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segunda-feira, 23 de maio de 2016

Da simbolização da experiência

Maurice Denis - Le Calvaire (La montée au Calvaire) (1889 )

Em sociedades secularizadas como as nossas tende-se a perder de vista como a simbólica veiculada pelas religiões, metamorfoseada pela arte, fornece modelos fundamentais para compreender a vida e enquadrar a experiência existencial dos homens. Atente-se no quadro reproduzido de Maurice Denis. Na ideia de calvário pensamos o sofrimento e a morte. Tendemos, porém, a esquecer que ele representa uma ascensão. Se dermos atenção a essa ideia de subida, compreendemos então que todo o ultrapassar-se, todo o ascender a uma condição não humana, se faz sob o signo do sofrimento e da morte. O sofrimento de se abandonar o que se conhece e a morte daquilo que, por hábito e convenção social, se julga ser. 

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Contrastes simultâneos

Sonia Terk Delaunay - Contrastes simultâneos (1913)

Aquilo que para a razão é um escândalo - ser e não ser simultaneamente - é para a experiência do espírito um caminho e uma orientação. Uma orientação que surge como um convite: abandona a razão como guia da experiência. Um caminho que se abre à experiência: experimentar os contrastes simultâneos que, apesar de horrorizarem a razão, nos chamam a vivê-los num para além do discurso e do pensamento.

terça-feira, 7 de abril de 2015

Designações vazias

Agnes Martin - A rosa (1964)

A pintura contemporânea tende a estabelecer uma relação arbitrária entre o quadro e a designação que lhe é atribuída. Esta arbitrariedade deriva do choque entre o que é visível e a palavra. Talvez a finalidade desta estratégia seja a de marcar a diferença abissal entre o pictórico e a sua interpretação, já que toda a denominação pode ser pensada como interpretação. O espectador, desconcertado, tem de encontrar um caminho para a experiência estética e esquecer a palavra. Isto, contudo, é apenas um dos lados do problema. O outro é a revelação do carácter vazio - um vazio de grande plasticidade - da própria linguagem, onde as palavras estão disponíveis para acolher aquilo que se possa colocar dentro delas. O que é válido para a arte é válido para qualquer forma da vida do espírito, nomeadamente para a experiência religiosa. Entre as palavras e a experiência há um abismo, o qual é ocultado por uma crença mágica nas palavras. Elas, porém, são apenas designações vazias a que cabe dar, pela experiência efectiva, conteúdo e verdade.

sábado, 4 de abril de 2015

A experiência da via

Stipo Pranyko - Altar para um agnóstico (1996)

Eu sou a via, e a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai, senão por mim. (João 14:6)

A vida espiritual confronta-se sempre com o agnosticismo. Este mais não é do que a confissão de um não saber, de ausência de conhecimento. Muito antes de João ter escrito as palavras de Cristo em epígrafe, Platão definiu o conhecimento como crença verdadeira justificada. A vida espiritual sofreria, então, de uma limitação que a colocaria na classe das crenças dogmáticas, às quais falta justificação. Não será por isso um conhecimento, uma gnose, o que, na verdade e de forma surpreendente, torna os crentes em agnósticos. Porém, há uma justificação que desfaz o hipotético dogmatismo e o concomitante agnosticismo. A crença na verdade e na vida justifica-se não por uma adesão irracional e incompreensível mas pela experiência da via, do caminho. A experiência é a mais radical justificação que uma crença pode obter. Assim sendo, a fé, como nos ensina a palavra latina fides, não é outra coisa do que o compromisso com a via, a fidelidade à própria experiência.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

O sonho como ensaio

JCM - Colour dreams (2014)

Os sonhos sempre causaram perplexidade aos homens. Viram neles uma antevisão do futuro (a natureza profética dos sonhos) ou o sintoma de um trauma do passado (a psicanálise freudiana). Esta relação do sonho com a temporalidade acaba por esconder uma outra não menos importante, a relação com o espaço físico. O sonho é a experiência onde os homens ensaiam uma suspensão das leis da natureza, vivendo através deles aquilo que não é permitido pelas leis físicas que governam os corpos. A pergunta que nos deveria ocorrer seria não sobre o que irá acontecer no futuro ou sobre aquilo que aconteceu no passado e está oculto no inconsciente. A pergunta decisiva sobre o sonho deverá ser antes esta: por que razão temos necessidade de ensaiar oniricamente uma vida fora dos constrangimentos impostos pelas leis da natureza?

domingo, 13 de outubro de 2013

Folhas mortas

Egon Schiele - Árvores Outonais (1911)

Tudo o que se passa na natureza pode constituir-se em símbolo. Se uma metáfora ou uma metonímia introduzem uma certa equivocidade no discurso e no pensamento vulgares, o símbolo aumenta exponencialmente esse grau de equívoco. Em primeiro lugar, porque os símbolos dão que pensar, convocam o logos, para, logo de seguida, o humilharem, ao tornar evidente a impotência da razão para lidar com eles. Em segundo, dirigem-se à experiência viva do homem, suscitando caminhos, abrindo veredas, estabelecendo inesperadas pontes entre margens que a experiência corrente nunca ligaria. 

Olho as folhas mortas que se desprendem das árvores, quando chega o outono. É o ciclo da vida. Mas se tomar a queda das folhas como símbolo, liberto-me da experiência meramente biológica da morte e renascimento da natureza, para poder entrar no reino do espírito. As folhas das árvores que caem simbolizam tudo o que precisamos de abandonar. As nossas crenças, os nossos desejos, os nossos prazeres, as nossas dores, os nossos objectivos, as nossas ilusões e os nossos sonhos. Tudo isso não passa de folhas mortas. Despidos, entramos no inverno, nessa noite escuro que espera o viandante que caminha para a luz.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Da experiência pura

Georgia O'keeffe - Abstracción, rosa blanca n. 2 (1927)

Vê-se muitas vezes a experiência como um princípio de contaminação daquilo que é puro, como fonte de mácula que lança uma sombra sobre a brancura da inocência primordial. Será, no entanto, esta inocência tão pura e imaculada? Será a abstinência daquilo que a vida nos propõe o sinal de uma perfeição? Não será antes a forma como agimos e como nos entregamos às diversas experiências existenciais que decidem da pureza e inocência destas? Não é a abstinência que nos torna puros, mas nós que tornamos, ou não, puras e inocentes as experiências a que nos entregamos.