Mostrar mensagens com a etiqueta Existência. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Existência. Mostrar todas as mensagens

domingo, 8 de janeiro de 2017

Prazer pleno

Guillermo Muñoz Vera - La cosecha (1995-96)

É no capítulo três do livro de Eclesiastes que surge a grande meditação sobre os ritmos de vida do homem. O central nesse capítulo, porém, não é o ensinamento de uma rítmica existencial mas a afirmação de que a vida merecer ser vivida plenamente: assim eu concluí que nada é melhor para o homem do que alegrar-se e procurar o bem-estar durante a sua vida; e que comer, beber e gozar do fruto do seu trabalho é um dom de Deus (Eclesiastes, 3:12,13). A rítmica existencial, que começa o capítulo, só faz sentido no âmbito da busca de uma vida feliz e realizada, realização onde se inscreve uma interpretação hedonista da existência. O ritmo do plantar e do colher não é então o do opróbrio e da desgraça mas do prazer pleno de estar vivo. E esse prazer e o reconhecimento e a gratidão pelo dom da vida.



terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Da queda

Ana Peters - A Queda (1996-97)

A tradição judaica, uma das tradições constitutivas do homem ocidental, coloca como princípio de hominização - não entendida, claro, na perspectiva científica - o mito da queda. O homem tal como o conhecemos é o resultado de uma degradação originária simbolizada, mas não descrita, na perda de Adão e Eva. É este mito que ecoa nas diversas manifestações da vida do espírito - da arte à filosofia passando pela religião -, dando-lhe um horizonte. O mito não conta apenas uma história simbólica sobre a nossa existência degradada e degradante. Traça também uma finalidade, um horizonte de toda a vida, a restauração da condição prévia à queda. O mito da queda é menos a justificação da nossa maldade, embora também o seja, do que a recordação do sentido que o homem deve dar à sua existência.

terça-feira, 6 de setembro de 2016

A metáfora da criação

Frantisek Kupka - Criação (1911-20)

Normalmente, vê-se a criação do mundo por Deus, narrada no Génesis bíblico, ou como um facto histórico (o fundamentalismo cristão ou outro), ou como uma alegoria onde se transmite, por imagens, o trabalho de Deus na criação do mundo (o cristianismo aberto à modernidade), ou como uma mera ilusão proveniente da superstição (o ateísmo). A criação pode ser vista, porém, como uma metáfora, uma metáfora utilizada para designar algo que não tem nome. 

E o que não tem nome, neste caso, é o mistério da emergência do mundo. A metáfora não diz nada acerca do conteúdo desse mistério. No entanto, ela dá-nos uma indicação. Indica-nos que esse mistério dá que pensar ao homem. Ela não nos diz nada do que se passou, mas diz-nos que isso nos interessa radicalmente. A criação, enquanto metáfora, aponta menos para uma hipotética actividade de Deus no passado e mais para uma preocupação humana sempre aberta ao futuro. A meditação dessa metáfora não é apenas estética. É também existencial. Compromete aquele que medita nela não com uma fé mas com a própria existência. Daí a sua força.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

A grande batalha

Yves Klein - La Grande Bataille

Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. Não vo-la dou como o mundo a dá. (João 14:27)

A vida é entendida, muitas vezes, através da metáfora da guerra. É compreendida como uma sucessão de batalhas. Por maiores que sejam os conflitos que um ser humano atravessa na existência, está ainda perante pequenas batalhas. A grande batalha é a da paz que foi doada aos homens, lhes foi deixada em herança. Grandes são os perigos que ela traz consigo, pois o maior dos perigos está ligado ao que é misterioso, e nada é mais misterioso do que essa paz que o homem herdou e que o mundo não compreende.

domingo, 10 de abril de 2016

O livro e a pauta

José Victoriano González - O Livro (1917)

O livro constituiu, dentro do campo da cultura ocidental, um elemento estruturante e decisivo. Este papel acabou por ocultar o verdadeiro carácter desse objecto. Esta ocultação era já pressentida no Fedro, de Platão, na crítica, que no mito narrado por Sócrates, o rei faz à escrita. Esta provocará nas almas o esquecimento, pois implicará, devido à confiança no registo escrito, a ausência de exercício da memória. A escrita e o livro, como lugar onde a escrita se concentra, acabaram por tomar um valor intrínseco. Ora, na vida espiritual o livro - seja de que âmbito for - não possui um valor por si próprio, mas enquanto objecto de mediação. O valor do livro reside na sua semelhança com a pauta musical. Esta só tem valor porque permite a interpretação. Também o livro e aquilo que ele contém são uma pauta que o leitor interpreta para produzir a música da existência, da sua própria existência.

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Quebrar a pedra

George Seurat - The Stone Breaker (1882)

A viagem é como um quebrar a pedra, um rasgar da matéria da vida. Não para as desfigurar ou aniquilar, mas para libertar o espírito que nelas se escondem e, desse modo, dar uma outra figura à existência.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Abrir brechas

Lucio Fontana - Concetto Spaziale (1960)

Pensa-se muitas vezes que a vida espiritual é o cumprimento de regras, como se o essencial da existência humana fosse a normalidade moral, essa redução da vitalidade ao preconceito social, à ideia feita, ao hábito comunitário. A vida do espírito, contudo, está muito para além disso vive noutros espaços que a moralidade não consegue frequentar. A sua natureza não é a da regra, mas de abertura de brechas por onde a luz possa passar e iluminar o caminho do viandante.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

No fluir da existência

JCM - Humanitas XI (2014)

Deixai vir a mim as crianças, não as impeçais, pois o Reino dos céus pertence aos que se tornam semelhantes a elas (Mateus 19:14).

Que semelhança deve o homem buscar para que se torne como as crianças? Não mentem as crianças? Não fazem elas o mal e, por vezes, de forma tão terrível? Por certo, e apesar do nosso tempo divinizar a moralidade da criança, não será a mentira, o egoísmo e o mal presentes em todas as crianças que os homens são convidados, por Cristo, a emular. Os homens são incitados a devir crianças para que, como elas, se entreguem livremente ao fluir da existência, reaprendam a ingenuidade de dançar, sem ideias preconcebidas ou metas a atingir, com os elementos da vida. São intimados a abrirem-se perante o mistério das coisas como o fazem as crianças. No versículo de Mateus não está em questão uma moralidade mas um modo de ser, uma forma de entrega à existência.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

A via do sonho

W. Eugene Smith - Street of Dreams. Pittsburgh, Pennsylvania (1955)

Pensa-se muitas vezes a vida do espírito como destituída de ligação ao real. Não seria mais do que um longo devaneio pela rua dos sonhos, um exercício onírico de fuga ao trágico da existência ou uma incapacidade de afirmação da vontade de poder. A verdade, porém, é que a vida do espírito nasce da atenção ao trágico da existência e do abandono de todos os sonhos que a  vontade de poder faz nascer no homem. O caminho espiritual nasce onde o delírio onírico acaba.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Olhar pela janela

Peter Turnley - Novokuznetsk, Russia (1991)

O pior que poderá acontecer é ficar a olhar a vida pela janela. Não porque haja uma diferença substancial entre o fora e o dentro, mas porque se transforma o viandante em mero voyeur, estranho a si e ao que, em si, o chamou à existência.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Sobre a memória

Sendo - Da memória (1995)

É possível que possamos simbolizar a memória pela ruína. O que resta da vida vivida é essa ruína a que damos o nome de memória. É com Platão que surge a referência a uma outra memória, aquela que a alma teria da contemplação das Ideias, essas realidades que estão para além da vida vivida, seja no plano biológico, seja no plano social. É a memória de algo que a experiência existencial não poderia nunca pôr à nossa disposição, de algo que a própria vida representa já uma ruína e uma degradação. A partir desta concepção, pode-se pensar a memória já não como uma faculdade passiva e impotente perante a vida, mera produtora de imagens da ruína do real, mas como uma faculdade activa que, entre as ruínas da vida, nos abre para o essencial, para o que é efectivamente real.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

A virtude da atenção

Henri Edmond Delacroix Cross - O naufrágio (1907)

O naufrágio representa uma das metáforas correntes para referir uma vida desperdiçada. Apesar de ser corrente - quase uma metáfora morta - ela continua a ter força e a dar que pensar. Um naufrágio pode ocorrer devido às condições ambientais (o mar e os ventos), ou a um problema na embarcação, ou a um erro humano. Também uma vida pode ser desperdiçada devido ao ambiente, aos dispositivos que escolhemos para navegar na existência, ou devido à má direcção que lhe impomos. O espírito não deve, contudo, ver o ambiente e os dispositivos existenciais como algo fora de si. Isto não quer dizer que possamos controlar tudo o que nos é exterior. Não podemos. Apenas significa que a atenção é uma virtude central na aventura espiritual do homem.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Verdade e existência

Jules Joseph Lefebvre - A Verdade (1870)

Na tradição intelectual do Ocidente, a verdade é vista ora como revelação daquilo que está oculto - essa é a perspectiva platónica que tem frutuosa aplicação na literatura, nomeadamente na literatura policial - e a verdade como adequação à realidade das representações que o homem produz, por exemplo, na ciência. Um dos momentos mais surpreendentes dos textos evangélicos é aquele em que Cristo afirma que é a Verdade, a Via e a Vida. A questão da verdade é deslocada do elemento intelectual para uma perspectiva mais global. Poder-se-á dizer que, com o Cristianismo, a verdade se combina com a vida e com o modo como a vivemos. Há uns anos atrás, dir-se-ia que a verdade tem um sentido existencial. A verdade não é assim o resultado de uma estratégia cognitiva ou a resultante da justeza das nossas imagens do real, mas uma forma de caminhar na vida que mobiliza não apenas o intelecto mas todo o ser do homem. A verdade não é uma representação mas uma presença que, por ser verdadeira, se torna realidade.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

A ordem precária

Frantisek Kupka - Composição em azul (1925)

Ontem escreveu-se aqui sobre aqueles que, não encontrando um caminho, fazem da existência uma aventura no labirinto. Esta visão, contudo, não estará ainda demasiado dependente da teleologia de Aristóteles e da crença numa causa final? Se deixarmos de acreditar numa causa final que nos move, qualquer que ela seja (emancipação da humanidade, salvação da alma, progresso moral, desenvolvimento técnico, etc. etc.), o que acontecerá? De imediato, a vida deixa de ser interpretada como caminho para um fim determinado, muitas vezes a priori. Com a queda da ideia de um caminho determinado, desaparece também o fantasma do labirinto. O labirinto é ainda um caminho, mas em versão múltipla, entrecruzada e dispersa. 

Do ponto de vista do espírito - da aventura espiritual do homem - fará sentido ter um caminho? Não é o espírito como o vento que sopra onde quer? Se o espírito, aos nossos olhos mortais, é assim, arbitrário e indeterminado, não será a vida uma contínua composição com materiais heteróclitos e dispersos, criando figurações inesperadas, desenhando constelações perecíveis, inventando fronteiras móveis que, continuamente, desenham novos e novos territórios. Talvez a ideia de caminho ainda esteja demasiado presa à mitologia do caos e do cosmos, à construção de uma ordem fixa sobre a matéria prima caótica. Não se trata, todavia, de ceder ao caos, mas de lidar continuamente com ele, configurando-o uma e outra vez, num processo sem fim. Talvez o enigma da vida esteja aí, no facto de não haver nenhum caminho, mas apenas o sítio onde se está e que apela para que lhe imponhamos uma ordem precária, que outros desfigurarão para a tornarem a  configurar.

domingo, 17 de março de 2013

A mulher que encontrou o caminho

Max Beckmann - Christ and the Woman Taken in Adultery (1917)

Naquele tempo, Jesus foi para o Monte das Oliveiras. De madrugada, voltou outra vez para o templo e todo o povo vinha ter com Ele. Jesus sentou-se e pôs-se a ensinar. Então, os doutores da Lei e os fariseus trouxeram-lhe certa mulher apanhada em adultério, colocaram-na no meio e disseram-lhe: «Mestre, esta mulher foi apanhada a pecar em flagrante adultério. Moisés, na Lei, mandou-nos matar à pedrada tais mulheres. E Tu que dizes?» Faziam-lhe esta pergunta para o fazerem cair numa armadilha e terem de que o acusar. Mas Jesus, inclinando-se para o chão, pôs-se a escrever com o dedo na terra. Como insistissem em interrogá-lo, ergueu-se e disse-lhes: «Quem de vós estiver sem pecado atire-lhe a primeira pedra!» E, inclinando-se novamente para o chão, continuou a escrever na terra. Ao ouvirem isto, foram saindo um a um, a começar pelos mais velhos, e ficou só Jesus e a mulher que estava no meio deles. Então, Jesus ergueu-se e perguntou-lhe: «Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?» Ela respondeu: «Ninguém, Senhor.» Disse-lhe Jesus: «Também Eu não te condeno. Vai e de agora em diante não tornes a pecar.» (João 8,1-11) [Comentário de João Paulo II aqui]

Este é um dos textos mais conhecidos de João e um dos marcos civilizacionais mais profundos trazidos pelo cristianismo. A partir deste momento, não há legitimidade para apedrejar alguém, seja por que razão for. Se a carga simbólica do texto tem uma dimensão cultural e civilizacional, estas, apesar de muito importantes, não serão as únicas nem as fundamentais. O que está em jogo no texto de João é, mais uma vez, o conflito entre a Lei – a Lei mosaica – e a Vida, entre o formalismo e a existência.

A Lei é utilizada, por parte dos doutores da Lei e dos fariseus, como estratégia contra a Vida, como armadilha. E é esta possibilidade da Lei servir de armadilha aquilo que mostra o que a Lei tem de frágil e de exterior, e por isso ela precisa de ser superada (no sentido hegeliano do termo). A resposta que é dada altera o ponto de vista em que fariseus e doutores da Lei tinham colocado a questão. Esta é colocada do ponto de vista jurídico e a resposta é dada com uma confrontação com a vida e a consciência. Desloca-se assim a questão da infidelidade do âmbito do direito para o da ética. Esta, contudo, não deve ser entendida como moral (conjunto de costumes que regulam a vida social) mas como forma de habitar o mundo orientada para uma vida boa. O que fica claro é que, eticamente, os acusadores não têm qualquer legitimidade para julgar e condenar.

O texto contém, assim, dois modos de não condenação. Um modo fundado no confronto ético com a sua consciência, que mostra a não legitimidade dos acusadores, pois a sua natureza é também ela corrupta. O outro modo de não condenação, radicalmente diferente, é o de Cristo. Este funda-se numa outra natureza que é essencialmente misericordiosa, pois não radica numa consciência culpada. Esta consciência não culpada e misericordiosa é o fundamento das consciências culpada, aquilo que, em alguns momentos, as levam a recuar no formalismo jurídico e a conter-se no mal que preparam, sob a capa da pena de um delito, para fazer

Nas palavras de Cristo, porém, há mais do que uma manifestação de misiricóridoa. Há uma exortação na expressão Vai e de agora em diante não tornes a pecar. O “vai” não pode ser interpretado como um mero afasta-te, vai-te embora. Significa fundamentalmente toma o teu caminho. Quando se toma o caminho, aquele que nos pertence, abandona-se o estado de errância, a ausência de norte. O “não tornes a pecar” deve ser entendido neste sentido. Porque ela toma o seu caminho – agora que o descobriu – não retornará à errância. Como é que o caminho, para esta mulher, se revela? Pela tensão gerada entre a acusação e a revelação de Cristo. No momento de maior perigo, o caminho manifesta-se e abre para uma outra dimensão que está muito para além daquilo que é meramente regulado pela Lei. Ela encontra agora o sentido da vida, o horizonte de uma vida boa.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

A soberania dos desvalidos

Anónimo românico - San Clemente de Taüll. A Mão de Deus

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Quando o Filho do Homem vier na sua glória, acompanhado por todos os seus anjos, há-de sentar-se no seu trono de glória. Perante Ele, vão reunir-se todos os povos e Ele separará as pessoas umas das outras, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. À sua direita porá as ovelhas e à sua esquerda, os cabritos. O Rei dirá, então, aos da sua direita: 'Vinde, benditos de meu Pai! Recebei em herança o Reino que vos está preparado desde a criação do mundo. Porque tive fome e destes-me de comer, tive sede e destes-me de beber, era peregrino e recolhestes-me, estava nu e destes-me que vestir, adoeci e visitastes-me, estive na prisão e fostes ter comigo.’ Então, os justos vão responder-lhe: 'Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, ou com sede e te demos de beber? Quando te vimos peregrino e te recolhemos, ou nu e te vestimos? E quando te vimos doente ou na prisão, e fomos visitar-te?’ E o Rei vai dizer-lhes, em resposta: 'Em verdade vos digo: Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes.’ Em seguida dirá aos da esquerda: 'Afastai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, que está preparado para o diabo e para os seus anjos! Porque tive fome e não me destes de comer, tive sede e não me destes de beber, era peregrino e não me recolhestes, estava nu e não me vestistes, doente e na prisão e não fostes visitar-me.’ Por sua vez, eles perguntarão: 'Quando foi que te vimos com fome, ou com sede, ou peregrino, ou nu, ou doente, ou na prisão, e não te socorremos?’ Ele responderá, então: 'Em verdade vos digo: Sempre que deixastes de fazer isto a um destes pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer.’ Estes irão para o suplício eterno, e os justos, para a vida eterna.» (Mateus 25,31-46) [Comentário de Hipólito de Roma aqui]

O texto de Mateus confronta cada um com a sua atenção ao outro. Podemos discernir nele três níveis que devem ser lidos em concomitância. O nível mais exterior tem um carácter político e social, o nível intermédio prende-se à dimensão ética e moral. O nível interior está ligado à dimensão existencial. Estes três níveis são outros tantos modos como se pode pensar e a viver essa tão estranha simbiose entre a figura do Rei e a desses pequeninos.

Na dimensão política e social, há uma compreensão da unidade profunda entre o soberano e os pequeninos. Estes são os que têm fome e sede, os que estão despidos e que peregrinam no mundo, os que estão doente ou presos. Esta fenomenologia dos pequeninos institui todo o povo numa dimensão de errância, de perda e de abandono. Isso, contudo, não significa a sua irrelevância, pois eles são o próprio Rei, são o próprio soberano e juiz. A vida social e política exige essa atenção aos pequeninos, aos que não têm voz, aos excluídos. E a razão é muito simples: quando há excluídos é o próprio soberano que é excluído. Contrariamente a outros textos, onde o poder surge na sua dimensão negativa, aqui ele surge de forma positiva como comunidade soberana dos homens, comunidade essa que, em cada um, exige atenção e reconhecimento da sua efectiva situação, exige a instituição e a norma jurídica, onde essa atenção ao outro (que é sempre o Outro) encontra um dos seus lugares.

A aridez da norma jurídica reflecte-se na norma moral, no costume tornado mandamento da consciência. A consciência ordena-nos essa atenção ao outros, cuja pequenez nos convoca a estar atentos, a abrirmo-nos à sua errância, ao seu ser desvalido. Esta errância e este ser desvalido, este abandono a que os pequeninos estão votados, é o próprio abandono e desvalimento do soberano. Ora como também cada um de nós faz parte do corpo soberano, descobrimos que também somos esses pequeninos errantes e desvalidos. A atenção ao desvalimento do outro é parte de uma norma de reciprocidade, na qual podemos descobrir a intenção ética de uma vida boa, uma vida de interdependência e de interajuda. A ajuda e a atenção ao outro faz parte da forma como habito o mundo, faço dele moradia onde os homens se possam acolher.

Por fim, esta dimensão ética remete para a dimensão existencial. Estar presente ou estar ausente. A ausência, o ausentar-se perante o outro, a fuga, é o que merece o castigo eterno. O texto convoca à atenção aos pequeninos, a todos aqueles que estão na pura errância. Essa atenção é o resultado de um estar presente e persistir na presença a que fomos convocados. Esta persistência na presença é uma modalidade ontológica, uma afirmação do ser perante aquilo que o nega. Os que se ausentam negam os outros, mas também se negam a si mesmos. O seu ser mostra-se já na modalidade do não-ser. O facto de termos nascido é uma injunção à existência, à presença perante os outros, pois nós e os outros somos portadores da presença do soberano, somos a manifestação do seu mistério.