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terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Um problema de compreensão

Paul Ackerman - Dis-mois, compreds-tu quelque chose

A preocupação com a compreensão do mundo, com aquilo que se passa fora de nós, funda-se na crença ingénua de que o objecto da compreensão é transparente e acessível em si mesmo. A compreensão do mundo, porém, assenta na compreensão de nós mesmos. Aquilo que compreendemos no mundo exterior não é apenas mediado pela nossa auto-compreensão. É uma projecção dessa mesma auto-compreensão. Aquilo que eu vejo no mundo diz mais sobre mim do que sobre o mundo.

sábado, 4 de abril de 2015

A experiência da via

Stipo Pranyko - Altar para um agnóstico (1996)

Eu sou a via, e a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai, senão por mim. (João 14:6)

A vida espiritual confronta-se sempre com o agnosticismo. Este mais não é do que a confissão de um não saber, de ausência de conhecimento. Muito antes de João ter escrito as palavras de Cristo em epígrafe, Platão definiu o conhecimento como crença verdadeira justificada. A vida espiritual sofreria, então, de uma limitação que a colocaria na classe das crenças dogmáticas, às quais falta justificação. Não será por isso um conhecimento, uma gnose, o que, na verdade e de forma surpreendente, torna os crentes em agnósticos. Porém, há uma justificação que desfaz o hipotético dogmatismo e o concomitante agnosticismo. A crença na verdade e na vida justifica-se não por uma adesão irracional e incompreensível mas pela experiência da via, do caminho. A experiência é a mais radical justificação que uma crença pode obter. Assim sendo, a fé, como nos ensina a palavra latina fides, não é outra coisa do que o compromisso com a via, a fidelidade à própria experiência.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Retorno a casa

Francesca Woodman - From Space2, Providence (1975-76)

Numa primeira fase da vida, os homens lutam pelo conhecimento e afirmam-se separando-se das coisas, assim transformadas em objectos. Posta à distância, a realidade é capturada pelo entendimento do homem. Essa fase, porém, está longe da sabedoria. O viandante começa a trilhar os caminhos da sabedoria quando se perde nas coisas e se despe da pretensão delas se diferenciar. Toda a viagem é um longo processo de retorno a casa.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Da autoridade do autor

Albert Gleizes - Autoridade espiritual e poder temporal (1939-40)

Quando Jesus acabou de falar, a multidão ficou vivamente impressionada com os seus ensinamentos, porque Ele ensinava-os como quem possui autoridade e não como os doutores da Lei. (Mateus, 7:28-29)

Surge muitas vezes, na opinião publicada, o delicado problema da autoridade dos professores. Por norma, as respostas dadas são insípidas e falham o alvo. De onde provém a autoridade daquele que ensina, seja ou não professor? Os  versículos citados de Mateus são uma porta por onde podemos penetrar no mistério da autoridade daquele que ensina. O que impressiona a multidão no ensino de Cristo é a diferença que apresenta relativamente aos doutores da lei, aos escribas. No escriba encontramos um certo tipo de autoridade. Eles têm a autoridade de quem conhece a lei, porque a interpreta, e os livros sagrados. Numa sociedade teocrática, têm ainda uma autoridade legitimada pelo poder político (mesmo que este esteja, como era o caso, submetido aos representantes de Roma). No entanto, nem a autoridade proveniente do poder nem a fundada na erudição constituem uma verdadeira autoridade (sobre isto ver o post de ontem).

Se não é nos livros nem no poder, onde residirá a autoridade que sustenta o ensino de Cristo? A palavra grega usada e traduzida por autoridade (ἐξουσίαν) tem um amplo campo semântico. Ela conjuga a energia, a capacidade, a competência e a liberdade do sujeito que possui a autoridade e, ao mesmo tempo, o direito, o poder, o domínio e a força que objectivamente lhe é reconhecida (ver aqui). Em síntese, pode-se dizer que esta autoridade reside na liberdade do autor, na liberdade da autoria. Cristo era o autor da ordem do mundo que ele próprio anunciava e, por isso, as suas palavras tinham autoridade que, ao serem escutadas, logo era reconhecida. Elas, as Suas palavras, não vinham de um exercício hermenêutico sancionado pelos poderes político-religiosos e académicos, mas da própria essência daquele que fala. A fragilidade dos doutores la lei reside na distância que vai entre aqueles que interpretam racionalmente a lei e aqueles que, ao vivê-la e ao torná-la vida, se tornam os seus autores. A verdadeira e única autoridade é aquela que nasce da autoria.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Na margem do discurso

Guillermo Pérez Villalta - O discurso da verdade (1978)

Naquele tempo, aglomerava-se uma grande multidão à volta de Jesus e Ele começou a dizer: «Esta geração é uma geração perversa; pede um sinal, mas não lhe será dado sinal algum, a não ser o de Jonas. Pois, assim como Jonas foi um sinal para os ninivitas, assim o será também o Filho do Homem para esta geração. A rainha do Sul há-de levantar-se, na altura do juízo, contra os homens desta geração e há-de condená-los, porque veio dos confins da terra para ouvir a sabedoria de Salomão; ora, aqui está quem é maior do que Salomão! Os ninivitas hão-de levantar-se, na altura do juízo, contra esta geração e hão-de condená-la, porque fizeram penitência ao ouvir a pregação de Jonas; ora, aqui está quem é maior do que Jonas.» (Lucas 11,29-32) [Comentário de Rafael Arnaiz Baron aqui]

O que haverá de reprovável em pedir um sinal? Não é natural que os homens peçam sinais como forma de provar uma pretensão ou confirmar uma alegação? Não será antes reprovável aceitar a palavra do outro apenas fundada no princípio de autoridade que esse outro se arroga, mas que é contestada pela multidão? Talvez fosse estranho já esse pretensão para os homens daqueles dias, mas para nós, homens educados nos princípios do Iluminismo, nada há de mais estranho que a pretensão de Cristo.

O texto dá duas pistas para resolver a questão. Salomão, o rei, foi reconhecido pela Rainha do Sul. Jonas, o profeta, foi reconhecido pelos habitantes de Nínive. Mas Aquele que se apresenta agora – e este agora é um eterno agora – não é reconhecido por ninguém, apesar da sua dignidade real ser maior que a de Salomão, apesar do seu dom de profecia ser maior que o de Jonas. A ausência de reconhecimento significa, neste contexto, que os que pedem um sinal quebraram um laço fundamental, esqueceram alguma coisa que deveriam reconhecer em cada hora. Tornaram-se estranhos, alienaram-se da sua própria natureza, perderam o contacto com a realidade.

O não reconhecimento do Outro é o arquétipo de todos os não reconhecimentos, o do não reconhecimento do próximo e o do não reconhecimento de si mesmo. Não há, porém, a recusa de um sinal, mas a proposição do mais surpreendente dos sinais, o sinal de Jonas, metáfora anunciadora da morte e ressurreição de Cristo, o novo sinal deixado aos que pedem sinais. O carácter surpreendente do sinal reside na sua inverosimilhança. Não é verosímil que aquele que foi engolido por uma baleia seja por ela cuspido com vida, não é verosímil que Aquele que vai morrer na cruz triunfe sobre o sepulcro.

Sobre a inverosimilhança deste sinal foi construída uma religião e edificada uma comunidade de fé que transporta o sinal de geração em geração. Mas o que contém esse sinal? O que sinaliza ele? Claramente, ele sinaliza a perversidade das gerações, a sua incapacidade de reconhecimento, a sua alienação, mas sinaliza a possibilidade de desalienação, a restauração da via do reconhecimento. O sinal, pela sua natureza paradoxal, faz lembrar um koan da tradição do Budismo Zen. Um sinal que ultrapassa a razão e que convoca o homem para a margem do discurso, muito para lá daquilo que as palavras podem dizer, como se o sinal fosse uma convocação ao viver, o que ultrapassaria infinitamente a dimensão cognitiva presente naqueles que exigem sinais.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Efeitos especiais

Albert Bloch - Figures in silver light (study) (1943)

A vida é uma luta contra a opacidade, contra a nossa própria opacidade. Na verdade, se meditarmos um pouco, não há ser mais estranho e mais opaco a nós do aquele que diz eu quando falamos. Essa opacidade nasce, em primeiro lugar, da ilusão de que nada nos é mais conhecido do que nós mesmos, como se pelo facto de sermos sujeitos e objectos de conhecimento ao mesmo tempo facilitasse o acesso a esse objecto. Em segundo lugar, esse mesmo facto, o de sermos sujeito e objecto, é produtor de opacidade e de escuridão. Dividimo-nos e tornamo-nos estranhos a nós próprios. Por fim, o acto de dizer eu parece assegurar uma certeza certificada de que sabemos o que estamos a dizer, uma certeza que sabemos quem é esse eu. Ora, o eu é um lugar vazio - o pronome pessoal na primeira pessoa - que qualquer um ocupa quando toma a palavra e, ao calar-se, deixa vazio. Na realidade, não passamos de figuras banhadas por uma luz prateada. Somos opacos a nós mesmos, mas a tonalidade luminosa cria-nos a ilusão da transparência. Mas isso não passa de efeitos especiais.

sábado, 17 de novembro de 2012

Caminho de sabedoria

Marcel Duchamp - Étant donnés: 1º la chute d'eau, 2º le gaz d'éclairage (1946-66)

A experiência da porta é uma das mais essenciais na viagem. Cada porta representa um enigma, mas também um desafio e uma possibilidade. O viandante faz a experiência do limiar, desse não estar dentro nem fora, sente a perplexidade por estar prestes a deixar o conhecido e entrar no desconhecido. É neste desconhecido que está o enigma, o desafio e a possibilidade. Quando se chega a uma porta fechada é porque todas as possibilidades anteriores estão consumadas e um instinto certeiro nos conduz aquele limiar. Perplexo, o viandante sente o coração dividido entre o conhecido e realizado e o não pensado, o não sabido, o não realizado. Naquele instante, a viagem pode terminar ou, então, ganhar sentidos inesperados, pois novos possíveis se escondem atrás da porta. Tudo depende do viandante, da sua disposição, da atracção que ele permite que o atinja vinda do outro lado da porta. Um livro, um quadro, uma pessoa, uma situação. Tudo isso pode ser uma porta, isto é, um enigma, um desafio e um possibilidade que chama por nós. A sabedoria está em discernir, no caminho, que portas devemos abrir e aquelas que devemos passar ao largo. Um caminho de sabedoria é aquele que é feito de porta em porta, um caminho singular e intransmissível.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

A sabedoria do não saber

Max Ernst - Oedipus Rex (1922)

Todos esses fantasmas que transportamos em nós, essas sombras que cresceram no lugar onde o medo abriu brechas, são sintomas de um espírito pouco ciente do seu caminho. Não é que a sabedoria nos diga qual o caminho, que passos deveremos, com segurança e certeza, dar a cada momento. O caminho faz-se sem mapa, sem bússola, sem roteiro de viagem. A sabedoria está apenas no aceitar da incerteza, está em fazer da não ciência a única ciência que podemos e devemos transportar. Quando se chega aqui diz-se: não sei para onde vou, mas vou. Abandonados à peregrinação, ela tratará de trazer novos caminhos e outras metas, ela guiará o viandante que se entregou à volúpia do caminho. Na pura entrega à viagem, o medo e as sombras perderam o lugar que tinham tomada dentro do viajante.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

De noite em noite

Max Ernst - Las fases de la noche (1946)

Várias são as modalidades da nossa cegueira. Entre a noite trazida pela sofreguidão do desejo e a noite criada pela luz que tudo obscurece existem mil cambiantes. A noite não é apenas o complemento do dia, mas a metáfora perfeita da nossa condição terrestre. Anoitece-nos o desejo, os sentidos, o dever, a vontade e a imaginação. Negra é ainda a luz que vem da razão, tão negra quando a do sentimento ou da paixão. Negra é a noite escura da alma ou a iluminação divina que cai sobre o homem. Na terra caminhamos de noite em noite, arrastamos toda uma paleta de pretos, como se a nossa ausência de luz pudesse ter cambiantes, e as noites se diferenciassem. Somos como Édipo em Colona, caminhos cegos. Não é preciso matar o pai e casar com a mãe, basta nascer para cair na escuridão.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Tudo o que não sou

A suposição de ser alguma coisa, essa herança construída pela coligação entre as gramáticas indo-europeias e a filosofia grega - onde aquelas se pensaram e tomaram consciência de si -, é a imagem de uma infância nunca abandonada. Não daquela infância onde tudo é inédito e uma ânsia conduz à descoberta do mundo, mas da outra infância, concomitante dessa, aquela em que se luta desesperadamente para se convencer a si mesmo que se é alguma coisa, que se tem um lugar no mundo e uma voz que deve ser ouvida. Aquilo, porém, que poucos confessam é que esse convencimento é precário e que, no fundo de nós, uma dúvida persistente lança uma sombra sobre o que somos, o lugar que ocupamos, a voz que fazemos ouvir. Se deitarmos borda fora tudo isso, será que perdemos alguma coisa? Posso perder tudo o que não sou. Isso bastará? Não. É preciso ir mais longe. Não basta perder aquilo que não se é. É preciso perder aquilo que se é, mesmo que não saibamos o que somos. Aí haverá, então, a esperança de encontrar a voz do coração. Não a do nosso, porque o coração que fala não tem proprietário. É só uma voz, vinda sabe-se lá de onde, que clama no deserto.

domingo, 24 de maio de 2009

Espanto

Como deixar que o espanto venha e nos arranque da insensata sensatez com que a vida toldou o espírito? O hábito cresce como uma sombra sobre o desconhecido e sob o véu desta sombra o desconhecido toma a aparência do mais conhecido. Na mais intensa luz do conhecimento abre-se secreto o segredo do desconhecido. Todo o conhecimento humano é revelação. Revelar significa mostrar e, ao mesmo tempo, tornar a velar, a ocultar. O espanto não será então a deriva de um espírito inconstante, mas a atenção suprema ao instante, àquele instante em que o divino se revela, se mostra e se oculta, se dá a nós e nós, na insensata preocupação de o capturar, o perdemos.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

A voz que cantará

Um passo mais, um desbravar de horizonte, um abrir-se ao desconhecido que há no fundo de si. Conhecemos demasiado e em todo o conhecimento há uma ocultação. Envoltos no orgulho da vitória cognitiva, esquecemos esse fundo obscuro de onde provém toda a luz. Abrir-se ao desconhecido que há em si é mergulhar nas trevas mais densas. Ali esperamos a voz que cantará pela meia-noite.