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segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Da ociosidade

Edward Burne-Jones - Pilgrim at the Gate of Idleness (1884)

Para os gregos o ócio era a condição de possibilidade da filosofia. Sem ele não seria possível uma vida espiritual efectiva e fecunda. Há um momento, porém, talvez ainda na Idade Média em que o ócio emerge como um inimigo dessa mesma vida espiritual. A ociosidade é retratada como uma donzela sedutora, tal como, muitos séculos depois, Burne-Jones, inspirado no Romance da Rosa, a retrata.  O peregrino tem de resistir à sedução do ócio para poder continuar a viagem. A acção ganhava assim uma preeminência, na vida espiritual, sobre a contemplação. O mundo moderno estava à porta. Lentamente, mas de forma inexorável, o peregrino tornou-se em turista ou em caixeiro-viajante.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Da janela e da porta

Raoul Dufy - Open Window (1928)

A janela é um lugar de transição entre o mundo interior e o mundo exterior. Como metáfora de uma fronteira é, todavia, diferente da porta. A porta convida ao exercício da entrada e da saída, ao jogo da acção, à mudança contínua entre mundos. A janela, por sua vez, traz consigo uma dimensão mais espiritualizada. Apela à contemplação. E é nela que o viandante encontra a viagem mais difícil e a que contém os maiores perigos. 

quinta-feira, 24 de março de 2016

Da periferia

Pierre-Albert Marquet - Arredores de Paris (1904)

Aquele que escolhe o caminho da contemplação procura a periferia e não o centro. Ser periférico, estar no arrabalde. A vida do espírito é assim um exercício de descentramento e de abandono de si. A humildade é o lugar da contemplação. A glória, o da coisa contemplada. Até que contemplado e contemplador sejam um e único, até que não haja mais periferia nem centro.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Uma mesma realidade

Lima de Freitas - O Contemplador de Mundos (1997)

Um dos passos fundamentais na vida do espírito é a compreensão do equívoco que separa contemplador e coisa contemplada. Esta dualidade funda-se na que opõe produtor e contemplador. Na verdade, em qualquer área da vida do espírito, aquele que produz, aquele contempla e a coisa contemplada são uma mesma e única realidade, fruto do acto de produção que é ao mesmo tempo um acto de contemplação ou vice-versa.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

O bosque obscuro

Valentín Albardíaz - Bosque Oscuro VII (1994)

Na Idade Média ainda era possível descrever a experiência mística a partir da metáfora do bosque deleitoso. Os prazeres que se abriam aí à experiência da humanidade foram-se, com o advento e progresso da Idade Moderna e a propensão desta para a acção, tornando cada vez mais estranhos. O apelo a uma vida que esteja para lá da acção, uma vida de reflexão e de contemplação, implica ainda, nos dias de hoje, a entrada no bosque, mas de um bosque obscuro, tal a desconfiança que tudo isto provoca na mentalidade dos homens modernos.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

O sonho

 Franz Marc - O sonho (1912)

O sonho, o que fazer com ele? Para além de visão profética do futuro a acontecer ou de forças pulsionais inconscientes que, motivadas por um passado traumático, se revelam, o sonho é uma pura presença que vale por si mesma e não tanto como uma manifestação de um passado realizado ou de um futuro a acontecer. Como um quadro, um poema ou uma sonata, o sonho dá-se a fruir como um objecto estético frágil e efémero, uma combinação momentânea do espírito, que, inquieto, logo sopra noutra direcção. Exige não uma terapia ou uma acção preventiva, mas a mais pura das contemplações.

sábado, 31 de outubro de 2015

A terapia da acção

Pablo Picasso - Contemplación (1904)

A contemplação não é propriamente o oposto da acção. Agir arrasta sempre consigo uma qualquer dor. E esta dor transforma-se numa melancolia, a melancolia da acção. Quando a melancolia se torna insuportável, a contemplação emerge como a terapia da acção.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Fechar e abrir

Alfonso Bonifacio - A traves de la ventana (1995)

Quando pensamos em janelas somos levados por considerações acerca da sua utilidade ou do seu valor estético no enquadramento do edifício que as alberga. Não pensamos - ou pelo menos não pensamos de imediato - que elas resultam de uma espécie de contrato entre entre o espaço privado e o espaço público, entre a intimidade e a publicidade. Esse contrato, de tão difícil negociação, responde, na verdade, a uma necessidade do espírito humano, a um ritmo da vida espiritual. A vida deve ser um balanceamento entre o dentro e o fora, entre o íntimo e o público, entre a reclusão meditativa, secreta e íntima, e o mergulhar activo no mundo que está para além reclusão doméstica. A janela é, deste modo, um símbolo da nossa condição, ao ter o poder paradoxal - paradoxo presente em todos os símbolos - de nos fechar e de nos abrir ao mundo.

domingo, 26 de julho de 2015

A solidão no monte

Henri Matisse - The Sorrows of the King (1952)

Mas Jesus, sabendo que viriam buscá-l'O para O fazerem rei, retirou-Se novamente, sozinho, para o monte. (João 6:15)

Platão ainda viveu a ilusão do Rei-Filósofo, a possibilidade de compreender o poder como o lugar da justiça e do bem. Cristo, porém, não tem qualquer ilusão. Perante a possibilidade de ser aclamado rei, retira-se para a solidão do monte. Este gesto de recusa do poder não é importante apenas para compreender a figura do Cristo. É decisivo para se perceber a natureza do poder. Mais decisivo, contudo, é aquilo que é contraposto à ocupação do poder, a solidão no monte. O que significa isso? O monte simboliza a possibilidade de ver de cima, de compreender, de perscrutar o horizonte, de contemplar. A solidão do monte diz-nos que, para o homem, a contemplação é o bem mais precioso, infinitamente mais precioso do que o poder.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Aprender a quietude

JCM - Time on space (2008)

Podemos pensar que a viagem espiritual é como um mergulho nas águas inóspitas do oceano. Isso, porém, é uma ilusão fundada no voluntarismo que tomou conta da nossa cultura. Na verdade, a viagem espiritual é antes um aprender a estar quieto e silencioso, um aprender a deixar que o espírito se derrame sobre si, como as águas do oceano se derramam sobre as velhas rochas, para que, lentamente, uma vida nova cubra a pedra rude com um verde belo e vigoroso.  

terça-feira, 19 de maio de 2015

Um terrível fascínio

Daniel Vázquez Díaz - A fábrica adormecida (1920)

O mundo como fábrica. Nesta metáfora nós encontramos a apoteose de uma civilização baseada na pura acção. Melhor, numa acção degradada já em mera fabricação de artefactos para serem dados ao consumo. O acto de fabricar exerce sobre os homens um terrível fascínio. E é nesse fascínio que o homem aliena a sua natureza contemplativa, onde toda a acção é suspensa e o homem entrega-se à escuta da Voz que chamou por ele.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Repouso e movimento

André Bauchant - Le repos au bord de la route (1932)

Talvez uma das mais fundas e inexplicáveis ilusões da espécie humana resida na distinção, ou mesmo oposição, entre o repouso e o movimento. Esta distinção está na base, por exemplo, da diferenciação entre a acção e a contemplação, entre Marta e Maria. Aquilo que o viandante aprende na viagem, porém, diz-lhe outra coisa, diz-lhe que se deve mover como se estivesse em repouso e repousar como se movesse. Diz-lhe que deve agir contemplando e contemplar como a forma mais elevada de acção. Diz-lhe que Marta e Maria não são duas irmãs, mas apenas uma e a mesma pessoa que acolhe, de múltiplas maneiras, o Cristo em sua casa.

sábado, 5 de julho de 2014

Naturezas mortas

Horst P. Horst - Classical Still Life - circle, disk, bust (1937)

Nunca pensamos suficientemente o sentido da expressão natureza morta. Não se trata apenas da representação de objectos inanimados. Neles capta-se, neste nosso mundo tão dado à acção, ao movimento e à mobilização, um repouso essencial. É como se as naturezas mortas fossem um sinal que nos dissesse que, para além das aparências móveis tocadas pela inquietação, a realidade permanece imóvel, entregue à mais pura quietude contemplativa.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Entrar no bosque

Piet Mondrian - Bosque (1912)

Entrar no bosque é deixar o mundo da vida activa. Não se trata de uma viagem turística ou de uma mera transição entre reinos. O bosque espera aquele que, solitário e esquecido dos interesses humanos, procura a palavra que na eternidade chamou por ele. Ao entrar, o silêncio toma conta do seu coração e todo o seu ser é, nessa hora, um puro acto de escuta.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Da realização do real

Albert Gleizes - Contemplação (1944)

Um estranho equívoco apoderou-se da ideia de contemplação. Pensa-se que é uma alienação do real, uma absorção do ego em si mesmo ou em algum objecto que o fascina e que, nesse fascínio, não é mais do que a projecção desse ego. A contemplação, porém, pouco tem a ver com os desvarios do ego. Contemplar é o encontro de duas presenças que, nesse instante, se tornam numa pura realidade. Não é uma alienação, mas, no verdadeiro sentido da palavra, uma realização. Na contemplação, a realidade realiza-se, torna-se efectiva, torna-se real.

domingo, 5 de janeiro de 2014

Abrir caminhos

Ferdinand Hodler - Triunfo da técnica  (1897)

Talvez fosse de bom tom afirmar que a técnica esmaga o homem, que este fica preso no artifício dos dispositivos que inventa para tornar a vida menos pesada. Mas haverá ainda homem se o despojarmos de todo e qualquer dispositivo técnico? Não é já a linguagem uma prótese técnica? Pensa-se, por vezes e não sem ingenuidade, que meditar e contemplar seria entrar num mundo não técnico, num mundo desprovido de dispositivos e próteses. Mas a mais singela meditação ou a mais profunda contemplação são fruto de um artifício técnico, como se o acesso ao "não técnico" exigisse a mediação da técnica, dos dispositivos e próteses que, pertencendo ao mundo dos objectos mecânicos ou ao mundo das técnicas do espírito, abrem caminho por entre as limitações da condição humana.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

A verdade de si

Caspar David Friedrich - Homem e mulher contemplando a Lua (1820)

Na contemplação de um objecto, não é a verdade do objecto contemplado que se revela, mas a do próprio contemplador. Não que os objectos ou o mundo sejam um espelho, mas o facto de alguém escolher este ou aquele objecto para contemplação é uma autêntica epifania daquilo que é. Revelo a minha verdade nos objectos que escolho para olhar e na forma como o meu olhar paira sobre eles. 

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

O silêncio da presença

Filippo Tommaso Marinetti - Action (1915-16)

A acção tornou-se, com a Modernidade, o elemento central da cultura ocidental. Foi ela que, juntamente com a ciência, permitiu o espantoso desenvolvimento técnico e as formas de vida civilizada que são as nossas. Foi esse triunfo da acção que permitiu a glória de uma forma artística como o romance ou, mais tarde, o cinema. A acção com os seus resultados tem, todavia, um brilho tão intenso que não nos permite perceber que existe, para além dela, um reino que é tão ou mais importante para o homem quanto o é o da acção, o reino da contemplação. Esta não é uma mera suspensão do movimento e da mobilização das nossas forças. Contemplar não é tão pouco pensar, ainda uma forma de agir. Contemplar é um tornar-se presente, em silêncio, perante o mistério da vida e do ser. E foi este espaço silencioso onde o sentido se torna presente que a acção matou. Foi o silêncio da presença que desapareceu.

domingo, 6 de outubro de 2013

Fora do quarto encantado

Carlo Carra - La Camera Incantata (1917)

Muitas vezes a vida espiritual, aquela que se funda na contemplação, é vista, na nossa moderna civilização técnica, como uma fuga mundi, um encerrar-se do self num quarto encantado. Isso, porém, é apenas um desvio à verdadeira vida espiritual, uma fuga não ao mundo mas às injunções do espírito. A vida espiritual exige a plena atenção ao que nos solicita e a pura presença perante o acontecer. Ela só é possível quando se quebra o encantamento que encerra o sujeito no quarto encantado, sem ceder à tentação do activismo, que a mobilização, um dos elementos centrais da nossa civilização, impõe ao homem moderno.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Olhar o mar

Georges Lemmen - Beach at Heist (1881-82)

Nestes dias de Agosto sento-me virado para o mar e deixo que as cores cheguem até mim. No oceano encontro todo o mistério do ser, a sua profundidade, o perigo que há nele, a bênção para quem o sabe navegar. Nessas horas, é impossível não crer em Deus, é impossível não ver no barco que passa ao longe um sinal que o Altíssimo envia aos pobres homens perdidos sobre a Terra.