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quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Dissolução e recomeço

William Turner - Sombras y oscuridad, la tarde del Diluvio (1834)

Pensa-se muitas vezes o dilúvio como sendo o registo, transformado pela memória e pelo mito, de algum acontecimento histórico. Noutros casos, encerra-se a narrativa no delírio de uma imaginação transbordante e sem o controlo da razão lógica. No entanto, o relato bíblico do dilúvio e da Arca de Noé contém em si uma simbolização que merece atenção e pensamento. Duas categorias emergem nele: a dissolução do mundo e o recomeço. No caminho dos indivíduos e dos povos - esses grandes sujeitos colectivos - são muitos os momentos onde dissolução e recomeço têm um papel central. Na verdade, recomeçar implica sempre e de certa maneira uma dissolução da antiga figura onde o espírito e a vida se cristalizaram.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

O abismo e a noite

Alfons Mucha - O abismo (1887-89)

Há um certo paralelismo entre a atracção pelo abismo e a noite escura da alma, tal como é pensada pelos místicos cristãos, nomeadamente por João da Cruz. Na noite escura, o místico sente-se abandonado por Deus e toda a vida espiritual parece perder o sentido. Na atracção pelo abismo há, também, uma experiência de abandono, mas de um sinal bem diferente. O sujeito sente que abandona os mecanismos que o mantêm à superfície e que se entrega à dissolução do sentido. A ausência de sentido que tudo então apresenta deve-se à impotência do indivíduo em coordenar as suas faculdades, para que estas imponham sobre o mundo uma gramática e um léxico que suportem um sentido digno de ser vivido. Ora, entregar-se à atracção do abismo é aceitar que as suas próprias faculdades se dissolvam e, nesta dissolução, arrastem o poder do sujeito em configurar o mundo. A noite escura dos místicos é um tempo e uma experiência de purgação, a atracção pelo abismo é apenas a entrada num processo de dissipação e perda.