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segunda-feira, 31 de julho de 2017

A luz

Odilon Redon - L'Homme ailé ou L'ange déchu (1880)

A ambiguidade do título do quadro de Redon, independentemente das razões que assistiram ao pintor, marca um dos traços da nossa cultura. O desejo de se elevar e o temor de cair. O destino tanto de Ícaro como do anjo decaído está relacionado com a luz. Um aproxima-se tanto da fonte da luz, o Sol, que as asas derretem. Outro, Lúcifer, o anjo da luz, não resiste à desmedida de ser portador da luz. Em cada uma destas figuras, o espírito ocidental exprimiu a dificuldade de se relacionar com a Luz. Não por acaso, João, o evangelista, escreveu: a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam.

terça-feira, 11 de julho de 2017

O acrobata

Marino Marini - Acrobats (1960)

Pensamos as acrobacias como exercícios de equilíbrio fundados na destreza, agilidade, força e risco. Vale, porém, a pena fazer a arqueologia da palavra. Descobrimos a sua origem no vocábulo grego akróbatos, aquele que anda em bicos dos pés. Há uma certa continuidade de ideia. Andar em bicos dos pés implica equilíbrio. A destreza física do equilibrar-se acaba, todavia, por nos esconder o desejo que se esconde nessa estranha forma de andar. Tem duas características. Por um lado, é uma diminuição da base de apoio do homem, diminuindo o contacto do corpo com a terra. Por outro, é um elevar-se em direcção ao céu. Na essência da acrobacia há, deste modo, um desejo de elevação e de superação da condição terrestre do homem.

sábado, 24 de junho de 2017

Fugas

Jackie Greene, Seminole Park. Model Sailboat Race (1974) 

Há uma tendência para perceber como compensação actividades como aquela que a fotografia nos dá a ver. Não podendo participar em regatas com veleiros a sério, compensa-se a inclinação com corridas de modelos. Se se pensar um pouco mais talvez se faça uma constatação surpreendente. Mais que uma compensação este tipo de actividades mostra-nos a natureza da actividade humana, de grande parte da actividade humana. Na verdade, esta não passa, na generalidade dos casos, de puro divertissement pascaliano, fuga à sua própria e insuportável realidade. A natureza e a dimensão dos modelos são irrelevantes.

sábado, 8 de outubro de 2016

O centro negro

Albert Gleizes - O centro negro (1925)

O núcleo central do homem, aquilo que há de mais fundo nele, pode ser compreendido com um centro negro. Não porque  seja algo sombrio ou implique uma relação com o negativo. Pelo contrário, o excesso luminoso que o constitui é incompreensível para o homem. Ao tentar olhá-lo de frente fica cego. Olha para mas tudo o que apreende é a mais negra escuridão.

sábado, 6 de agosto de 2016

O filho pródigo e o homem moderno

Giorgio de Chirico - Ritorno del fliglio prodigo (1965)

Na parábola do filho pródigo (Lucas 15:11-31) há uma equivocidade central que tem o efeito surpreendente de transformar em filho perdido não aquele que dissipou os bens herdados mas o que se manteve fiel à casa paterna e à regra nela existente, isto é, que se manteve fiel à tradição formal. O reconhecimento é dado ao que experimentou o peso e as consequências da autonomia e se reencontrou depois de se ter perdido. Aquele que nunca se perdeu, o que se manteve fiel à forma, fica preso no ressentimento, incapaz de lidar com as mudanças introduzidas pelo tempo. Esta parábola é fundamental para podermos compreender por que motivo a modernidade, com todas as suas características, emergiu no âmbito do cristianismo. O filho pródigo é o arquétipo ancestral do homem moderno, o que faz de cada um de nós filho pródigo em busca de si mesmo.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

A casa do Homem

Felix Vallotton - In the Shadow (1916)

Pensamos, em primeiro lugar, a sombra como o lugar do mal. Este não suportaria a sua exposição à luz, que o denunciaria, e recolhe-se na sombra para exercer o seu império. Num segundo momento, constatamos que a pura luz seria insuportável mesmo para o bem. A intensidade da luz tornar-nos-ia cegos. Por fim, percebemos que a sombra é o lugar do homem, tanto para o mal como para o bem. Nem as trevas absolutas nem a pura a luz, mas a sombra. É neste registo sombrio que uns caminham de claridade em claridade, mas sempre sob a protecção da sombra, e outros vão de escuridão em escuridão, mas ainda e sempre na forma de sombra, cada vez mais densa. A sombra é a casa do homem sobre a Terra.

domingo, 27 de março de 2016

A ressurreição

El Greco - Ressureição (1605-1610)

A pintura de El Greco permite perceber uma dimensão da ressurreição do Cristo para além das leituras literais correntes. O que se vê é a elevação de Cristo acima das contingências temporais e mundanas, as quais estão representadas pela confusão e pelo espanto que se apodera dos restantes figurantes da cena. Ressuscitar é então um elevar-se acima das condições do espaço e do tempo, às quais estamos submetidos e são o limite das nossas possibilidades. A ressurreição de Cristo surge como um desafio aos limites e uma ultrapassagem das condições mundanas do homem.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Da condição humana

Odilon Redon - O prisioneiro

Todos as pessoas nascem livres e iguais... Assim começa a declaração dos direitos do homem. Talvez fosse mais ajustado dizer Todas as pessoas nascem igualmente prisioneiras. O que se ganharia com isso? Trocar-se-ia uma liberdade dada como um facto, por um processo de libertação. A vida espiritual não é outra coisa senão o processo pelo qual o espírito quebra as cadeias que herdámos ao nascer. A liberdade não é um facto, mas um acto onde o homem, pela vida espiritual, se liberta da servidão - a dura necessidade imposta pelo corpo - que o nascer traz consigo.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Antropometria

Yves Klein - Antropometrias (1960)

Há palavras que nos fazem parar para as olhar bem dentro e tentar descobrir o seu sentido e o que nele se oculta. Uma palavra como aquela que dá título a uma série de trabalhos de Yves Klein, antropometria, faz-nos pensar. O que se pensa nela? A submissão do homem a um metro, a uma medida que se lhe impõe e que o submete ao jogo das comparações? Se meditarmos sobre essa possibilidade logo descobrimos que ela talvez seja o mal menor. Pior seria pensar a antropometria como a ideia sofística de que o homem é a medida, o metro, com que tudo se deve medir. Pior do que ser submetido a uma medida é ser a medida de todas as coisas.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Jardim e utopia

Pierre Bonnard - O grande jardim (1898)

Poder-se-á pensar que a raiz da propensão utópica no mundo ocidental se encontre na República platónica. O livro de Platão, porém, é demasiado abstracto para incendiar a imaginação popular. É no Génesis bíblico que encontramos o fundamento dessa propensão. O Jardim do Éden, esse lar primeiro do homem, não é apenas o modelo de todos os jardins que o engenho do homem ocidental constrói, é o objecto perseguido em cada utopia que ele desenha. Estas utopias, tão diferentes entre si, não são mais do que a aspiração do filho pródigo ao retorno à casa paterna, ao lar originário.

domingo, 21 de junho de 2015

Condição lunar

Georges Rouault - ... ao chegar a noite, saiu a lua (1930)

O homem é a lua sobre a terra. Como ela, ele pode reflectir uma luz cuja intensidade o ultrapassa e cuja origem está fora e muito acima dele. Esta sua condição lunar acentua-se quando a luz que o ilumina é interceptada e ele fica na escuridão. Também nessa hora ele é como a lua, é lua nova e às trevas ele tem o condão de acrescentar outras trevas.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Filhos pródigos

Aristide Maillol - L'enfant prodigue (1889)

Por vezes surge a pergunta: quem é o viandante? A resposta é muito simples. O viandante é o filho pródigo que procura a casa onde nasceu, que busca acolher-se ao lar e à pátria onde pertence. Na verdade, cada um de nós é um filho pródigo e, por isso, está a caminho de casa. Cada um de nós é um viandante.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Os quatro elementos

Ivonne Sánchez Barea - Aire I (1997)

A velha doutrina dos quatro elementos - terra, água, ar e fogo - tinha, na sua ingenuidade e inocência míticas, um potencial de descrição da realidade mais elevado do que aquilo que se pensa hoje em dia. Certamente, esse potencial não estava ligado a uma descrição física do universo, mas a uma descrição do homem, dos seus estados múltiplos possíveis. Não se pode dizer que esses elementos caracterizassem diversas formas de espírito humano, mas antes que seriam metáforas que designavam formas de ser que continham tanto o corpo como o espírito. Fundamentalmente, são metáforas das possíveis metamorfoses psicossomáticas, no sentido grego dos termos presentes nesta palavra, pelas quais pode o ser humano passar,

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Do mediador

Vincent Van Gogh - Roots and Tree Trunks (1890)

Quantas vezes o homem se julga uma folha a levitar, como se o seu domínio fosso o do alto? O império do homem, porém, é o do meio, aquele que fica entre o céu e a terra. Por isso, ele precisa do tronco e das raízes. Não apenas porque a sua natureza assim o exige, mas porque o céu e a terra precisam de um mediador, daquele que, na sua viagem, os une, estabelecendo a ponte que une aquilo que está afastado.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

O elo da aliança

JCM - Mitologias (o arco da aliança) (2014)

Quando o homem descobriu o arco-íris como símbolo da aliança entre os homens e a divindade talvez tenha compreendido uma outra coisa. Talvez tenha compreendido que, na sua multiplicidade, o homem é o próprio arco-íris, esse elo que estabelece a relação entre as forças da terra e os poderes do céu. E fá-lo-á  tanto mais eficazmente quanto mais frágil e vazio ele for, tão frágil e vazio quanto o arco-íris.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Puras silhuetas

Man Ray - Silhouette of Lee Miller, Paris (1930)

Entre as trevas que se temem e a luz que não se suporta, repousamos na sombra como quem encontra o compromisso certo que permite a continuação da vida. E tudo o que somos, pensamos, fazemos e sofremos vem marcado por esta condição sombria, por esta mistura que nos torna em puras silhuetas.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

O imperativo musical

Ferdinand Schmutzer - Vienna (1901)

Escondestes estas verdades aos sábios e inteligentes e as revelaste aos pequeninos. (Mateus, 11:27)

O que solicita a música ao espírito do homem? Que ele diminua, que se torne pequenino. Que o homem se torne pobre em espírito! Eis o imperativo musical. A música, como se fosse a emanação de um outro mundo, não se dirige à razão, mas ao que está acima dela e quer tornar-se o próprio do homem, a sua propriedade, a sua natureza.

sábado, 28 de junho de 2014

O caminho do meio


Erguer-se, tornar-se flexível perante os elementos, resistir quando tudo se desfaz. Enraizar-se na terra funda e crescer para os céus. Assim é o homem, o que está sempre a meio caminho, voz da mediação, o terceiro que liga o que está em baixo ao que está em cima. O que está a meio caminho é também aquele que toma o caminho do meio.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

A sombra de uma sombra

Hans Baumgartner - Vor dem Arbeitsamt, Zürich (1935)

Mais que um rasto deixado pela ocultação da luz, a sombra é um sinal, um símbolo. Sinaliza o homem e simboliza a sua condição. Não será, desse modo, a sombra de uma sombra? Na sombra revela-se não apenas aquilo que há de sombrio no homem, mas a sua natureza intermédia, a de não ser nem pura luz nem pura treva. Uma sombra deixado como rasto. Por quem?

quarta-feira, 23 de abril de 2014

O alfa e o ómega

Édouard Boubat - Paris, France (1962)

Os termos alemães Urmensch e Übermensch poderão ajudar-nos a compreender um dos elementos estruturais da nossa cultura. No entanto, não devemos traduzir Urmensch por homem primitivo ou pré-histórico, nem Übermensch por super-homem. Urmensch pode ser visto como o homem primordial, aquele que é o paradigma de toda humanidade e que está presente no fundo de cada ser humano. Por seu turno, o Übermensch ainda é o homem, mas, ao mesmo tempo, é mais que humano. Não há uma diferença entre o Urmensch e o Übermensch, embora para cada homem em particular, cada ser humano empírico, eles constituam dois pontos diferentes da viagem. Um, o homem primordial, é o ponto de partida, o outro o ponto de chegada. A tradição religiosa do Ocidente, o cristianismo, está toda ela aqui. Um é o alfa e outro é o ómega. Nessa tradição, o Cristo é, ao mesmo tempo o alfa e o ómega, o Urmensch e o Übermensch, o início e o fim do caminho.