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domingo, 30 de março de 2014

O reino das sombras

Istvan Hanga - Ombre et appareil (ca. 1933)

Uma das ilusões dos amantes da técnica - e quem não o é, nos dias de hoje? - está na crença de que ela poderá ajudar o homem a sair da caverna platónica, onde apenas vê a sombra da realidade. Um telescópio, um microscópio, uma câmara de filmar ou de fotografar, enfim qualquer um dos mil dispositivos que são inventados para intensificar o poder dos nossos sentidos... Mas por mais intensos que estes se tornem graças ao poder da técnica, o que lhes é dado são sempre sombras. Gigantescas ou microscópicas, mas ainda e sempre sombras. Não suportariam a realidade.

domingo, 23 de março de 2014

O maior dos perigos

Robert Capa - BARCELONA, Spain. Running for shelter during an air raid alarm, January 1939.

A vida dos homens, por um hábito ancestral ancorado na tradição, é constituída em torno do abrigo. A eminência do perigo inscreveu-se nos genes e nos hábitos e, mal se suspeita uma ameaça, logo começa a corrida para o lugar de protecção. Esquece o homem, porém, que o abrigo não é outra coisa senão a caverna platónica. Esta pode-nos abrigar dos perigos, mas também nos abriga do choque com a realidade e com aquilo que, efectivamente, nos desafia. Quantas vezes o abrigo é, pela sua excessiva protecção, o lugar do maior dos perigos, o da negação da realidade.

domingo, 14 de agosto de 2011

Cuidar do Jardim do Éden

Se o mundo pode ser visto como um enorme mosteiro, como devem os homens, enquanto monges, comportar-se nele? Duas tradições podem ser observadas. Por um lado, a que deriva de Platão e vê o mundo à imagem da caverna, como um lugar de terrível ignorância e insensatez. Outra tradição, porém, recorda-nos que o mundo é o verdadeiro Jardim do Éden, e que se o não sentimos enquanto tal é porque pervertemos a relação que com ele mantínhamos e, desse modo, pervertemos a relação com Deus e com os outros homens. A tradição platónica propõem, como salvação, a viagem extra-mundana, onde a realidade tal como ela é se revelaria na sua verdade ao viajante. A tradição judaica-cristã é menos metafísica, pois sublinha que o Jardim do Éden é aqui mesmo, nesta Terra. E se esta surge aos nossos olhos como uma obscura caverna, o problema não está na Terra mas em nós que pervertemos a relação originária. Seria um equívoco pensar que a tarefa essencial residiria numa dedicação ao mundo e curar as perversões sociais e ambientais. Cabe ao homem cuidar do Jardim do Éden, mas isso significa antes do mais que lhe cabe pôr fim à relação distorcida e pervertida que ele tem com o mundo, Deus e os outros. Cuidar do Jardim do Éden começa por ser uma trabalho sobre si mesmo, uma conversão de atitude, uma abertura contemplativa sobre si, os outros, Deus e o mundo. E será este trabalho contemplativo que ensinará a cada um não apenas a ver o mundo como o Jardim do Éden, mas como deverá tratar daquilo que a vontade do Altíssimo lhe pôs ao seu cuidado. Cuidar do Jardim do Éden não é, em primeiro lugar, um projecto de acção e um plano de actividades a inscrever no curso do mundo. Pelo contrário, começa pela contemplação e toda a acção deve ainda ser não só uma emanação da contemplação, mas pura contemplação, como se em cada gesto se abrisse perante nós a revelação do sagrado.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Dissipação

Passam os dias e o deserto cresce como uma ameaça ou uma promessa. Se quero agarrar o caminho, tudo se dissipa e é névoa, onde os olhos impotentes se cerram. Que faço tão longe de Ti? Que faço nesta prisão onde devaneio amarrado às sombras da velha caverna? São dias de chumbo os meus dias, horas sôfregas onde vejo o tempo passar diante de mim. Na inércia que me acomete, vagueio, mortal errante perdido de sua casa.

domingo, 25 de maio de 2008

O cativeiro

O mundo é como a caverna de Platão. Dentro dele há apenas prisioneiros, mas prisioneiros de uma ilusão tenebrosa. Que ilusão será essa? É a ilusão que nos torna prisioneiros da imagem que de nós construímos. Somos então habitantes de uma dupla prisão. O mundo e o eu que se ata aos seus desejos e à avidez com que quer tomar para si o que não pertence a ninguém. Mas a libertação não significa uma fuga ao mundo, mas renúncia às suas próprias ilusões, à sua mesquinhez, à avidez que tudo coloniza. Liberto de si, aquele que peregrina nesta terra liberta-se também do mundo enquanto cativeiro.