Mostrar mensagens com a etiqueta Criação. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Criação. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 6 de setembro de 2016

A metáfora da criação

Frantisek Kupka - Criação (1911-20)

Normalmente, vê-se a criação do mundo por Deus, narrada no Génesis bíblico, ou como um facto histórico (o fundamentalismo cristão ou outro), ou como uma alegoria onde se transmite, por imagens, o trabalho de Deus na criação do mundo (o cristianismo aberto à modernidade), ou como uma mera ilusão proveniente da superstição (o ateísmo). A criação pode ser vista, porém, como uma metáfora, uma metáfora utilizada para designar algo que não tem nome. 

E o que não tem nome, neste caso, é o mistério da emergência do mundo. A metáfora não diz nada acerca do conteúdo desse mistério. No entanto, ela dá-nos uma indicação. Indica-nos que esse mistério dá que pensar ao homem. Ela não nos diz nada do que se passou, mas diz-nos que isso nos interessa radicalmente. A criação, enquanto metáfora, aponta menos para uma hipotética actividade de Deus no passado e mais para uma preocupação humana sempre aberta ao futuro. A meditação dessa metáfora não é apenas estética. É também existencial. Compromete aquele que medita nela não com uma fé mas com a própria existência. Daí a sua força.

sábado, 28 de maio de 2016

Da animação

Francis Picabia - Animação (1914)

O uso corrente do termo animação liga-o à ideia de alegria e de entusiasmo. Animação, porém, remete para a essência da vida espiritual. Toda esta é um contínuo dar alma e, ao dar alma, dá-se vida. Animação é o acto pelo qual a vida se extrai da não-vida. A alegria e o entusiasmo não são a efectiva animação, mas uma sua consequência, o resultado de uma operação criadora.

sábado, 9 de abril de 2016

Criação e redenção

Mère Geneviève Gallois - Creatio - Redemptio

A tensão entre criação e redenção não pertence apenas à esfera da religião. Ela percorre toda a vida do espírito, manifestando-se como uma estrutura essencial dessa vida. Todo o acto de criar, de fazer vir à luz, acaba por exigir, como complemento e acabamento, a necessidade de redenção do que foi criado. A redenção, a sua necessidade, sublinha o carácter finito do que foi criado, da sua necessidade de completude e de elevação acima da temporalidade.

domingo, 25 de janeiro de 2015

Divergência e convergência.

Jackson Pollock - Convergence (1952)

É hábito considerar o pensamento divergente como sintoma de criatividade. Toda a divergência é, antes do mais, um afastamento, uma separação do instituído, daquilo que o mundo e o senso comum aprovam como aceitável. Afastamento esse que é, ao mesmo tempo, uma convergência com o inesperado, o inusitado, com a voz única que do fundo do ser chama por aqueles que ousam divergir do mundo.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Arte e contemplação

Jesús de Perceval - Adán (1930)

Le rôle de Adam, (...), est de regarder la création, de la voir, de la reconnaître et de lui donner ainsi une existence nouvelle et spirituelle. Il imite et reproduit l'action créatrice de Dieu en répétant, dans le silence de son intelligence, la parole qui a donné la vie à toutes les choses vivantes. (Thomas Merton, Le Nouvel Homme, pp.65.)

Na economia da natureza, o papel central do homem é absolutamente espiritual. Esse papel está centrado numa atitude contemplativa. O homem, Adão, é aquele que olha, que vê, que contempla a criação, o mundo. É nesta atitude contemplativa que esse mesmo mundo ganha sentido, ganha uma existência nova e espiritual, uma existência que ultrapassa a mera materialidade com que o conjunto das coisas se dão aos sentidos e à imaginação animal. Contudo, a contemplação possui, ela própria, uma dinâmica, que a torna bem diferente de uma atitude puramente passiva. Contemplar é uma forma de mimesis, de imitação da palavra originária que chamou as coisas ao conjunto da existência. Compreende-se, então, que contemplar é uma forma de arte e que esta só é criadora porque imita, mima, a palavra originária cuja vibração trouxe do nada ao ser o conjunto de tudo aquilo que existe. Uma arte que não seja fundada na contemplação, nessa mimesis da palavra originária, não é arte mas pura poluição.

domingo, 16 de outubro de 2011

O templo vazio


O templo, no qual Deus, seguindo a sua vontade, quer poderosamente reinar, é a alma do homem. Deus a formou e criou justamente bem igual a si mesmo, como lemos ter Nosso Senhor dito: "Façamos o homem segundo a nossa imagem e semelhança!" (Gn 1,26). E foi também o que ele fez. Tão igual a si fez a alma do homem que, dentre todas as esplêndidas criaturas por Ele maravilhosamente criadas, não há, nem no reino do céu nem sobre a terra, nenhuma que se iguale tanto a Ele, a não ser unicamente a alma humana. Por isso, Deus quer ter esse templo vazio, a ponto de ali não haver nada mais do que Ele só. (Mestre Eckhart, Sermões Alemães: Sermão 1 "Intravit Jesus in templum et coepit eicere vendentes et ementes")

Este excerto de Eckhart permite surpreender duas questões essenciais, ambas respeitantes à alma. Em primeiro lugar, é nela que reside a imagem e semelhança com Deus. Poderíamos contrapor a materialidade do corpo à alma, mas isso pouco nos ajudaria, para além de nos deixar reféns de um conjunto de dualismos de natureza aporética. A segunda questão poderá esclarecer esta. Deus quer a alma como um templo vazio. É no vazio que reside a natureza da alma. Esse vazio, devido à sua relação com o templo, é uma abertura. O que é solicitado ao crente - no fundo, a todo o cristão - é a abertura de si-mesmo. Mais que esta ou aquela acção, o que está em jogo é o esvaziar da alma de tudo o que indevidamente a ocupa, sejam preocupações mundanas, sejam vontades e ilusões próprias, seja, inclusive, o plano de salvação pessoal. O vazio é o vazio, e tudo o que se coloca nesse vazio torna-se num obstáculo à presença de Deus no templo. O que está em jogo então não é a minha salvação pessoal ou do mundo, ou seja do que for, mas a da presença do Criador na sua criatura. Essa presença é a própria salvação da criatura e luz para o mundo criado. Inopinadamente, o cristianismo, naquilo que nele é mais essencial, revela um estranho parentesco com disciplinas espirituais bem distintas dele, como o budismo zen ou o tibetano. Fazer em si o vazio para que o Vazio o preencha.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Criar e ser criado

"O poeta entra em si mesmo para criar. O contemplativo entre em Deus para ser criado." (Th. Merton) Se o caminho para entrar em Deus for o de entrar em si mesmo, então o acto de criar e o de ser criado confundem-se e o artista criador não é mais do que criação, imagem e semelhança daquele que o cria. E aqui podemos surpreender um sentido novo da mimésis grega. A mimésis, a imitação, não residiria essencialmente na criação de uma cópia da realidade natural, mas na imitação do gesto criador. O artista cria à imagem e semelhança do Criador, desse Criador que continuamente me cria. Em arte, nomeadamente em poesia, a mimésis do real empírico é absolutamente secundária relativamente a esse mimésis mais originária, a da identificação do artista com o Deus criador. Sendo assim, todo o acto artístico tem uma dimensão litúrgica na qual o artista imita ritualmente o gesto criador de Deus, O celebra e O cultua. Por isso, não há arte profana. Toda a verdadeira arte pertence ao domínio do sagrado, tenha ou não o artista consciência disso.