terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Poemas do Viandante (444)

Joaquin Sorolla y Bastida - Mar cinzento (1908)

444. Ano velho

Acaba cinzento o ano,
vestido de sombra,
coberto de cinza.

Nuvem obscura
no silêncio do calendário,
no rumor do tempo.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Construir pontes

Pierre Bonnard - Le Pont des arts (1905)

Construir pontes, estabelecer relações, ligar o que está desligado, enfrentar a separação. Na ideia de separação pensa-se o corte que o homem instaura com a envolvência, tornando-a estranha a si mesmo. É esta mesma estranheza que se torna inquietante e que desencadeia as tentativas sempre frustradas de dominar a realidade da qual o homem se cindiu. Qual a verdadeira destinação de cada homem? A de ser um pontífice, um construtor de pontes, a de unir aquilo que ele mesmo separou.

domingo, 29 de dezembro de 2013

Abandonar-se ao vento

Felix Vallotton - The Wind (1910)

Talvez o primeiro chamamento do espírito, chamamento audível, se dê com a primeira grande decepção consigo mesmo. Pensa-se que é possível parar o vento com a forças das próprias mãos, mas, indomável e imperturbado, o vento segue o seu caminho. O ego faz a experiência da sua pequenez, da irrelevância dos seus desejos, do nada que na verdade é. Tudo se joga então nessa hora. Ou esse pequeno eu procura proteger-se e entregar-se à solidificação - ou à petrificação - de si mesmo, ou, aceitando a morte, abandona-se ao sopro do vento, tornando-se vento com o vento, espírito com o espírito.

sábado, 28 de dezembro de 2013

A onda e a vida

Frantisek Kupka - The Wave (1902)

Pensar a vida a partir da metáfora da onda. Como deve o viandante lidar com a onda? Enfrentá-la a pé firme? Cavalgá-la como um surfista? Atravessá-la como um exímio mergulhador? Não, o caminho do viandante não é o do poder nem o da dominação, tão pouco é o da destreza. A força para nada lhe serve e a habilidade não o salva. Ao viandante resta-lhe ser onda na onda, vida na vida. 

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Sobre a memória

Sendo - Da memória (1995)

É possível que possamos simbolizar a memória pela ruína. O que resta da vida vivida é essa ruína a que damos o nome de memória. É com Platão que surge a referência a uma outra memória, aquela que a alma teria da contemplação das Ideias, essas realidades que estão para além da vida vivida, seja no plano biológico, seja no plano social. É a memória de algo que a experiência existencial não poderia nunca pôr à nossa disposição, de algo que a própria vida representa já uma ruína e uma degradação. A partir desta concepção, pode-se pensar a memória já não como uma faculdade passiva e impotente perante a vida, mera produtora de imagens da ruína do real, mas como uma faculdade activa que, entre as ruínas da vida, nos abre para o essencial, para o que é efectivamente real.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

A sombra do Natal

Kings College Choir - Christmas Carols 24 dec 2011

Talvez no dia 26 de Dezembro tudo volte ao que está e isso representará para muitos uma decepção, como se o Natal fosse uma trégua, mas uma trégua que não anuncia o fim da guerra. Essa decepção, porém, está fundada numa imagem infantil e mágica do Natal, imagem essa que se projecta na compreensão da vida e do mundo. Não se compreende que o milagre não está em o Natal transformar magicamente a vida com o seu cortejo de necessidades e malevolências, mas na sua própria existência. O milagre está em se ter descoberto uma noite e um dia onde a desumanidade contumaz da humanidade é questionada. Essa luz, ao embater na dura realidade de 26 de Dezembro, projectará uma sombra que, aqui e ali, lembrará aos homens que a vida não tem de ser um exercício contínuo de maldade e servidão. Exultemos. Um feliz Natal.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Poemas do Viandante (443)

Marc Chagall - Jew at Prayer (1912-13)

443. Descer mais e mais ainda

Descer mais e mais ainda.
Descer à fonte onde o dia nasce.
Descer à foz onde a vida finda.
Descer à caverna onde a noite cresce.

Assim inicio a minha prece,
Na noite fria, na tempestade do coração,
No vazio que o mundo oferece,
No nada criado para a solidão.

E embarcado no navio da eternidade,
Sulco, entre ondas e brumas, oceanos.
E adentrando-me na idade,
Esqueço o jardim onde plantei os anos.

Descer mais e mais no mar da memória.
Descer à luz que rasga o dia.
Descer à tormenta que faz a história.
Descer ao lugar onde nasce a alegria.

domingo, 22 de dezembro de 2013

O Magnum Mysterium

Tomás Luis de Victoria - O Magnum Mysterium (The Cambridge Singers)

Poder-se-ia pensar que o mistério maior seria o da Virgem trazer no seio e dar à luz o filho de Deus. Isso, contudo, seria ficar pelo sentido literal das narrativas. Mas as narrativas apenas simbolizam o mistério decisivo da existência do mundo e de nele haver seres dotados de razão. Para nós, que somos filhos de uma educação iluminista e racionalista, na qual a ciência joga o papel central, nada é mais estranho do que falar de mistério. A ciência enfrenta e resolve quebra-cabeças (puzzles), o mistério é-lhe estranho. Mas talvez tudo o que é decisivo para o destino de cada um seja do domínio do mistério e não do quebra-cabeças racional. Dito de forma dogmática: tudo o que é decisivo na vida do homem é um magnum mysterium, e é isso que está em jogo nestes dias de Natal.

sábado, 21 de dezembro de 2013

Poemas do Viandante (442)

Paul Cézanne - Morning in Provence (1900-1906)

442. Solstício de Inverno

Chegámos ao dia mais pequeno do ano
e, presos na fraqueza da luz, aguardamos
o barco que nos levará ao mar aberto,
à luminosa água dos dias que hão-de vir.

Tudo se transfigura nestas terras de musgo.
As rochas crescem para a desmesura da noite,
os rebanhos seguem o caminho eterno,
os anjos velam o dia em que cantarão.

Nas terras altas, haverá neve e frio.
A luz bruxuleante que se vê ao longe
começa a crescer sobre a solidão da terra,
inscrevendo nas trevas o sol da madrugada.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Anunciação e prescrição

Edward Burne Jones - Anunciação (1876-79)

Ecce ancilla Domini, fiat mihi secundum verbum tuum (Eis a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra). Lucas, 1, 38.

A narrativa de Lucas estabelece, pelos menos nas traduções em português, uma surpreendente relação entre dois actos de linguagem, a anunciação e a prescrição, cujos efeitos solicitam sempre e mais uma vez o trabalho de interpretação. O arcanjo Gabriel, o mensageiro divino, anuncia algo que irá suceder, que Maria irá conceber sem que tenha conhecido homem. Isso acontecerá por vontade do Altíssimo. Nesta anunciação, há dois aspectos centrais. Por um lado, o facto de Maria ir conceber não deriva do seu livre-arbítrio, da sua aquiescência, nem de qualquer jogo tensional entre desejo e vontade. Há uma não-humanidade nesta anunciação. Por outro, aquilo que a anunciação anuncia apresenta-se como um acontecimento natural, que se impõe aos homens, independentemente da sua vontade e da sua liberdade. É como se a natureza - entendida como hiper-natureza ou sobre-natureza - recobrasse a sua ascendência sobre a liberdade humana. A anunciação do arcanjo a Maria é do domínio da pura factualidade. Nada é prescrito a Maria, nenhuma norma ou mandamento está presente na anunciação. Do ponto de vista linguístico, a anunciação do arcanjo Gabriel em nada difere da informação, também ela uma anunciação,  que um meteorologista fornece sobre a aproximação de um furacão.

Onde surge a prescrição é na resposta de Maria. Ela começa com uma declaração, Eis a escrava do Senhor, e é concluída de forma imperativa: faça-se em mim segundo a tua palavra. Não se trata de um simples assentimento ou a expressão de um mero consentimento. Trata-se agora de uma vontade que afirma imperativamente, a partir do seu livre-arbítrio, querer a vontade que, como uma sobre-natureza, se lhe impõe necessariamente. Esta prescrição não a dirige ela a si mesma, mas é uma prescrição que é dirigida, através do arcanjo Gabriel, a Deus, ao Senhor da escrava. Podem-se interpretar as palavras de Maria do seguinte modo: Quero que a Tua palavra seja mantida, que a cumpras. Num estranho exemplo da dialéctica do senhor e do escravo, a escrava eleva-se ao senhorio ao prescrever ao Senhor a vontade deste. É neste acto prescritivo que Maria se liberta da sua condição de escrava, assumindo em si a Vontade que o arcanjo lhe anunciara como Vontade sobre natural marcada pela sua inviolável necessidade. Este processo, que se inicia com a anunciação, passa pela prescrição, termina com a libertação de Maria. O que significa esta libertação? Significa que ela transformou, ao prescrever ao Senhor a vontade deste, o livre-arbírtrio, essa possibilidade de escolher sem ser coagida, em liberdade de realização e de criação. Ela trouxe ao mundo dos homens aquilo que o ultrapassa.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Sobre a festa

Raoul Dufy - Dia de festa (1906)

Perdemos o sentido da festa. Esta perda deve-se à banalização daquilo que deveria ser do âmbito do excepcional. Pode-se dizer, como Walter Benjamin o disse da arte, que a festa perdeu a aura. Perder a aura significa que se dessacralizou e se desligou daquilo que, no fundo do ser humano, a ligava ao essencial. O que procura o viandante? Recuperar o sentido último e decisivo da festa. Significará isso que a festividade deva ser remetida para certos e escassos dias do calendário? Também não. Isso é já o início da degradação. Recuperar o sentido último e decisivo da festa significa tornar todos os dias festivos. Mas não é isso banalizar a festa? Não, se cada dia for vivido com um dia de excepção, um dia em que o espírito se abre ao essencial e ao decisivo. O que causa a banalização da festa, a sua perda de aura, não é a multiplicação das suas ocorrências, mas o vazio com que nos entregamos a ela.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Haikai do Viandante (169)


Impérios de musgo
escorrem pela fria pedra.
Seda e aço na terra.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

O fascínio das catedrais

Albert Gleizes - Catedral (1912)

Pergunto-me muitas vezes o que motivará o poderoso fascínio que as catedrais exercem sobre o espírito. Não será uma motivação religiosa de carácter cultual ou de natureza estético-arquitectónica. Tudo isso, sendo importante, suporta uma outra coisa. Suporta uma imagem de imobilidade que se dirige ao espírito através da densidade da pedra. Para o viandante, a catedral simboliza, por instantes, o fim do caminho. Não daquele que o levou até ela, pois esse será, passada a imersão do espírito na imobilidade ali simbolizada, retomado, mas do caminho que conduz ao centro onde todos os caminhos se reúnem e dissolvem.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Tirar o véu

Markus Luepertz - Apocalipse. Ditirâmbico (1972)

O uso da comum linguagem tem, muitas vezes, um efeito inusitado sobre o sentido das próprias palavras. Tomemos o exemplo do termo apocalipse. Literalmente, o termo significa tirar o véu, isto é, revelar ou desocultar o que está oculto. O  uso religioso da palavra, a partir do conteúdo do Apocalipse de João, permitiu que, com o correr dos tempos, o termo viesse a significar fim do mundo. A palavra apocalíptico é usada para designar um estado catastrófico, o fim de alguma coisa, onde, de alguma forma, se prefigura o fim do mundo. 

Há, todavia, uma efectiva e inesperada conexão entre a ideia de revelação e a de fim. Desocultar ou revelar é um processo de acesso à verdade. Todo o apocalipse é a manifestação da verdade. É esta manifestação que conduz ao fim. Não ao fim do mundo, mas ao fim da forma como vemos o mundo enquanto a verdade permanece encoberta por um véu. Todo o apocalipse é um processo que traz consigo a conversão do olhar, de um olhar preso nas aparências para um olhar que acede ao que deixou de estar oculto e se revelou na sua verdade.

sábado, 14 de dezembro de 2013

Poemas do Viandante (441)

Jesús de Perceval - Nu (1960)

441. Nos dias em que o vento declina

Nos dias em que o vento declina
e uma sombra toma conta do rosto,
a noite chega envolta de névoa
e cai-te sediciosa sobre o corpo.

A vida envelhece tocada pelo frio
e da casa restam os dias caídos,
uma velha promessa por cumprir,
o coração ressequido pelo desejo.

Já não há como conjurar o terrível
e erguer da terra o que tombou.
Olho-te no engano do espelho
e deixo a minha mão poisar na tua.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Infância e poesia

Manuel Moral - Coche de mi infancia (1978)

Um dos lugares comuns, quando se fala sobre poesia ou sobre determinada obra poética, é o de ela ser uma espécie de retorno ou de visita ao lugar encantado da infância. Isto significaria que essa infância se constituiria como a fonte de uma mitologia privada, a qual se manifestaria na simbologia e na metafórica da obra. Tudo isto, porém, não passa de um equívoco. Se alguma infância é importante na obra poética, essa não é aquela que ficou para trás na história pessoal do poeta, mas a que está para vir, a que se constitui como horizonte a alcançar. Escrever como uma criança, como Picasso falava em pintar como uma criança. Não como uma criança tal como ela é, mas como uma criança enquanto símbolo da simplicidade, da inocência e da autenticidade. Também aqui estamos num território equívoco. Nem as crianças são simples, inocentes e autênticas, nem a simplicidade, a inocência e a autenticidade poéticas são frutos da espontaneidade natural que o senso comum associa à infância. Pelo contrário, são artifício, o mais puro e refinado artifício.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Direitos alfandegários

Paul Signac - Sobre Saint-Tropez, o caminho da Alfândega (1905)

Também nesta viagem terás de pagar direitos alfandegários? Também tu, perguntaram-me, trazes mercadoria para vender. Não, respondi, nada tenho para vender. Por cada passo que dou, porém, tenho de pagar esses direitos, pois uma nova fronteira fica para trás e uma nova pátria espera por mim. Pago o peso dos meus passos, a lentidão com que caminho, cada engano que me faz oscilar na rota. Pago para deixar de ser o que fui e, em cada nova claridade, tornar-me no que efectivamente sou.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

A verdade de si

Caspar David Friedrich - Homem e mulher contemplando a Lua (1820)

Na contemplação de um objecto, não é a verdade do objecto contemplado que se revela, mas a do próprio contemplador. Não que os objectos ou o mundo sejam um espelho, mas o facto de alguém escolher este ou aquele objecto para contemplação é uma autêntica epifania daquilo que é. Revelo a minha verdade nos objectos que escolho para olhar e na forma como o meu olhar paira sobre eles. 

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

A luz do farol

Albano Vitturi - O farol de Cervia (1930)

Um acontecimento inesperado, uma provação não procurada, um desejo frustrado, quantas vezes tudo isso é apenas o sinal lançado de um velho farol que nos avisa do perigo eminente. Terrível, porém, é o espírito ficar fascinado pela sombria luz daquilo que o atinge e, em vez de prosseguir a rota pelo mar largo, se deixa seduzir pela surpresa da dor que, ao brilhar, o encandeia.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Assunto de antiquários

Jaume Queralt - Antiquário (1987)

Há quem pense que coleccionar antiguidades é o essencial da vida do espírito. A leitura de velhas obras espirituais, por exemplo, toma, muitas vezes, o lugar da verdadeira vida, da experiência essencial que é sempre única e irrepetível. Não se percebe que esses registos têm um duplo significado. Por um lado, são o traço de uma vida vivida. Por outro, são sinais que, através da leitura, apelam a que outros vivam outras vidas fazendo não aquele caminho, mas o seu próprio e único caminho. O resto é assunto de antiquários.

sábado, 7 de dezembro de 2013

A floresta e a verdade

Gustav Klimt - Beech forest (1902)

Há dias em que, na viagem, nos afastamos dos caminhos abertos na paisagem. Abandonamos a tranquilidade das rotas conhecidas e entramos na floresta. Esses são os momentos onde a verdade se abre para nós. O que significa isso? Onde estará a verdade? A verdade revela-se na via que, em plena floresta, traçamos. É nestes momentos, afastados do mundo conhecido, que a vida se revela inteiramente nos caminhos que traçamos. A floresta é o lugar onde habita a verdade.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Poemas do Viandante (440)

Vincent Van Gogh - Paisagem outonal ao crepúsculo (1885)

440. Coube-nos o tempo do crepúsculo

Coube-nos o tempo do crepúsculo,
os dias de sombra no jardim,
o choro da água no silêncio das ruas.

Tudo se petrifica nesta hora.
O nevoeiro não cobre o provir
nem lembra quem o coração deseja.

Se alguém canta na cegueira da tarde,
se uma voz se ergue pela casa,
uma vela arde fúnebre na luz do altar.

Ainda há sobre a mesa pão e vinho,
mas a rosa que era rosa secou
e desfolhada entrou no rumor da noite.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

O homem cego

Albert Bloch - The Blind Man (1942)

Que queres que eu te faça? Respondeu ele: Senhor, que eu tenha vista. Disse-lhe Jesus: Vê, a tua fé te curou. (Lucas 18:41-41)

O homem cego não é outro senão cada um de nós. Estar cego ou, melhor, ser cego é o nosso estado natural. A cura da cegueira, porém, é algo tão inusitado que é difícil  descrever a terapia. No texto de Lucas, por exemplo, fala-se de fé. Ora haverá poucas coisas mais obscuras do que a fé. Como pode a obscuridade vencer a obscuridade?

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Analogias e diferenças

José Viera - Analogia (2001)

As analogias fascinam-nos pois captamos com elas as afinidades electivas entre duas realidades diferentes. As semelhanças têm um forte poder de atracção e de subjugação do espírito pela sua luminosidade. Isso é de tal maneira assim que a própria poesia, devido à sua natureza metafórica, acaba por eleger a analogia como a sua própria essência. Ora toda a analogia - e com ela toda a metáfora - está assente na ocultação da diferença, embora seja esta diferença - e não, como se pensa, as semelhanças - que sustenta, enquanto negativo fotográfico (uma metáfora quase incompreensível nos dias de hoje) o pensamento analógico e o exercício poético. O que teme o espírito para que seja tão propenso a indiferenciar o diferente através do jogo das analogias e das metáforas? Por que razão a alteridade radical nos assusta?

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

A restauração de si

Edvard Munch - Separação (1894)

Pensamos sempre toda a viagem - todo o pôr-se a caminho - como um acto de separação. Nessa separação existirá, de uma forma ou de outra, um ruptura, a quebra de laços ou de ligações. Esta visão habitual não estará enviesada? O hábito não distorcerá a compreensão da realidade? Não será antes porque nos sentimos desligados e separados que nos pomos a caminho? Toda a viagem - e recordo que a vida é ela mesma a viagem fundamental - é um acto de restauração de um estado não separado, de um estado onde nos encontramos na plenitude do que somos. Toda a viagem é uma busca de restauração de si mesmo.

sábado, 30 de novembro de 2013

Da paisagem invisível

Giorgio Morandi - Paisagem (1943)

Raramente percebemos que aquilo que atrai o nosso olhar numa paisagem (e uma paisagem não passa de uma metáfora) não é o que surge, aos nossos olhos, como belo e esplendoroso. O que encanta e prende a atenção do homem é o não visível que se manifesta no espectáculo com que somos confrontados e que, pelo sublime que nele se manifesta, nos cega para esse invisível que sustenta o visível e nele se oculta.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

O silêncio da presença

Filippo Tommaso Marinetti - Action (1915-16)

A acção tornou-se, com a Modernidade, o elemento central da cultura ocidental. Foi ela que, juntamente com a ciência, permitiu o espantoso desenvolvimento técnico e as formas de vida civilizada que são as nossas. Foi esse triunfo da acção que permitiu a glória de uma forma artística como o romance ou, mais tarde, o cinema. A acção com os seus resultados tem, todavia, um brilho tão intenso que não nos permite perceber que existe, para além dela, um reino que é tão ou mais importante para o homem quanto o é o da acção, o reino da contemplação. Esta não é uma mera suspensão do movimento e da mobilização das nossas forças. Contemplar não é tão pouco pensar, ainda uma forma de agir. Contemplar é um tornar-se presente, em silêncio, perante o mistério da vida e do ser. E foi este espaço silencioso onde o sentido se torna presente que a acção matou. Foi o silêncio da presença que desapareceu.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Haikai do Viandante (168)


Segredos d'areia
abrem-se silenciosos
pela maré-cheia. 

terça-feira, 26 de novembro de 2013

A consciência melancólica

Paul Serusier - Eva bretã (1890)

A solidão melancólica de uma Eva abandonada no paraíso permite perceber uma outra faceta do mito do pecado original. Não é apenas a conquista de uma certa sabedoria trazida pela experiência. É também um acto de ruptura, de cisão de uma unidade originária. Separada, Eva, toma consciência de si, mas toda a consciência de si parece ser uma consciência infeliz. Não foi apenas a morte que o acto de desobediência de Adão e Eva trouxe consigo. Foi ainda uma consciência melancólica tingida pela nostalgia desses tempos em que ainda não se sabia quem se era.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Viagem sem fim

Edvard Munch - Alameda com flocos de neve (1906)

Quando o caminho se torna gélido, quando a paisagem escreve no coração do homem  a palavra solidão, quando tudo parece indicar o conforto do lar, é nessas horas tormentosas que o viandante deve tornar mais firme a sua decisão de prosseguir no caminho. O frio, a neve, o anseio do calor são ainda ilusões, armadilhas que se abrem na viagem. Aquilo que o espera está para além das estações, está para além do temor e do desejo do homem. Há que continuar e isso é o essencial. A viagem não tem fim.

domingo, 24 de novembro de 2013

O escárnio do homem

Emil Hansen - O escárnio de Cristo

Na cena onde Cristo, no seu caminho para a cruz, é vítima de escárnio não encontramos apenas a referência a um acontecimento singular da história inaugural de uma certa religião. Encontramos simbolizada a atitude do homem comum por tudo o que é essencial na humanidade. A radicalidade do cristianismo tem esse estranho poder de suscitar, na vulgaridade que todos trazemos em nós, a necessidade de a defender e, por esse motivo, apoucar o fundamental, tentar torná-lo risível e, devido a essa risibilidade, entregá-lo à morte. O risível objecto de escárnio, que a cena crística simboliza, não é o ridículo das nossas pretensões, mas as nossas possibilidades mais autênticas, a verdade que se esconde no fundo do coração do homem.

sábado, 23 de novembro de 2013

A configuração de si

Albert Gleizes - Figura (1914)

Talvez toda a viagem - e a viagem não é outra coisa senão a vida - a que o viandante se propõe seja um trabalho de configuração. Configurar significa dar forma a qualquer coisas, dar-lhe, literalmente, figura. Ao avançar na via, ao inventar a senda por onde caminha, o viandante está, muitas vezes sem o saber, a traçar uma figura, a configurar. A configurar o quê? Ao caminhar o viandante tece a sua própria figura. Não aquela que ele imaginou ser a sua, nem aquela que ele desejou que fosse, mas a que o caminho - com as suas graças e, também, as suas desgraças - lhe impôs. A figura que a sua liberdade se destinou a traçar para si.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Poemas do Viandante (439)

William Congdon - Winter (1950)

439. abro a mão para o gesto sobre o mar

abro a mão para o gesto sobre o mar
oiço as ondas romper o matagal
ervas brancas batidas pelo vento

inverno, frio inverno, sol e sombra
água nas ruas, murmúrios, labaredas
a velha servidão negra e cansada

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

O inverosímil do amor

Nicolás de Lekuona - Amor inverosímil (1932)

A expressão amor inverosímil capta aquilo que é mais surpreendente no amor. Que ele toque a espécie humana é, olhando para os negócios o mundo e da vida social, o que há de mais inverosímil sobre a terra. É tão inverosímil que a própria razão se sente derrotada e, na surpresa dessa presença, confessa que há nele, no amor, mais do que o homem lá pode colocar. O amor é inverosímil porque nele o sobre-humano se revela na estreiteza egoísta desse animal a que chamamos homem.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

O sonho da harmonia

Paul Signac - Au temps d'harmonie (1894)

Talvez o maior anseio do coração do homem, mesmo daquele que se transviou por complete das normas da sociabilidade humana, seja o retorno a uma vida de harmonia, o retorno ao paraíso perdido. A modernidade sonhou, através das diversas utopias que foi criando, esse paraíso. Sonhou-o de forma impaciente e febril, sonhou-o como se ele dependesse do engenho e da indústria dos homens. Esse sonho tornou-se pesadelo. As utopias deram lugar a distopias e a harmonia sonhada, aos piores conflitos da triste história humana. Talvez a harmonia não seja algo que caiba ao homem, talvez, e em alternativa, o caminho para esse harmonia não passe pelas realizações exteriores, mas pela procura de um centro interior onde entremos em harmonia connosco e, a partir daí, com os outros.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Da natureza dos eclipses

Albert Bloch - Eclipse azul (1955)

Na verdade, um eclipse não é, para nós homens, essencialmente um acontecimento astronómico onde a luz de um astro é ocultada pela interposição de outro. Um eclipse é o símbolo da condição humana, da situação do homem na Terra. Entre o homem e a Luz há sempre a interposição de qualquer coisa. E o eclipse é tão continuado que o homem chega a pensar que a Luz não existe.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Haikai do Viandante (167)


Um céu de gaivotas
cobre de cinza e chumbo
as ondas revoltas.

domingo, 17 de novembro de 2013

A libertação do destino

Raquel Forner - Destinos (1939)

Se o viandante se põe a caminho não é para cumprir um destino ou para certificar a inexorabilidade de um fado. Não, o pôr-se a caminho do viandante visa enfrentar o destino e dissolver a fatalidade. A vida espiritual é a aprendizagem íntima de ser livre, a conquista da liberdade. Não da mera liberdade social, mas da liberdade que nasce da emancipação da fria e cruel necessidade, que nasce da libertação de todos os fados e de todos os destinos.

sábado, 16 de novembro de 2013

Temor, respeito e amor

Egon Schiele - Cidade amarela (1914)

Em certa cidade, havia um juiz que não temia a Deus nem respeitava os homens. (Lucas, 18:2)

A frase de Lucas - frase que ele põe na boca de Cristo - traça a visão tradicional do fundamento das sociedades. Por ordem de importância e eficácia sociais, a justiça fundar-se-ia, então,  no temor do absoluto, nível metafísico, e no respeito pelo outro, nível moral. Para além disto, nesse plano comunitário, resta o arbítrio do poder e a violência da política. 

Mas para cada homem, na sua singularidade e no caminho que deve consumar o seu destino, o respeito moral e o temor metafísico são ainda obstáculos. Deixados como único elemento da experiência, reduzem o homem a membro do rebanho, um cego guiado por outros cegos. Aquilo que é fundamental deixa-se descrever melhor pela palavra amor do que pelos termos respeito e temor. Todavia, estamos ainda muito longe de compreender o conteúdo que se oculta numa palavra tão banalizada como é "amor".

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Sem herança

Aurelio Arteta - Quatro gerações

Na sucessão de gerações, nós podemos medir o progresso material e até moral da humanidade. Mas estamos ainda num nível superficial daquilo que é o mais importante. O nascimento da vida espiritual, a abertura para o mistério do ser, o caminho para a realização de si mesmo, tudo isso se passa a um nível diferente. São assuntos que dizem respeito ao indivíduo, à singularidade da sua vida e da sua experiência. Os avanços de um não são transmissíveis para o seu filho, mesmo este seja apenas aquilo a que se convencionou chamar filho espiritual. Na vida do espírito não há herança pronta a desfrutar. A única herança é a indicação de que cada um tem de fazer o seu caminho pessoal e único.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

O corpo solitário

Mario Sironi - Solidão (1925-26)

Não é na face que apreendemos a solidão. No rosto, podemos descobrir a amargura, o desespero e, acima de tudo, o ressentimento para com a vida. Mas amargura, desespero e ressentimento ainda são formas comunicacionais, ainda pressupõem um outro a quem se dirigem, seja como censura, seja como pedido de auxílio. O corpo, porém, é o lugar da solidão, onde ela se manifesta e se torna dor. A dor de não ser partilhado.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Uma metafísica do corpo

Lucien Freud - Benefits Supervisor Sleeping (1995)

A pintura de Lucien Freud é contemporânea de uma exacerbada esteticização do corpo humano, esteticização que é uma das manifestações centrais do contemporâneo culto do corpo. Muitos dos nus de Freud, mesmo aqueles que retratam pessoas cujo corpo está mais em conformidade com a norma aceite, provocam no espectador um sentimento de desconforto ou mesmo de desagrado. Esta contra-idealização do corpo - encontramo-la também, ainda que de forma bem diferenciada, em pintores anteriores como Egon Schiele - devolve-nos a uma questão central. Essa não é a que parece mais óbvia. Óbvio seria perguntar como deve ser o corpo. Qual a norma? Mas a pintura de Lucien Freud questiona a própria ideia de norma. O que emerge é uma dupla pergunta. O que é o corpo? O que significa ter um corpo? A pintura de Freud abre-nos, assim, não para uma física idealizada e normativa, mas para uma metafísica do corpo, para uma investigação sobre o mistério da encarnação.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

A falta e o excesso

Tamara de Lempicka - The Blue Virgin (1934)

Em Blue Virgin, o estranho quadro de Tamara de Lempicka, encontramos uma meditação sobre a essência da virgindade, daquilo a que se poderia chamar uma vida consagrada. Não é a recusa de uma experiência sexual nem de abertura ao mundo o que está em causa. É antes a afirmação de uma plenitude que existe em si mesma. O recolhimento que vemos não é negação do exterior, mas afirmação pletórica da vida interior, de uma experiência superabundante que, por não necessitar da exterioridade, ganha uma luz própria capaz de iluminar essa mesma exterioridade. O que observamos no quadro não é a falta, mas o excesso.

domingo, 10 de novembro de 2013

Haikai do Viandante (166)


Rocha silenciosa,
aberta para o  segredo
que se abre na terra.

sábado, 9 de novembro de 2013

Diálogos sobre a morte

Karl Schmidt-Rottluff - Conversation on Death (1920)

Poder-se-á falar num diálogo sobre a morte? Platão, no Fédon, colocou a discussão sobre a imortalidade no dia em que Sócrates é executado. Não se tratou de um efeito cénico ou de uma estratégia retórica. Foi, antes, a constatação de que mesmo que se queira falar da morte, só é possível falar da vida, pois, em si mesma, a morte é destituída de sentido . Só a vida lhe dá um sentido e um horizonte.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Poemas do Viandante (438)

Ferdinand Hodler - O dia (figura) (1899)

438. A volúpia de um sonho na manhã

A volúpia do sonho na manhã
abre um caminho de luz
na cama desfeita da noite.

A floresta espera o teu rosto,
o sagrado bulício do silêncio,
a chama do nome que te deram.

Conto as horas que faltam,
suspiro com o vento na ramagem,
brilho se o sol cai em mim.

Sentado sob a copa do outono,
espero que chegues,
um rumor de passos na terra.

Uma sombra toca-me ao de leve.
Trémulo, volto-me para
o prodígio do teu corpo na erva.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Tempo de Outono

Ernst Ludwig Kirchner - Sertigtal im Herbst

São as horas de recolhimento, de meditação sobre o caminho percorrido, de alegria profunda pela multiplicidade de cores que cobrem a natureza. São cores da morte, dir-se-á. Não, são cores da vida, desse estranho mistério que contém dentro de si a própria morte. São cores que chamam pelo pensamento, pela hora da renúncia, pelo desejo de retomar a viagem sem fim.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Bezerro de ouro

Emil Nolde - Dance Around the Golden Calf

Mais que descrição factual, a história do bezerro de ouro é símbolo eterno da nossa venalidade. Frágeis, os homens rapidamente trocam o seu caminho, aquilo que, no segredo do seu coração, chama por eles, pela adoração do bezerro de ouro. E nunca como hoje o bezerro de ouro esteve tão presente no mundo.

sábado, 2 de novembro de 2013

A verdadeira herança

Alejandro Mesonero - Deserdados

O que leva o Viandante ao seu caminho, à busca daquilo que chama por ele? Talvez seja o sentimento de ser um deserdado da terra. Ser deserdado significa que foi excluído de um bem que, por via da filiação, lhe deveria pertencer. Mas não é essa exclusão que move quem se põe a caminho. É uma exclusão muito mais funda e radical. É a súbita percepção de que todos os bens que poderia herdar ou adquirir são irrelevantes e não são mais do que poeira que se dissolve no horizonte. Essa hora de decepção leva ao desejo de encontrar aquilo que lhe cabe, a sua verdadeira herança, a prova da sua filiação. É a voz dessa herança, o sentimento de um vínculo, que chama pelo Viandante e o põe a caminho e no caminho.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Haikai do Viandante (165)


pedra sobre pedra
uma imagem do passado
a glória da terra

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Autoridade espiritual e poder temporal

Albert Gleizes - Autoridade espiritual e poder temporal (1939-40)

Ao considerar a velha expressão autoridade espiritual e poder temporal no âmbito da divisão das funções de governo do mundo perde-se aquilo que ela diz em si e por si mesma, para além das esferas privadas da religião e da política. O poder, pela sua natureza temporal, traz em si a marca da sua finitude. Todo o poder é temporal e, por isso mesmo, temporário. O que marca o espírito é, por seu turno, a autoridade e nesta o que está a ser pensado não é o mando ou a ordenação, a não ser como sentido derivado, mas a autoria. O espírito é autor e é nessa e dessa autoria que tem e lhe advém a autoridade. O poder é sempre caduco, o espírito cria e cria-se continuamente.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Abrir a janela

Karl Schmidt-Rottluff - A Janela Aberta (1937)

A primeira etapa da viagem termina quando o viandante abre a janela e depara com o vasto mundo. Estranho que uma etapa termine quando ainda não se começou a andar, quando ainda não se saiu de casa. O dramático, porém, é que a generalidade da espécie humana, por muitas milhas que tenha percorrido, nunca sai da sua casa, desse lugar onde tudo se refere a si. Nunca sai de si e dos seus pequenos, por grandes que sejam, interesses. Abrir a janela é então a primeira e decisiva etapa, pois abrir a janela não é outra coisa senão o abrir-se ao acontecer e ao que, no devir, nos chama.