sábado, 11 de agosto de 2012

Poemas do Viandante (324)

324. O PERDIDO PODER DE TE RESSUSCITAR

O perdido poder de te ressuscitar,
de trazer à vida o murmúrio dessa voz,
o calor suspenso sobre a casa.
Começado o declínio, nada nos salva,
o barco corre sonâmbulo pelo rio
e a foz, apenas o nada que te aguarda.

Desesperam os que amam a beleza,
essa lúcida inclinação para a loucura,
pois sempre que a respiração se suspende,
ela retoma o ritmo, o hábito lho deu.
Tão frágeis os nossos juízos,
que tomamos por belo aquilo que passa.

Na casa recusamos ver o salitre
e na face, aquela que mais amamos,
esquecemos o ruminar das horas.
Pobres poderes são a nossa herança:
um riso, a flor da camélia, uma noite,
a breve alegria do esquecimento.