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terça-feira, 19 de setembro de 2017

Água que corre

Paula Modersohn-Becker - Landscape with Marsh Channel (1899 )

Como o fogo, também a água que corre exerce um grande fascínio sobre o espírito do homem. Ficar a ver passar as águas de um rio conduz os homens a uma experiência muito arcaica. Não é a antiguidade da experiência, porém, que a torna fascinante, mas o jogo de espelhos que ela opera. O espírito olha o fluir da água e reconhece-se a si mesmo. O rio de Heraclito é já uma solidificação dessa experiência, uma tentativa de racionalizar a experiência da fluidez do próprio espírito humano, mas este, como a água, recusa-se ao estado sólido e logo escapa do contorno da figura que o prende e parte em busca de si mesmo, para além das múltiplas figuras que vai tomando.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Sem forma nem figura

Jacint Salvadó - Informel (1959)

A vida do espírito, nas suas diversas manifestações, é fluida, sem contornos definidos, por vezes parece um lago calmo ao entardecer; outras, um rio caudaloso na força do meio-dia. É o terror sentido perante a fluidez e o informal que leva os homens a projectar sobre ela esta ou aquela figura, a atribuir-lhe esta ou aquela forma. Ela, porém, nunca se conforme e irrompe ora selvagem ora murmurante, destruindo incessantemente as formas com que o nosso medo a tenta cobrir. Ela, a vida do espírito, é o que não tem forma nem figura. É apenas um puro fluir.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Metamorfoses

James Whistler - Nocturne: Blue and Silver-Cremorne Lights (1872)

Há uma verdade à luz do dia e uma outra à luz da noite. Não são apenas as coisas que sofrem metamorfoses, que se transformam naquilo que não são. Também a verdade é itinerante, tomando sempre novas figuras. Os homens são tentados a contrariar os seus sentidos, em crer numa imutabilidade eterna da verdade. Esta, porém, sofre de uma inquietação estrutural e nunca se reconhece a não ser nesse acto de se metamorfosear.

sábado, 7 de maio de 2016

A elasticidade da vida

Umberto Boccioni - Elasticity (1912)

Podemos sempre pensar que a vida quotidiana, com o seu cortejo de necessidades, logros e submissões, é um exercício contínuo de deformação, no qual as forças exteriores se conjugam para distorcer a figura humana. A vida espiritual, seja qual for o seu âmbito, é a prova da elasticidade do indivíduo, a propriedade de restaurar na sua forma originária o que vida deformou e tornou disforme. Se esta esta vida espiritual, porém, estiver completamente morta, o destino do disforme é a monstruosidade.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Em configuração

Joost Schmidt - Estudio de una figura (1930)

Chegar à sua própria figura, configurar-se, é o destino daquele que foi lançado na vida. A vida espiritual dos homens não é outra coisa senão uma preparação da sua figura, um conjunto de ensaios e erros até que, inopinadamente o rosto, o seu verdadeiro rosto, brote na luz da clareira. Configurado, o viandante lança-se de novo ao caminho. Novas configurações o esperam.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Perder a figura

Albert Gleizes - Transfiguração (1943)

Se se pensar a vida espiritual como transfiguração, não basta pensar esta como uma mudança de figura, como a aquisição de novas configurações. É preciso pensá-la na sua radicalidade semântica, como um ir para além de qualquer figura, como um perder a figura. A vida do espírito é um caminho para além de toda e qualquer figuração.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

No magma umbroso

Fernando Lerín - Sem título (1985)

No magma umbroso da vida estão contidos todos os possíveis. O lento e doloroso trabalho do espírito acabará por retirar uma e outra figura (um deus, um poema, um quadro, um rapto místico, uma sinfonia), num processo secreto, inesperado, que traz consigo a luz que iluminará por instantes o caminho do viandante.

sábado, 23 de novembro de 2013

A configuração de si

Albert Gleizes - Figura (1914)

Talvez toda a viagem - e a viagem não é outra coisa senão a vida - a que o viandante se propõe seja um trabalho de configuração. Configurar significa dar forma a qualquer coisas, dar-lhe, literalmente, figura. Ao avançar na via, ao inventar a senda por onde caminha, o viandante está, muitas vezes sem o saber, a traçar uma figura, a configurar. A configurar o quê? Ao caminhar o viandante tece a sua própria figura. Não aquela que ele imaginou ser a sua, nem aquela que ele desejou que fosse, mas a que o caminho - com as suas graças e, também, as suas desgraças - lhe impôs. A figura que a sua liberdade se destinou a traçar para si.