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terça-feira, 28 de abril de 2015

Os dias frios

Lucien Lévy-Dhurmer - Bruxelas, sob o efeito da neve (1900)

São os dias frios os mais propícios para o espírito se recolher dentro de si. A exuberância do calor é substituída pela austeridade que o frio traz e nos leva a centrar no mundo interior. Libertos da distracções que o tempo quente sempre exige, entregamo-nos à mais pura das asceses, aquela que nos leva ao silêncio e deixa falar em nós a voz que nos chama.

sábado, 6 de outubro de 2012

A condição animal

Amparo Segarra - Descanso y Trabajo (años 70)

A vida do espírito assenta num sagaz equilíbrio entre o descanso e o trabalho. Os gregos antigos descobriram no ócio a virtude que lhes permitia dedicarem-se ao exercício da filosofia, à actividade espiritual. Isto é tanto mais sintomático quanto a pólis grega é o centro de uma intensa actividade pública. O mosteiro medieval beneditino vai encontrar - na sigla que o resume: ora et labora - o equilíbrio para que a vida espiritual floresça. Só a sociedade moderna, marcada pelo triunfo da burguesia sobre a aristocracia, vai desprezar o ócio, o espaço para o livre desenvolvimento do espírito. Nos dias de hoje, a ideologia triunfante é a da pura submissão da vida dos indivíduos ao trabalho e à acção. O resto, se o houver, é dedicado à distracção, ao mais puro divertissement, para usar uma expressão de Blaise Pascal. O triunfo da economia e da visão burguesa do mundo pode representar a vitória do progresso tecnológico e material, mas significa, ao mesmo tempo, o triunfo da mais aviltante subjugação do homem às suas necessidades e desejos materiais. Pela primeira vez na história da humanidade, o homem rege-se pura e simplesmente pela sua condição animal.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

A luz que oriente

Um dia de dissipação. O espírito arrastado pelo turbilhão dos devaneios, uma distracção contínua, uma impossibilidade de ir para o essencial. Um dia de seca e de aridez, um dia desperdiçado, um dia escuro e afastado da luz, de qualquer luz, por mais pobre e sumida que fosse. Mas este é apenas mais um dia entre os muitos onde a vontade se arrasta impotente, e nessa impotência se entrega à luxúria desenfreada do devaneio. O devaneio nasce do fascínio que certas coisas exteriores exercem sobre a imaginação, impedindo o espírito de operar. Mas por que será tão frágil o meu espírito, tão incapaz de resistir à tentação? É um espírito perdido, abandonado nos baldios da terra, sem rota nem estrela polar. Ainda virá uma luz que o oriente?

domingo, 27 de abril de 2008

Sem Pátria

O dia passou e eu passei com ele preso ao tempo que corre. Sentado, perdi-me num mar de inutilidades, pequenas servidões a que o hábito me verga, incapaz de um gesto libertador. O coração sonolento deixou-se arrastar e a vontade, frágil vontade, foi impotente para marcar um rumo. Assim caminha o exilado na terra que não conhece, umas vezes vai por aqui, mas logo muda de direcção, recua e procura outro caminho, para, passado instantes, se desgostar da nova senda e procurar outra e mais outra, como se não tivesse pátria para o acolher.

terça-feira, 22 de abril de 2008

A alienação da vida ordinária

A dificuldade maior reside em viver a vida ordinária sem que esta não seja a mais pura das alienações. Os fenómenos da vida corrente, as preocupações do trabalho, as exigências da vida partilhada com outra pessoa, a atenção ao destino dos filhos, as pequenas e grandes paixões que a vida foi semeando no caminho constituem-se como formas de desatenção e de perda. O fundamental não será construir uma máscara sólida e um centro racional de ataque às solicitações da existência, o fundamental será encontrar o caminho que permita estar atento ao essencial, mesmo quando se está comprometido na vida quotidiana. Mas o espírito é tão frágil que a cada momento sucumbe nas solicitações da vida, e de cada pequena coisa faz um obstáculo intransponível para o caminho para si mesmo. A sabedoria residiria em ser capaz de fazer da vida quotidiana a alavanca para a contemplação contínua do que é essencial. Mas quem será assim tão sábio?

domingo, 20 de abril de 2008

No mar da distracção

Anoitece e o dia passou e passou como todos os dias passam por mim: desperdiçado e sem fim. Perco-me a cada instante naquilo que me distrai e toda a minha vida se passa num vago mar de distracções. Pudesse eu ainda permanecer em silêncio e deixar vir um súbito desejo de oração e entregar o meu coração a algo mais do que aquilo que, fora de mim, me chama e me exige uma obediência férrea. Olho para estas horas que passaram e vejo-me passar por elas como se todo o tempo me fosse dado e nada, na frágil vontade que me coube, é capaz de dobrar a atenção e fixá-la para além dos pequenos nadas, que lançam uma cortina de fumo onde me perco e perco a vida, talvez por ter perdido há muito a luz de Deus.