocentá-la pela intenção com ela é levada a efeito, inocentá-la por ele próprio aprendeu a inocência.

sábado, 9 de março de 2013

Autenticidade e justificação

Eugène Leroy - Adão e Eva (1968)

Naquele tempo, Jesus disse também a seguinte parábola, a respeito de alguns que confiavam muito em si mesmos, tendo-se por justos e desprezando os demais: «Dois homens subiram ao templo para orar: um era fariseu e o outro, cobrador de impostos. O fariseu, de pé, fazia interiormente esta oração: 'Ó Deus, dou-te graças por não ser como o resto dos homens, que são ladrões, injustos, adúlteros; nem como este cobrador de impostos. Jejuo duas vezes por semana e pago o dízimo de tudo quanto possuo.' O cobrador de impostos, mantendo-se à distância, nem sequer ousava levantar os olhos ao céu; mas batia no peito, dizendo: 'Ó Deus, tem piedade de mim, que sou pecador.' Digo-vos: Este voltou justificado para sua casa, e o outro não. Porque todo aquele que se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado.» (Lucas 18,9-14) [Comentário de Teresinha do Menino Jesus aqui]


A parábola enquadra-se numa dialéctica corrente dos discursos de Cristo, a dialéctica exaltação / humilhação. Esta dialéctica é um dos tópicos essenciais e, por isso, um dos que merece uma maior atenção e meditação. Deixemo-la, porém, para outra ocasião e concentremo-nos no núcleo do texto de Lucas. Quem voltará, da oração, justificado para sua casa? Valerá a pena perceber como se chega, na história lexical, ao termo justificado. A palavra portuguesa é a tradução da latina iustificatus, a qual traduz, do texto grego recebido, δεδικαιωμένος (do verbo δικαιóω). A palavra portuguesa tem uma carga semântica que necessita de esclarecimento.

Justificar significa apresentar o motivo ou a razão de um dado comportamento ou proposição. É uma estratégia de fundamentação e, ao mesmo tempo, de explicação. Significa, também, legitimar e, ainda, desculpar. Esta carga semântica complexa não deve ser deixada de lado pela opção de justificado como desculpado ou perdoado. Retome-se o vocábulo grego δεδικαιóωμένος. O que nos ensina ele? Ensina que justificar é tornar justo ou inocente, mas também livre. A humilhação do cobrador de impostos libertou-o, tornou-o justo, permitiu-lhe uma segunda inocência. A sua conduta errante, de pecador, não está legitimada, como se pode pensar a partir do uso da expressão portuguesa. Ela é ilegítima e é dessa ilegitimidade que ele é libertado e tornado inocente.

A oração do cobrador de impostos pode ainda ligar-se a uma ideia presente no vocábulo português justificado. Que diz ele? Ó Deus, tem piedade de mim, que sou pecador. Pede piedade e reconhece o fundamento, aquilo que explica, a sua conduta ilegítima. Um reconhecimento não meramente ético e moral mas também ontológico, um mostrar que tem consciência da sua própria fragilidade, da sua natureza falível, bem ao contrário da consciência farisaica. Este reconhecimento é um momento de manifestação da verdade: sou um homem frágil e falível, por isso clamo piedade. Esta verdade objectiva – a da falibilidade do homem – quando é reconhecida pela própria consciência torna-se autenticidade, e é esta que merece a justificação, o devir justo, a libertação e o tornar-se inocente.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Da inocência

Paul Gauguin - A perda da inocência (1871)

Como a primeira inocência é já tão culpada. Nela reside a sua própria perda. Como foi possível uma visão tão fruste da inocência? Como se gerou esse equívoco que a confunde com a ausência da experiência? A questão não está em evitar a acção ou a tentação, mas em entregar-se ao agir de forma que ele se torne puro. Não é a experiência que macula o homem, mas é o homem que mancha as suas experiências. O fundamental não é a inocência mas o tornar-se inocente. O problema não reside em perder a inocência mas em não a conquistar.

sábado, 12 de maio de 2012

Fractura e harmonia

Benvenuto Benvenuti - La case delle armonie celeste (1911-1913)

O sentimento de fractura que, desde muito cedo, se insinua em nós traz consigo uma exigência a realizar na vida. Essa exigência é a da reconstituição da harmonia perdida. Não sei bem qual foi o momento em que senti ter deixado o estádio ingénuo da harmonia primeira para entrar no jogo, um jogo quase desesperado, para equilibrar as partes fracturadas. No hiato entre elas insinua-se um estranho exigência de absoluto. Esta insinuação traz uma lição consigo: não mais é possível restabelecer a ingénua harmonia, esse paraíso perdido dos primeiros tempos de vida. A fractura destruiu a inocência e esta não mais é possível. O conhecimento do mal é uma etapa, então, para esse absoluto. A exigência de absoluto significa a conquista de um novo estádio de inocência, não de uma inocência inocente, mas de uma inocência que se inocentou ao viver a culpa, de uma harmonia que se harmonizou pela mediação da fractura. É para isso que todos temos de passar por esse momento em que o fruto da árvore do bem e do mal nos seduz e joga em plena vida mundana.


sexta-feira, 1 de maio de 2009

O terceiro excluído

Se penso na alma cindida, nessa divisão que me opõe a mim mesmo, nesse acontecimento em que quero o bem, mas é o mal que pratico, fico perplexo. Não são dois aqueles que encontro em mim, mas três. Um que quer o bem que o dever traz consigo, o outro que, como Paulo de Tarso, pratica o mal que sempre acabo por fazer. Mas para além deles, desses que querem em mim ora o bem ora o mal, há um outro que nada sabe do bem e do mal e que vive na luz duma inocência que se inocentou. Só nesse sinto a força que pode soldar a alma e reconstituir-me numa unidade que a vida rompeu. Na lógica que triunfou, esse é sempre o terceiro excluído. Mas será a vida uma questão de lógica?