quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Poemas do Viandante (323)

323. NÃO HÁ UMA HISTÓRIA VIVA DA MISÉRIA

Não há uma história viva da miséria.
Os miseráveis limitam-se à sua fronteira,
a pura sombra pelo chão,
o cântico sóbrio com que suportam o destino.
Estão ali, mas são invisíveis,
sem mãos ou braços,
a luz não se demora naqueles corpos,
segue o caminho luminoso,
sem deixar rasto, sombra, leve indício.

Não basta a pobreza pelas ruas
ou a devoção austera e contida no templo.
O mundo arfa numa sede de penúria,
de casas ardidas e cidades cariadas.
A miséria veio no espírito da terra,
a pura abjecção da graça em declínio,
o sórdido desenho do coração dos homens.

Não há uma história do que não se vê,
nem ciência daquilo que não se ama,
não há uma pegada no caminho
ou um eco a saltar sobre a montanha.
De nada vale ler livros e tratados,
espantar dos dias o sagrado ócio,
ir mundo fora recolher testemunho.
A miséria é o invisível daquilo que vemos,
sangue que pulsa na vida sem porquê.