segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Poemas do Viandante (340)

340. ESTA É A HORA EM QUE O POETA SE SENTA

Esta é a hora em que o poeta se senta
e olha a vastidão das praças,
o deambular confuso do tráfego
e, suspenso sobre o enigma do tempo,
pergunta quem por aquelas avenidas virá
e quais as palavras que se soltarão para
que outro mundo venha sobre os jardins
e novos arquitectos desenhem
a luz e a sombra, a água pura e a fonte
onde rebanhos metálicos virão matar a sede.

Deram-te a cegueira por destino
e a placidez do sentimento no lugar da exaltação.
As palavras que te saem dos dedos
de pouco servem, menos ainda para anunciar
futuros ou uma graça salvífica.
São apenas traços na areia, pedaços de cana
seca pelos ardores de um estio que não acaba.
Apontam-te o dedo pelo silêncio da acção
e esperam de ti o dom da profecia,
o empenho do soldado na batalha vencedor.

Este não é um tempo de indigência,
apenas os poetas estão presos ao destino das
palavras, ao sangue da língua,
pela qual vieram cegos ao mundo,
e na ausência de luz tomam uma sílaba,
uma letra, a precária sintaxe,
e com tudo isso compõem um stabat mater dolorosa
para que o mundo possa rumorejar
e a natureza ferida encontre uma voz,
o suspiro das agulhas do pinheiro,
o cântico da água ao despenhar-se na montanha.