Mostrar mensagens com a etiqueta Encarnação. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Encarnação. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 1 de junho de 2015

O mistério da encarnação

Umberto Boccioni - Dynamism of a Cyclist (1913)

O mundo contemporâneo preocupou-se, essencialmente, com o dinamismo dos corpos. Melhor: interessou-se, em primeiro lugar, com a dinâmica dos mecanismos, pois o corpo, no século XVII, foi reduzido a uma máquina e, desde então para cá, nunca o deixou de ser, uma máquina cada vez mais eficiente e atraente, mas não mais do que uma máquina. Para penetrarmos no mistério - no sagrado mistério, diria - do corpo é preciso, em primeiro lugar, suspender o fascínio pelo seu dinamismo mecânico. Depois há que ousar e perceber que o corpo não é outra coisa se não espírito que ganha carne, espírito encarnado. E aqui reside o mistério, o mistério da encarnação.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

O espaço da viagem

Javier Rodríguez Quesada - Altar

Deve-se aos estudos de Mircea Eliade a consciência da separação, nas sociedades tradicionais, entre espaços sagrados e espaços profanos. Os primeiros seriam o lugar de revelação do Totalmente Outro, os segundos, o lugar da vida quotidiana. A consciência moderna atenuou a intensidade dos espaços sagrados quase até os tornar invisíveis. O caminho do viandante, contudo, é o da constatação da sacralidade de qualquer espaço, pois em qualquer lado se encontra o altar onde a absoluta alteridade ganha carne e se manifesta.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Uma metafísica do corpo

Lucien Freud - Benefits Supervisor Sleeping (1995)

A pintura de Lucien Freud é contemporânea de uma exacerbada esteticização do corpo humano, esteticização que é uma das manifestações centrais do contemporâneo culto do corpo. Muitos dos nus de Freud, mesmo aqueles que retratam pessoas cujo corpo está mais em conformidade com a norma aceite, provocam no espectador um sentimento de desconforto ou mesmo de desagrado. Esta contra-idealização do corpo - encontramo-la também, ainda que de forma bem diferenciada, em pintores anteriores como Egon Schiele - devolve-nos a uma questão central. Essa não é a que parece mais óbvia. Óbvio seria perguntar como deve ser o corpo. Qual a norma? Mas a pintura de Lucien Freud questiona a própria ideia de norma. O que emerge é uma dupla pergunta. O que é o corpo? O que significa ter um corpo? A pintura de Freud abre-nos, assim, não para uma física idealizada e normativa, mas para uma metafísica do corpo, para uma investigação sobre o mistério da encarnação.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

A canção da carne

Max Ernst - La chanson de la chair

Talvez o enigma da carne resida na sua íntima conexão com o tempo. É através dela que entramos no reino da temporalidade. Por exemplo, a experiência da rotação entre dia e noite ou a revolução das estações com o seu eterno retorno ainda não representam por si a experiência do tempo. A experiência directa do tempo nasce da progressiva consciência das metamorfoses da carne. São estas transformações que arrastam o espírito e o prendem no fascínio temporal. Trata-se de um verdadeira queda. A intemporalidade espiritual é arrastada pela carne para a finitude e a mutação. Mas não seria mais sensato falar de corpo em vez de carne? Não. Apesar do corpo, do meu corpo, ser carnal é possível separar um do outro. Pelo corpo, experimento o espaço e o limite da minha figura; pela, carne percebo o tempo e, como disse, a finitude. É através dela que tenho acesso ao fluxo da vida. É este fluxo, onde o espírito caiu, que é uma elegia, a verdadeira canção da carne.

sábado, 3 de maio de 2008

O mistério da encarnação

A descida de Deus, do absoluto, na relatividade da carne e do tempo. Como poderia o olhar humano relativo e preso ao relativo perscrutar o fundo abissal do absoluto? Como poderia o corpo humano pressentir o eterno se tudo nele é temporal e passageiro? Mas a vinda do Cristo não é apenas a revelação do absoluto, do eterno e do divino ao homem. Ela é ainda uma outra coisa incompreensível e escandalosa tanto para a minha razão como para a minha sensibilidade: o tempo ainda participa da eternidade e a carne, aquela de que digo: isto é o meu corpo, é na sua corrupção tocada pela incorruptibilidade. Cristo é a proclamação de que há mais no tempo e na carne do que o mero passar e a funesta aniquilação: neles também habita o eterno, o absoluto e o divino.