domingo, 19 de agosto de 2012

Poemas do Viandante (332)

332. SOMOS FLORES TARDIAS DE UM JARDIM EXAUSTO

Somos flores tardias de um jardim exausto
e não há, nas terras em redor, jardineiro
que de nós, nestes dias de calor, venha cuidar.
O último vinha, pé ante pé, negra a sotaina,
regador vazio, sacho e romba tesoura de poda.
Levou-o o vento ou um anjo que por aqui houvesse,
levou-o a pressa da vida, um incêndio no matagal,
levou-o o esquecimento, um fantasma, a promessa
de um céu puro sobre praia de areia e azul.

Somos flores tardias de um mundo acabado,
viemos no acaso da noite e arpoámos o barco
entre rochas e cascos velhos apodrecidos.
Um tempo houve em que as flores vinham
da Grécia, de Roma, mesmo de Jerusalém.
Frágeis e vigorosas  violetas de tempos rudes,
pequenas promessas de seda, pontes entre
um passado nunca esquecido e a luz fugaz
a brilhar no horizonte que seria o futuro.

Somos flores tardias de um tempo consumado.
São outros os jardins e diferentes as flores,
não lhes faltará o zelo do jardineiro,
nem terra nova ou estação propícia ao plantio.
Não tragam água sobre estas pétalas cansadas,
nem deixem o sol vir sobre o caule estiolado.
Tudo se nos tornou já um sonho alheio e,
na multidão que passa, não há um rosto
que sorria ao lançar os olhos pela terra vazia.