segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Poemas do Viandante (350)

Isidre Nonell Monturiol - Miséria (1904)

350. VIVEMOS OS DIAS EM QUE A POBREZA SE TORNA NATURAL

Vivemos os dias em que a pobreza se torna natural,
pedra de calcário arremessada no caminho,
um jogo de palavras que fecha portas e janelas,
casas de súbito assoladas pelo incêndio,
o devastador sorriso nos que têm império.

Sou o mais pobre entre todos os pobres,
pois nem minhas são as palavras com que escrevo.
Nada tenho, nada espero, nada quero.
A morte virá e tornar-me-á tão rico
como qualquer outro que para ela foi arrastado.

Dói-me, porém, a roda do mundo
e o destino avaro a cair sempre sobre os mesmos.
Dói-me a desfaçatez dos incendiários,
a insolência dos que ordenam os jogos,
o despudor homicida dos maiorais.

Entro para o segredo que habita a floresta,
os míseros matagais da infância,
o grito inapagado do vento norte.
Conto os ramos secos e os ninhos abandonados,
e essa é agora a única pátria que me resta.