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segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Biografias 16. O homem do acordeão

Edith Tudor-Hart, London, c.1931

Lentamente, quase como se o tempo não existisse, o homem percorre as ruas. Não olho para o que se passa à sua volta, apenas faz deslizar os dedos e escuta a música que ele mesmo descobre no fundo da sua sombria solidão.

terça-feira, 21 de agosto de 2018

Biografias 15. A rapariga que sorri


Ela cruza os dedos, respira fundo e sorri. E no sorriso habita o silêncio que se esconde no fundo do seu coração. Esperam sempre qualquer coisa de mim, pensa, mas nada mais tenho a dar do que o meu sorriso. Pega numa garrafa, abre-a em silêncio e sorri.

Fotografia: Sergio Larrain-Magnum, Limón Soda, Valparaíso.

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Biografias 14. A mulher do último café

Charles Hewitt, Night Time Coffee, London, 1952

Era sempre a última cliente. Chegava como uma sombra. Pedia um café, bebia-o em silêncio, enquanto olhava os jogos de luz que se desprendiam da iluminação pública. Passados minutos, sem que dissesse uma palavra, tirava umas moedas de uma bolsa velha e gasta e depositava-as distraída sobre o balcão. Então, partia num passo hesitante, como se não soubesse o caminho até que se fundia na escuridão da noite.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Biografias 13. A mulher caída

John Murphy, Cadere: Outside the Frame, 2008

Arrastou pelas ruas o peso dos sentimentos. Ardeu na fogueira das emoções. Arrojou pelo chão a mobília da vida. Tinha um nome e perdeu-o na praça pública. Exausta, seca e sem nome, deu uns passos, encostou-se à parede e deixou-se cair. Não há desejo que suporte o peso do mundo.

quinta-feira, 29 de março de 2018

Biografias 12. A rapariga do chapéu

Julia Margaret Cameron, Ophelia, Study No. 2, 1867

Erguia-se diante do espelho, punha na cabeça um chapéu adornado com uma camélia, sempre o mesmo, deixava os cabelos cair sobre os ombros, enquanto o olhar se inclinava para baixo como se ali estivesse a verdade de todo o seu ser.

terça-feira, 20 de março de 2018

Biografias 11. Arlequim adormecido

Pierre Dubreuil, Harlequin - Still Life, 1923

Cansado de seduzir Colombinas, Arlequim adormece e a máscara cai-lhe do rosto. Assim exposto à devassa do olhar, não passa de uma natureza morta à mão do ciúme de um qualquer Pierrot.

quinta-feira, 15 de março de 2018

Biografias 10. A mulher cansada

René Groebli, Das Auge der Liebe, 1954

A monotonia do amor, o ritual do acasalamento, a grande cerimónia do prazer. Como tudo isso me cansa e escorre para a grande obscuridade que me habita. Não sou virgem consagrada nem prostituta do templo. Deixo correr a minha vida na orla da noite e o corpo pede-me o sono da eternidade.

sábado, 10 de março de 2018

Biografias 9. O amola-tesouras

Ruth Matilda Anderson, Scissors grinder, 1926

Tornar agudo e cortante aquilo que ficou rombo. Não há profissão mais necessária à vida espiritual que a de amolador. Quando rombo, o espírito divaga na errância incapaz de separar o trigo do joio, a verdade da falsificação. De terra em terra, o amola-tesouras era um portador de esperança e de uma promessa de verdade.

segunda-feira, 5 de março de 2018

Biografias 8. A mulher que perdeu a face

Raoul Hausmann, Le Portrait corrigé, 1946-1947

Possuir uma face é um trabalho secreto e minucioso, um exercício de atenção ao pormenor, a construção daquilo que faz alguém irromper no olhar dos outros. A mulher que perdeu a face, perdeu-a porque nunca a teve. Faltou-lhe a atenção, o esforço e, acima de tudo, a minúcia.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Biografias 7. O homem cansado

Ingmar Bergman, Wild Strawberries, 1957

Uma vida pesa sobre os ombros mais que os céus. Tem o peso dos anos, o dos desejos, o dos sonhos. O que mais pesa, porém, ao homem cansado é o que não desejou e o que não sonhou.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Biografias 6. A mulher de negro

Constantine Manos - Karpathos

Não é pelos filhos que ela vela. Vestida de negro, deixa que os olhos se inclinem numa oração. No murmúrio da súplica os deuses escutam a voz do cosmos quando triunfa sobre o caos.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Biografias 5. O homem da luz

Dmitri Badermants, Buoy Keeper, 1960

Não é pelo peso da tarefa, mas não há no mundo maior responsabilidade. Ao crepúsculo, o homem ergue-se e, bordejando precipícios, leva, com mão firme, um grão de luz para que as trevas da terra não façam presa.

domingo, 11 de fevereiro de 2018

Biografias 4. O homem do chapéu

Duane Michals, Magritte and hat, 1965

Na ideia de chapéu, um homem sem biografia espera a solenidade da sombra e investe-a com a aura que anuncia, ao mundo e à cidade, a santidade de um pecador ou a perdição de um santo.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Biografias 3. Mulher hesitante

Walde Huth - Model Patricia in Jaques Fath, Paris, France, 1955

Parada e pensativa, a mulher, inábil nas artes da tecelagem, hesita. Voltar para trás ou entregar-se ao murmúrio sombrio do desejo dos pretendentes?

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Biografias 2. Rapariga girassol

Édouard Boubat, Tournesol, 1985

Solícita, a rapariga pousou nua ao sol. E da terra calcada pelos seus pés nasceu-lhe, perdido entre a seara, um casto e cruel girassol.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Biografias 1. Rapariga sentada

Alfred Stieglitz, Girl mending nets,1896

Sentada em silêncio, a rapariga remenda as redes que, lançadas no mar encapelado, apanharão o peixe voraz que há-de devorar o vendaval da sua solidão.